2005-04-20

"Eu sou a...

Manuela..." e este é o eco do meu agradecimento de ontem à noite aos convidados do telejornal: "Muito Obrigado!".

Também podia ter dito: Muito agradecido, grato, reconhecido...

"Passei" pela TVI, depois de ter assistido ao telejornal noutro canal, e foi só o que ouvi, mas...valeu a pena! E o Miguel que estava distraído!

2005-04-19

O Casal do 28

Há mais de uma semana que observo com apreensão e alguma tristeza o casal do 28.
O Sr. está abatido, desloca-se apoiado numa canadiana ou está sentado à porta.

Por vezes, caminham de mansinho, lado a lado, e a esposa apoia-o na sua deslocação desequilibrada, dando-lhe o braço, ou reconfortam-se, em silêncio, no banco do jardim.

Ontem a Sr.ª encontrava-se sozinha à porta, esperando... Cumprimentei-a com um sorriso de esperança e perguntei-lhe pelo "vizinho", que aguardava lá dentro, sentado...

As raízes que criaram ao longo destes anos sustentam as areias que sopram e que não os detêm!

Sinal de Chuva

O som característico da sua gaita, prolongado, recuando e renovando-se como as ondas do mar, anunciou-mo antes que o avistasse e, nas notas que enchiam o espaço, reli as sábias palavras do povo: "sinal de chuva!..."

Percorre as ruas, empurrando o seu carrinho ou amparado à sua bicicleta, ansioso pela presença das donas de casa que o esperam com ofertas de trabalho, que executa por conta própria, accionando a roda de esmeril com o pé, afiando no rebordo: tesouras, facas, navalhas e outros instrumentos cortantes.

Este amolador - amola-tesouras, como se diz no Alentejo - tinha o peito curvado, denotando cansaço do peso dos anos, as barbas longas, o cabelo escondido sob um boné, o corpo magro, denunciando efeitos dos míseros proveitos do seu trabalho, os olhos fitos no chão procurando ou escondendo algo...

Faltava, atrás de si, um bando de crianças curiosas, mal vestidas e felizes, que eu via na minha infância...

A Sant'Ana

Senhora Sant'Ana
Subiu ao monte;
Onde se sentou
Nasceu uma fonte.
Vieram os anjos
Beberam dela.
Que água tão boa!
Que senhora tão bela!

(Poema tradicional)

O Tempo...

O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda basta o tempo.

(UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA - Mia Couto)

2005-04-18

Reflexos - XXIII

Deixa a mão
caminhar
perder o alento

até onde se não respire

Eugénio de Andrade

Palavras - XXII

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à  boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny

Hoje

(7h 26m)

O dia vestiu-se de tristeza cinzenta e chorosa, porque a Menina do Nenúfar despede-se da Terra e voará, transformada em pomba branca, para além das nuvens, onde o Céu é sempre azul, os campos sempre verdes e floridos, regados com sorrisos alegres de crianças, as águas sempre calmas, transparentes e orquestradas de notas sem dor, aplaudidas pelos Anjos em hinos de Paz.
As suas asas acariciarão os rostos tristes, as flores perfumadas do seu bico limparão as lágrimas do jardineiro de olhar assustado e perdido de menino, que arrumará os livros tombados nas prateleiras...

A Menina do Nenúfar

(Pedaços dispersos do livro "Os Olhos do Homem que Chorava no Rio")

"Está e não está a menina, outra vez."
"Pé ante pé, caminhando pela margem, devagar como quem não tem pressa nenhuma, a menina do nenúfar segue o rio na direcção oposta à das águas. Vai descalça, pisando a relva e as pedras do chão. Leva na mão uma flor branca... O sopro do vento marítimo agita-lhe o cabelo e nele escreve arabescos."
"Tem doçura no rosto e, nos olhos, espanto.Parece ter crescido um pouco desde que aí está, desde que começou a ler os segredos do sonho.
O que se lhe vê nos lábios parece ser um sorriso. Sim, é um sorriso. Um sorriso sereno como as águas numa tarde de sol."
" O vulto segue-a de cara levantada e tenta respirá- la pois não lhe pode tocar,
nem dizer asa, leve, pássaro, suco."
"Está e não está a menina, outra vez..."

Inscrição para epitáfio

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.

(Sophia de M. B.Andresen)

2005-04-17

Retalhos de Tira-Teimas - 3

Aniversários de Casamento

1 ano - Algodão
2 anos - Papel
5 anos - Madeira
7 anos - Lá
10 anos - Estanho
12 anos - Seda
15 anos - Porcelana
20 anos - Cristal
25 anos - Prata
30 anos - Pérola
35 anos - Rubi
40 anos - Esmeralda
50 anos - Ouro
60 anos - Diamante
70 anos - Platina
75 anos - Alabastro
80 anos - Carvalho

Arcio-íris - XVIII

Na sequência do arco-íris anterior, parece-me oportuno fazer algumas referências ao futuro e ao imperfeito do indicativo, para melhor compreensão do emprego que fazemos destes tempos no nosso quotidiano (cotidiano -grafia dupla)

FUTURO

O futuro expressa:

1. Factos certos ou prováveis, posteriores ao momento em que se fala.

1.1 Facto certo e próximo do momento presente.

Ex.: Amanhã acabo de ler o livro.
(advérbio ou expressão de tempo - ex.: amanhã - e o presente do indicativo do verbo - ex.: acabo)


1.2 Acção futura imediata.

Ex.: Eu vou acabar o trabalho
(presente do indicativo do verbo IR - ex.: vou - e o infinitivo do verbo - ex.: acabar)


1.3 Acção futura obrigatória, independente da vontade.

Ex.: Eu tenho de acabar o trabalho.
(presente do indicativo do verbo TER - ex.: tenho -, preposição de e o infinitivo do verbo - ex.: acabar)


1.4. Intenção de realizar uma acção.

Ex.: Eu hei-de acabar o trabalho.
( verbo HAVER -ex.: hei -, preposição de - ex.: -de - e infinitivo do verbo - ex.: acabar)


2. Factos incertos, suposições, sobre actos actuais.
Ex.: Bateram à porta. Quem será? – Seráa Rita?


PRETÉRITO IMPERFEITO

O pretérito imperfeito expressa acções e estados passadas, mas não concluídas.


1. Descreve recordações de uma época passada.

Ex.. Nesse tempo, elas brincavam com bonecas, saltavam à corda e liam histórias de encantar.


2. Descreve uma acção passada repetida habitualmente.

Ex.: Dantes eu lia e escrevia muito.


3. Apresenta um facto geral que pode opor-se ao presente.

Ex.: Em 2000 um pão custava 180$00.


4. Duas acções simultâneas: uma que está a decorrer quando acontece a outra.

Ex.: Ele estava a almoçar quando ouviu a notícia.


Alguns Advérbios e Expressões de Tempo mais Usadas com o Pretérito Imperfeito:

- antigamente;
- dantes;
- em tempos;
- nesse / naquele tempo.

2005-04-16

Pétalas de Bem-te-Quer - 6.ª

Pétalas de despedidas-de-verão para coroar os cabelos da Menina do Nenúfar, que se despendeu da Terra e voa em direcção ao Paraíso, deixando atrás de si o seu doce olhar, a sua voz suave, a delicadeza dos seus gestos e expressão, instantes que não viveu, lágrimas para limpar no rosto do seu amado, dor para confortar no seu coração, livros mudos e tristes, num abraço de até ao céu...
..."Car, là-haut au ciel, le paradis, n´est-il pas une immense bibliothèque?" Gaston Bachelard

LEITURAS 5

" A Chuva Pasmada", mais um belo livro de Mia Couto!

«Ante o frio
faz com o coração
o contrário do que fazes com o corpo:
despe- o.
Quanto mais nu,
mais ele encontrará
o único agasalho possível
- um outro coração.»

(Conselho do avô)

A Ávore de Cabeleira Roxa

A árvore da Primavera, de cabelos roxos ao vento, que esvoaçam na direcção de Sines, chama-se olaia, segundo informação dos jardineiros da Câmara deste município, que cuidam de algumas parentes suas, ainda "meninas", dispersas no Jardim das Descobertas - a D. Delmira, que as conhece melhor, confirmou a sua identidade.
Uma delas, orgulhosamente instalada à beira do lago, é das que leva a vida a mirar-se ao espelho. Abrigada pelos prédios que a protegem do vento norte, cresce harmoniosa e elegantemente, privilégio de que não desfrutam as suas irmãs, vizinhas da ponte perto do coreto.
As suas flores em cacho, cor-de-rosa forte, sempre prenderam a minha atenção, sobretudo quando se mesclam com as folhas viçosas que despontam, e me chamam com o perfume que inalam, se passo apressadamente por elas sem as beijar com o olhar - despeço-me de algumas, porque já se vão transformando em vagens...
A olaia, oleira - grafia dupla -, é uma árvore ornamental cultivada em parques e jardins.

Papel mata-borrão - 4.º pingo de tinta

Com tinta azul, calma e contemplativa, reescrevo o circo, espectáculo único da minha meninice, de um dia especial em que o meu filho mais velho dançou alegremente no meu ventro ao som de um órgão - instrumento que veio a aprender a tocar com destreza, segundo a professora -, de renovada vivência durante doces anos entre entusiasmos, gargalhadas e silêncios meio assustados dos meus meninos e demais crianças...
O vento trazia a voz rouca, apressada e ansiosamente esperada do anúncio da festa, antes de se avistar o carro iluminado com a insígnia do circo, e da leitura imaginária e hipnótica dos cartazes.
A entrada para os espectadores de palmo e meio podia ser gratuita, mas muitos pagavam os seus próprios bilhetes antecipadamente com colheradas de comida engolidas sem apetite, com bons comportamentos indesejados, mas oportunamente necessários...
As "roulottes" encantadas, as jaulas robustas, os carros cansados de transporte de animais, a azáfama ininterrupta dos empregados, a elevação da tenda com a sua cúpula - "chapiteau"- decorada com luzes apelativas e freneticamente cintilantes, faziam antever: a pista; as bancadas; os músicos com os seus fatos vermelhos de galões e botões dourados; o apresentador enérgico e palrador; as exibições emocionantes dos acrobatas; os perigosos, suspensos e silenciosos voos e saltos mortais dos trapezistas; os temerários domadores de feras obedientes, que mostravam os dentes ao som do chicote; os ginastas de corpo elástico e flexível; os mágicos que faziam aparecer e desaparecer coelhos, pombas, lenços e faziam nascer moedas das orelhas e dos narizes dos espectadores mais próximos; os malabaristas, exibindo arcos e esferas; os macaquinhos ciclistas; os cavalos inteligentes e habilidosos, ao compasso da música, e os cavaleiros heróis; os elefantes possantes e ginastas; os esperados palhaços de vestimentas fantásticas, garridas, desmedidas, de sapatos de gigante pobre, de rosto de cal, de enormes narizes vermelhos e esborrachados, de bocas de peixe, que faziam rir com os gestos e com palavras, mas pareciam magoar-se nos pregos, nas trampolins, nas cambalhotas...; os doces, as fotografias e as recordações que uma bonita e elegante artista / vendedora "oferecia" num tabuleiro que pendia do seu pescoço...; os aplausos antecidos de choros de crianças sensíveis e de gritinhos de senhoras "frágeis"; o doloroso desfile final, as pirâmides coloridas de animais, artistas, misturado com o brilho encandeante de lantelojas, entre sorrisos e gestos de despedida e de agradecimento de todos os protagonistas do espectáculo, suscitando vontade de permaner ali ou voltar na sessão seguinte...

2005-04-15

O Sócrates antes do José

O Sócrates da História da Filosofia não publicou nenhuma obra escrita, mas foi um excelente comunicador com os seus concidadãos - nas reuniões, festas, ginásios, assembleias - e influenciou gerações.
O seu aspecto humilde contratava com a sua inteligência e capacidade de argumentação.
Participou em batalhas, evidenciando-se pela sua coragem, patriotismo e resistência física, mas achava que lhe tinha sido confiada a missão de levar os seus conterrâneos a conhecerem-se a si mesmos.
Tradicionalmente, ficou conhecido como o filósofo douta ignorância - só sabia que não sabia; abriu o caminho para a lógica clássica; conduziu os outros à abertura para a sabedoria e à purificação do espírito, utilizando o método interrogativo, que apelava à reflexão; defendia que ninguém erra voluntariamente
Segundo Aristóteles, "trouxe a Filosofia do Céu para aTerra" - desviou a atenção dos pensadores da Natureza física para o Homem.
Foi injustamente acusado de corromper a juventude e de introduzir novos deuses na cidade, tendo acabado por ser condenado à morte e a ingerir cicuta, o que enfrentou com estoicismo.
Platão, seu discípulo, apresenta-nos a sua filosofia nos Diálogos e descreve a sua morte, de forma idealizada, no Fédon.

Com Sócrates no café!

Não, não foi o 1º ministro que encontrei no café.
Foi o outro, o filósofo grego, nascido lá para o ano 400 a. C., filho do escultor Sofronisco e da parteira Fenareta (juro que ñ inventei tal parentesco).

Pois, no café, ao pegar no pacotinho de açúcar, lá estava um pensamento do Sócrates:
"NÃO CONHECER O PRÓPRIO VALOR É IGNORAR- SE A SI PRÓPRIO."

Não sendo para mim , esta frase uma revelação, gostei de saber que eu e tal celebridade partilhávamos os mesmos "pontos de vista"!

E só por isto, valeu a pena ir tomar o pequeno almoço fora.

Os coelhinhos!

Iam dois coelhinhos
andando apressados
para o céu- com medo
de serem caçados.

E também com medo
de passarem fome.
Pois- quando não dorme-
o coelhinho come.

E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
Õ Céu era longe
e a fome era brava.

Jesus riu, com pena:
Fez brotar da Lua
- para eles- florestas
de cenoura crua.

(Odylo Costa, Filho - Brasil)

Cartão-de-Visita

Escrito no dia seguinte ao acontecimento, aniversário do segundo mês de existência, e a lápis, à boa maneira dos nossos avós, as sardinheiras entregam "em mão" o seu cartão com dobra perfumada, agradecendo todas as visitas ao seu jardim multicor e as regas dos que chamaram o jardineiro.
Muito Obrigada e um dia alegremente florido!
Aurora e Carolina

2005-04-14

Mar, Maria, Mariana, Mário...

O SR. Mário!
Lá estava ele, hoje.
Sentado num banco, na avenida da praia, conversava com um imaginário interlocutor.
Não ouvi o que dizia, mas isso também não importa, porque sei que o que ele diz não faz muito sentido para as nossas "cabeças lúcidas".
O Sr. Mário imagina- se um eléctrico, (desses que circulam nas ruas de Lisboa), e calcorreia todos os dias Kms e Kms num ininterrupto "pára- arranca" solitário.

Não fala com ninguém e ninguém fala com ele!

Aqui há uns tempos atrás, ele parava para falar comigo, e chamava- me "madrinha da amizade", agradecendo a atenção que eu lhe dava: -SOU UM EXCLUIDO DA SOCIEDADE- repete ele com muita frequência.

Numa dessas tardes, o Sr. Mário (mais eléctrico do que nunca) disse- me:
- Olhe minha senhora, eu até a levava, mas na verdade não posso porque estou cheio.
Respondi: - Obrigada, mas eu preciso mesmo é de andar a pé!
E lá seguimos, eu caminhando para um lado, e ele deslizando nos seus carris imaginário, para o outro.
Então, a minha "lúcida cabeça" ficou a pensar: E se ele não tivesse a lotação esgotada, como é que eu iria recusar tão amável convite sem o ofender?

É, Sr. Mário!
Talvez que o senhor se imagine um eléctrico, para poder fingir que a sua "lotação esgotada"é afinal um numeroso e solidário grupo de Amigos.

Não me ofereça boleia, por favor, mas pode contar sempre com o meu -"Bom dia, como está?"


Palavras - XXI

Na Praia

Estava na praia
E comecei a brincar
A formar palavras
Começadas por Mar.

Marciano, lá de Marte.
Marmelada, no meu pão.
Martelada, no dedão.
Março, mês da Primavera.
Marta, Márcia e Martinho,
Estes são meus amiguinhos,
Que no nome têm Mar.

Mar tão lindo,
Mar tão verde,
Mar agradável de se olhar...

A Moderna Magia do Saber

Um abraço de Mar para os meus amigos que o têm no seu nome: Maria, Margarida, Marina, Mariana, Mário, Marisa, Marla, Marta, Márcio..., e para os que o trazem e a mim no coração - eles têm um poder mágico de transformar a vida numa MARavilha!

Reflexos - XXII

L de letras
- das letras simples
com que escrevo estes versos claros.

L de livros
- desses companheiros
em que a vida se disfarça de silêncio
e a vida não amarelece com as páginas.

L de lilás
- essa flor breve
com um cheiro azul de paz.

L de um anseio
de que está o mundo cheio;
L de um grito
que nos há-de rebentar o peito
e encher toda a cidade:
este L
alto e direito
da Liberdade.

José Carlos de Vasconcelos

2005-04-13

Arco-íris - XVII

Ainda as palavras e a "moda", - hoje no Arco-íris, porque carece de explicação -, a propósito do que acabei de ouvir da boca de um jornalista numa entrevista transmitida pelo canal 2:
- " Falamos na semana passada"(...)

Será que este profissional não conhece a diferença entre o presente do indicativo - falamos - e o pretérito perfeito -falámos e não tem noção da responsabilidade que tem perante o público?!...
Lembrei-me, também, de um texto de João de Araújo Correia - médico e escritor nascido em 1899 -, do qual transcrevo breves excertos pela sua actualidade:
-" Com locutores e actores é preciso cuidado...Cada um fala como quer, e, se diz asneiras, ninguém lhe vai à mão. Têm carta branca para destruir a pronúncia como lhes der jeito.(...),que ninguém lhe bate. Protege-lhe as costas a rica Irmandade da Complacência Nacional.
Rádio e teatro deveriam ser escolas de pronúncia da língua portuguesa. Pois, não são... "

Deixo algumas notas sobre os referidos tempos verbais, que me parecem úteis:


a) PRESENTE DO INDICATIVO

O presente expressa :

1. Acto quer acontece no momento em que se fala - presente momentâneo.
Ex.: Hoje está calor.

2. Acção ou estado permanente - presente durativo.
Ex.: O mês de Setembro tem 30 dias.

3. Acção Habitual - presente habitual.
Ex.: Eu não bebo e não fumo.

4. Acto futuro - presente com valor futuro – com advérbio ou expressão de futuro.
Ex.: Amanhã vou ao Porto.


b) PRETÉRITO PERFEITO

O pretérito perfeito expressa um acção passada e completamente acabada.
Ex.: Ontem falámos sobre o Papa.


Alguns Advérbios e Expressões de Tempo mais Usadas com o Pretérito Perfeito:

- ontem; anteontem; há pouco; há dias; há semanas; há um ano; há algum tempo; há muito tempo; no domingo( semana, mês, ano) passado.

Para a minha afilhada Carol e irmãos!

A zebra quis
ir passear
mas a infeliz
foi para a cama

- teve de se deitar
porque estava de pijama.

(Sidónio Muralha- Portugal)

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro Bonacheirão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

(Manuel Bandeira - Brasil)

Pétalas de Bem-te-Quer - 5.ª

Com pétalas transparentes e luminosas de diamante reflectindo o brilho e todas as cores do arco-íris com raios de verdade e de esperança, como um jorro de luz solar sobre um manto branco, chamo-te, enquanto esfregas os olhos ainda adormecidos, para veres que...

"Em nouvas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela primavera"

Zeca Afonso

Palavras - XX

Uma palavra ainda
para sentir a terra
uma palavra
onde descubra a boca
acesa, o corpo do amor

Eugénio de Andrade

Reflexos - XXI

O amor continua muito alto
Muito acima, muito fora
Da vida, muito raro
E difícil: maravilhoso
Quando devia ser fiel,
Fiel em cada dia,
Paciente e natural em cada dia,
Profundo e ao mesmo tempo aéreo.
Verde e simples
Como uma árvore!

Alexandre O´Neill

2005-04-12

A vida é... reencontrar um poema!

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casa de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga!!! (Pois claro! E há anos que eu tentava descobrir onde tinha este poema e quem era o autor. ENCONTREI!!! O meu dia está ganho!)
A vida, também é : Reencontrar um poema!!!

O que é?

A vida é baloiçar em constante vaivém, serenamente ou em saudável agitação.
A vida é sentir uma mão amiga que acciona o movimento ou que o modera.
A vida é hesitar, parar, reflectir, erguer-se e prosseguir corajosa e alegremente.
A vida é plantar sementes, regá-las cuidadosamente e esperar que crescem.
A vida é colher flores em caminhos e valados com mãos calejadas.
A vida é manjar de frutos suculentos e agridoces que nos são oferecidos.
A vida é cantar baixinho canções de embalar e hinos de agradecimento e esperança.
A vida é olhar o céu, o sol, as estrelas, o mar, o campo, as pessoas.
A vida é voar no sonho, com coração de criança, dando passos de gente grande.
A vida é visitar o mundo real e imaginário, partilhar e regressar de mãos cheias.
A vida é escutar palavras, mares, ventos, gemidos e gritos silenciosos.
A vida é navegar num mar de diversas ondulações, cores, vozes, direcções.
A vida é dizer com alegria sentida e ternura transbordante: OLÁ, BOM DIA!

Menina do Mar

Reflexos - XX

MARIA

Apresento-me:
Maria

36 anos
seis filhos

Trabalhando desde
os 15

Apresento-me:
Maria

Dobrada sobre
o soalho

na tábua a passar
os dias

Apresento-me:
Maria

Maria Teresa Horta

Arco-íris - XVI

1.TRÁS - advérbio e preposição, após; depois de; em seguida.

Precedido das preposições: a, de, por, para forma locuções adverbiais - tempo ou lugar posterior.

1.1 Trás! - interjeição, som imitativo de pancada ou queda.
Ex.: Trás! Foi o vento! - pensou.

1.2 Trás - elemento de composição que transmite a ideia de anterior.
Exs.:Trás-ante-ontem, trasanteontem, trasantontem; trasmontano - transmontano, grafia dupla - ; trasviar


2. Detrás, Por trás, Detrás de, De trás

2.1 Detrás - advérbio, lugar donde.
Ex.: O Filipe surgiu detrás.

2.2 Por trás - locução adverbial, lugar por onde.
Ex.: O Miguel surgiu por trás.

2.3 Detrás de - locução preposicional, lugar donde.
Ex.: A Rita surgiu detrás da casa.

2.4 De trás - locução adverbial de lugar ou / e espaço.
Ex.: Esta situação já vem de trás.(de tempos atrás).
A Joana observou a escultura de frente e de trás. (lugar)

Além disto, ...
Quem vier atrás que feche a porta, se faz favor!
Mexe as pernas, senão ficas para trás.
Para trás! - ordenou o agente!
Não estejas triste! Deixa isso para trás!
Se ela te ignora, dá-lhe para trás!
Aquele fulano deve estar por trás desta tramóia!

Segundo reza a sabedoria popular...
Atrás da cruz se esconde o diabo.
Atrás de ano ano vem.
Atrás de apedrejado pedras chovem.
Atrás da mentira, mentira vem.
Atrás de mim, vem a encente.
Atrás de mim virá *quem de mim bom fará ( *quem te ensinará; *quem me vingará).
Atrás de morro tem morro.
Atrás de nós virá quem melhor fará (nem todos querem /admitem).
Atrás de queda coice.
Atrás de quem corre não falta valente.
Atrás de quem pediu nunca ninguém correu.
Atrás de tempo vem tempo ( tempo vem)
Atrás de trabalho vem dinheiro com descanso.
Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher.
Atrás do consentimento anda perto o arrependimento.
Atrás do mel correm abelhas.
Atrás de um dia vem outro. - Até amanhã!

2005-04-11

O Alberto (2)----mais uma vez

O Alberto traz- me à lembrança o Renato.
O Renato foi meu aluno em Alvalade do Sado e durante os 4 anos de escolaridade foi prometendo:
- Professora, a minha mãe tem lá uma galinha para lhe oferecer!...
(Nunca vi tal galinha, nem mais gorda nem mais magra.)

O Alberto há meses que tem para me dar um saco de bóias,(pequenas peças de plástico que se prendem às redes, para que estas flutuem).
Todos os dias de manhã me diz:
-À tarde trago- te as bóias, vens cá? (Assim mesmo, porque eu e o Alberto somos,tu cá, tu lá...)
Mas, tal como a galinha, também as bóias não chegarei a ver...

Hoje, como de costume, lá estava ele e eu perguntei:
- Então, não trouxeste as canas de pesca?

- Não- respondeu ele- vim pôr os pés de molho!...
E já vocês o estão a imaginar passeando à beira- mar refrescando os pés.
Pois enganam- se!
Encheu de água um plástico amarelo, em forma de campânula (desses lixos que a maré atira para a praia) e ali ficou sentado numa rocha com os pés de molho, olhando os pescadores.
Depois, pousou- os ( os pés), numa tábua para que secassem ao sol.
E ao meio- dia lá foi... bem calçado e desareado, praia fora, em busca do almoço!

E eu, que não pus os pés de molho, vim almoçar e escrever isto...


E agora...

E agora vou ao calçadão, não à procura de príncipes, mas de gente mais plebeia!
O Alberto, o ti Artur, o Courelas, o homem das gaivotas, o marido da Maria ... e todos os outros que aparecerem.
E já levo preparado o prazenteiro "bom dia" !

Reflexos - XIX

UM AMIGO

Esta noite deitei-me triste.
Abri um livro, passei uma folha, outra folha.
Quando cheguei ao fim tinha o coração cheio
de folhas e de flores...

Matilde Rosa Araújo

Palavras - XXVIII

Ó palavra impossível cuja vizinhança
A outra, útil ou portátil, não consente
Abre o poema, símil da lábil criança.

Rui Belo

2005-04-10

O Primo Luís!

Era Verão e a casa cheirava a café!
A prima Maria Joana e o primo Luís vinham passar férias.
Moravam em Lisboa.
Ele tinha uma loja de tecidos e ela, um "lugar de fruta".( Penso que a loja dela era apenas uma maneira de conservar as cores e os cheiros da sua infância, passada na província entre hortas e pomares).

Mas, vinham no Verão e traziam café!
Café que eu não bebia, mas cujo cheiro conservo até hoje na memória olfactiva. Aromático, penetrante, e conservador de "águas passadas"...
O odor do café, os paladares (caramelos multicolores,que se apregoavam nos Cacilheiros "cada cor seu paladaaar!", e as histórias do primo Luís, serão sempre águas que não passaram.

O repouso (hora da sesta) , fazia- se "estarifados" em cadeiras de lona, debaixo das figueiras.
O Monte chamava- se "Figueira dos Mariais".
E era nessa hora das cigarras que o primo pegava na minha mão e subíamos a um socalco.
Dali avistava- se o Mundo!
Sentava- se numa pedra, comigo ao colo, e... cada casa que se via ao longe era sempre um castelo, ou um palácio e o tema para mais uma das suas histórias.

Tantos anos se passaram, primo Luís, mas olha que naquela casa grande , lá ao fundo, ainda vive a fada boa!
E naquele aglomerado de árvores escuras, donde sai uma nesga de fumo, esconde- se a bruxa má, sempre remexendo o caldeirão dos venenos!
E o cavaleiro? O cavaleiro do cavalo branco, tão formoso, tão valente e tão ágil que passava por cima dos telhados? Lembras- te?
Sabes que ainda há pouco tempo o vi de novo passar, procurando sempre a tal princesa?!

Andarás agora pelo céu, sentado nas nuvens, com os anjos ao colo? Então, conta- lhes.
Conta- lhes, que o café, os paladares e as tuas histórias encheram a minha infância de cheiros, sabores e fantasia!

Sabores à Portuguesa - V

Para os amigos da minha amiga que tem uma cafeteira de bico, Zé A. e Zé P., grandes pescadores de achigãs e não só - demais pescado de água doce e espécies marinhas.

ACHIGÃ À VIANA (MInho)

O achigã é originário da América do Norte. Existe nos Açores desde 1898 e foi introduzido nas águas continentais em 1952. É muito apreciado frito.
Aqui fica uma sugestão para um prato diferente.

1Kg de filetes de achigã
2 folhas de aipo
3 cebolas
1 ramo de salsa
2 dentes de alho
75g de manteiga
5dl de molho de tomate
2,5 dl de vinho branco seco
Azeite, sal e pimenta preta q.b.

Tempere os filetes com sal e unte-os com azeite.
Barre uma assadeira com a manteiga e coloque no fundo as cebolas, o aipo, a salsa e os alhos picados.
Ponha os filetes por cima, polvilhe com pimenta, regue com o vinho e leve ao forno. Passados 10 minutos, cubra com o molho de tomate e deixe acabar de cozer - cerca de mais 10 minutos.

Bom apetite!

Palavras - XXVII

A PALAVRA

Só conheço, talvez, uma palavra.
Só quero dizer uma palavra.
A vida inteira para dizer uma palavra!
Felizes o que chegam a dizer uma pala-
[vra!

Saul Dias

A cigarra

Lá vem a cigarra
Tocando violão
Alegrando o ar
Com a sua canção

Lá vem a cigarra
Com a sua alegria
Canta sem parar
Enfeitando o dia

Lá vem a cigarra
No seu preguiçar
Uns nasceram tristes
Outros a cantar

carolina (cantigas para os meus alunos,1993)

A Borboleta

De manhã bem cedo
uma borboleta
saiu do casulo.
Era parda e preta.

Foi beber ao açude.
Viu- se dentro de água.
E se achou tão feia
que morreu de mágua.

Ela não sabia
- boba! - que Deus deu
para cada bicho
a cor que escolheu.

Um anjo a levou,
Deus ralhou com ela,
mas deu roupa nova
azul e amarela.

(Odylo Costa, Filho) Brasil

Retalhos de Tira-Teimas - 2

ECO - repetição de um som reflectido por um corpo; fama.

ECOLOGIA - ciência que estuda as interacções entre os sers vivos e o meio ambiente.

ECOSSISTEMA - sistema vivo que abrange: ar, água, solos, plantas e animais - ex.: recife de coral, floresta virgem.

EFEITO DE ESTUFA - aquecimento da atmosfera terrestre causado pela acumulação de gases produzidos, principalmente: dióxido de carbono, metano, óxido de azoto e clorofluorcarbonetos, os quais estão na origem do aquecimento global.

ENERGIA - capacidade que um corpo tem de produzir: trabalho, força, vigor, firmeza.

ENERGIA RENOVÁVEL - energia inesgotável proveniente: do sol, das marés, das ondas e do calor do subsolo.

RECURSOS NÃO RENOVÁVEIS - quando formados, não se reproduzem, tais como: combustíveis fósseis, carvão, petróleo, gás, metais.

2005-04-09

Reflexos - XVIII

FAZ DE CONTA

- Faz de conta que eu sou abelha
- Eu serei a flor mais bela.

- Faz de conta que eu sou cardo.
- Eu serei somente orvalho.

- Faz de conta que sou potro.
- Eu serei sombra em Agosto.

- Faz de conta que sou choupo.
- Eu serei pássaro louco,

pássaro voando e voando
sobre ti vezes sem conta.

- Faz de conta, faz de conta.

Eugénio de Andrade

Nota: Cuidado com o "faz de conta", porque, por vezes,as contas saem erradas!

Arco-íris - XV

Imperfeito de Cortesia

I
Eu vinha fazer uma reclamação.

II
- Queria um garoto, se faz favor.
- Queria? E já não quer?
- Claro que sim! O Sr. não percebeu que lhe fiz um pedido delicadamente?!
- Desculpe, estava a brincar! Trago já!
- Podia dar-me um copo de água, por favor?
- Com certeza!

Emprega-se o imperfeito em vez do presente do indicativo para atenuar uma afirmação - I, "vinha"- ou formular um pedido de forma mais cortês - II, "queria"; "podia".

2005-04-08

Reflexos - XVII

BAILIA PRIMEIRA

Vamos bailar! Ai bailar,
Vamos bailar a bailia:
Ai! Quando eu bailo contigo,
À meia-noite é meio-dia.

Matilde Rosa Araújo

Palavras - XXVI

" A minha palavra favorita é "género" uma palavra deliciosa, que nunca mais acaba.
Adoro dizer que alguém "não faz o meu génro". Adoro palavras como "jaez" "estirpe", "têmpera", "feição" e sobretudo "laia". Em português pode ser-se do memo género sem ser da mesma laia. Adoro ver alguém a "fazer género" .
(...)
"Dentro do género" é uma maravilha. (...)
Gostamos é de falar. Calados é que não ficamos. A indefinição e a incomunicação tagarelas são a nossa especialidade. "Dentro de género" é a pérola das pérolas(...)

Miguel Esteves Cardoso

Pétalas de Bem-te-quer - 4ª

Pétalas de um amor-perfeito, a "Daiela" - anteriormente "Danana" -, desenhando palavras da sua boquinha risonha numa pequeninha gravata de cartolina azul, imitação da pintura natural dos seus olhinhos celestiais e cintilantes:

" O pai é amigo!
Dá palmadas e castigo!
Dá miminhos com as barbas!
Dá bolachas!"

Dia do Pai
(2005)

2005-04-07

Arco-íris - XIV

SINTAXE D0 VERBO HAVER

Existe a palavra ,
Mas à existe também:
Quando é tempo tem h;
Quando é lugar ... não o tem.

Havia um, ali perto,
É muito bom português;
Mas continua a estar certo,
Se, em vez de um, havia três.

Aguiar, Irondino T. de


O verbo haver emprega-se em português com dois significados:

1. ter, integralmente conjugável.

Ex.: Eu hei-de conseguir...
tu hás-de fazer...
ele há-de dormir...
nós havemos de aprender...
vós haveis de sorrir...
eles hão-de ajudar-nos...

2. existir, unipessoal - só se conjuga na 3.ª pessoa do singular -, de sujeito considerado indeterminado.

Ex.: Há homens.
Havia rapazes.
Houve raparigas.
Haverá mulheres.


POBRE DO VERBO HAVER

- Olha lá, tu não és burro,
Acaso serás casmurro?...
Cheio de anos de liceu

Tu estudaste mais do que eu,
Foste a universidades...
Porque é que tu dizes HÁ-DES
Em vez de hás-de? És tu parolo,
Ou distraído, meu tolo?!...

Também há-dem é tolice
Pois é: hão-de; assim é que é!
Oh! meu pobre verbo HAVER
Com tais tratos de polé...

Disseste: - Houveram e haviam
Homens na terra e no mar...
- Para que andaste a aprender?
Não sabes que o verbo HAVER

Aqui vai prò singular?!...
Havia, Houvera, haverá
Sábios de... caracacá!
Pois se até assim o diz
Da Língua, um pobre aprendiz!...

Pedro Pires, Ortografia

Palavras - XXV

Ponho palavras como coisas feitas:
Só entre elas, enquanto jogam, leves,
Seu rodado sem cor nem qualidades,
Minha ciência existe, e já não minha,
Ou só tão minha como tua e delas,
Ar entre os dedos, sumo de verdades.

Pedro Tamen

Reflexos - XVI

PERGUNTAS DOS PÉS À CABEÇA

A planta do pé dá flores?
A barriga da perna pode ter apendicite?
As cabeças dos dedos pensam?
As maçãs do rosto devem proteger-se com insecticida?
As meninas dos olhos com que idade se
tornam senhoras?
As asas do nariz voam?
O céu da boca tem estrelas?
As raízes dos cabelos devem ser regadas de manhã ou à noite?

Luísa Ducla Soares

BARCAROLA DOS TRÊS ANJOS

Remando vão remadores
Barca de grande alegria;
O patrão que a guiava,
Filho de Deus se dizia.
Anjos eram os remeiros,
Que remavam à porfia;
Estandar- te de esperança,
Oh quão bem que parecia!
O mastro da fortaleza
Como cristal reluzia;
A vela com fé cosida
Todo o mundo esclarecia;
A ribeira mui serena,
Que nenhum vento bulia.

(Gil Vicente, no auto da Barca do Purgatório)

2005-04-06

Mulheres da vida

Na minha meninice, a certas mulheres, chamava- se- lhes "mulheres da vida".
Perto da rua onde eu morava com a minha avó, havia até uma casa, numa travessinha escondida, onde essas mulhres prestavam os seus serviços.
Com essa gente, não era aconselhável, ficar parado na rua a conversar.
As pessoas "recatadas" não deviam sequer olhar para tais pessoas,dedicando- lhes todavia, um disfarçado cochicho.

Pois, há poucos dias, tive o prazer de rever e conversar com uma dessas mulheres, numa tasquinha em Santiago.
Eu estava a comer quando ela entrou e me cumprimentou com muita afabilidade (conhece- me desde miúda, afinal tinhamos sido vizinhas).
- Olha a Maria Carolina, então como estás?
Convidei- a para se sentar e ali ficámos, conversando das nossas vidas, dos nossos familiares, do frio e do reumático...

Não me pareceu que aquela mulher fosse menos senhora do que qualquer das outras mulheres que passavam na rua.

Saí da tasca pensando no Jorge Amado e na sua TERESA BAPTISTA CANSADA DE GUERRA.
Foi com a leitura deste livro, há muitos anos atrás, que aprendi a respeitar essa tais "mulheres da vida" e a ter por elas simpatia.

E a quem faz, ainda hoje, distinção entre" mulheres da vida" e "senhoras", dou um conselho, leiam esse livro e digam lá:
Como "arma" de afectos não usam todas o "xibiú"?
E não é o "xibiú" que tracam quando estão em guerra?
(Assim fazia Teresa Baptista).

Nota: Xibiú, vocábulo brasileiro, lido e relido nos livros de Jorge Amado.

Mana Bia

De nome próprio Maria das Dores, docemente tratada por "Bia", mais conhecida por "Mana Bia", para mim "Bibi", para os especiais mãe, avó, prima, amiga...
Fazia hoje anos, não sei quantos, e este é o 1.º aniversário que não festeja entre os seus entes queridos. Delicia-se, certamente, com os encantos do Paraíso na companhia do seu saudoso Mano Zé, o do bigode, o falador, o seu companheiro de sempre, o pai dos seus lindos filhos.
Uma presença, um olhar, um sorriso e uma voz inesquecíveis, um bonezinho na cabeça que lhe dava um toque único, a boa disposição, a brisa de S. Torpes acariciando a sua pele de seda, as relações públicas do restaurante da sua iniciativa e por sua conta, a retirada para "cuidar" das galinhas, as viagens em serviço, inadiáveis - pão insuficente, por exemplo - que efectuávamos, entre outras, todas recheadas de prazer e alegria, as saborosas refeições tomadas em família, independente do espaço físico em que nos servíamos, da quantidade de vinho existente no garrafão, dos quilómetros percorridos...
De olhos postos nos seus rebentos, desafiando a menina que sabia que tinha pernas para ainda andar muito - faz Kms medidos a candeeiro público -, zelando pelo seu menino de coração bondoso, temendo que alguém o magoasse, teve a felicidade de ver nascer e crescer a mais bela flor da família.
Abraço com ternura e bendigo os nossos últimos encontros, partilhados com a sua menina, particularmente os sorrisos que me ofereceu, o carinho que permitiu que lhe manifestasse, a tranquilidade que respirava quando lhe respondia, vezes sem conta, à pergunta: "O meu Zé?" - Obrigada, querida Bibi!

Papel mata borrão - 3.º pingo de tinta

Recado

Corre entre os pinhais e bebe a brisa marinha, mas não fujas!
Silencia a tua boca na discrição, mas não sejas mudo!
Protege-te e defende-te, mas não te escondas!
Escuta os pássaros, mas canta com eles!
Fecha-te no castelo, mas abre uma janela!
Aceita o anoitecer, mas acende uma luz!
Reconhece a tristeza, mas abre-te à alegria!
Sente a saudade, mas sorri-lhe!
Adormece, mas acorda para um novo dia!
Tropeça e cai, mas ergue-se com coragem!
Chora, mas deixa que te limpem as lágrimas!
Ama uma criança, mas ouve e segue a sua voz!...

E...
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga

A vida é hoje, é aqui, é agora!

Menina do Mar

Palavras - XIV

Procurei sempre um lugar
Onde não respondessem,
Onde as bocas falassem um murmúrio
Quase feliz,
As palavras nuas que o silêncio veste.

António Ramos Rosa

2005-04-05

Reflexos - XV

X
A minha história?

Não conto.

Se não conto
não é por falta de conto.
Um ponto mais? Há sempre um ponto.

Se não conto
a minha história
nem é sequer
por falta de memória.
É só porque
a minha história é ser feliz.

Podes marcar com um X.

Mário Castrim

Para a minha afilhada Carol!

A minha casinha

Fiz uma casinha
de chocolate,
tapei-a por cima
com um tomata.

Pus- lhe uma janela
de rebuçado
e mais uma porta
de pão torrado.

Pus-lhe um chupa- chupa
na chaminé;
a fazer de neve
açúcar pilé.

A minha casinha
bem saborosa...
comi- a ao almoço
sou tão gulosa!

(Luisa Ducla Soares)

Papel mata borrão - 2.º pingo de tinta

Cotovelos afundados num "chouriço" macio, mãos em concha segurando o rosto quase colado à janela voltada para a praceta, contemplo três estrelas que me piscam o olho, ouço o silêncio, busco as árvores prometidas, acompanho o baloiçar de roupa despida, vislumbro uma senhora a passar a ferro numa cozinha distante...
Já não me apetece fazer mais nada, nem tenho sono - que estranho! Cogito, indiferente ao saboroso cheiro a sopa fresca e a maçã assada, e limpo o vidro embaciado...
A presença de três pessoas de quem gosto em particular, com matiz e intensidade distintas, gira à minha volta, toca o meu coração, prende o meu pensamento...
Abraço uma delas com mel, sol e chuviscos... e ela desprende-me com flores que posso partilhar com uma voz forte de poeta e com uns olhos tristes...
Regresso à janela. Não há luz para além daquela vidraça e as estrelas também foram dormir...
Quando o dia acordar, é preciso caminhar!

Menina da Ribeira

2005-04-04

Francisco

Nasceu em 11 de Junho de 1908, em Aljustrel, Fátima, cresceu num ambiente familiar simples, caloroso e cristão e faleceu no dia 4 de Abril de 1919, às 22h, sorrindo, na mesma casa onde se ouvira pela primeira vez o seu choro - o quarto e a cama estão expostas.
Francisco era calmo, falava pouco, evitava companheiros turbulentos, relacionava-se bem com toda a gente, não reclamava o que fosse seu, se lho retiravam, acolhia todos e manifestava a sua disponibilidade constante, prontificando-se, por exemplo, a reunir as ovelhas de alguma vizinha,
quando fugiam.
Amava a verdade e a natureza, preferencialmente os pássaros cujo canto imitava, protegia os seus ninhos e soltava-os quando eram apanhados; deliciava-se a contemplar o pôr-do-sol e o céu estrelado.
Apaixonado pela música e pela dança, levava horas a tocar flauta e, por vezes, acompanhava a irmã, Jacinta, e a prima, Lúcia, a cantar e a dançar ao som do seu instrumento.
Interessado em aprender, sobretudo a religião cristã, reflectia muito, era obstinado e também pregava partidas aos seus irmãos.
Após a aparição de 13 de Junho de 1917, perguntou à irmã e à prima:
- "Para que estava Nossa Senhora com um Coração na mão espalhando sobre o mundo aquela Luz tão grande, que é Deus?(...)"
Via, mas não ouvia as palavras da Senhora, oferecia orações, sacrifícios pela conversão dos pecadores e visitas ao Santíssimo Sacramento " para consolar a Nosso Senhor"; despediu-se de Lúcia dizendo:
- "Adeus, até ao Céu!"
No dia 13 de Maio de 2000, o Papa João Paulo II proclamou-o e à sua irmã Jacinta Beatos.

LEITURAS 4

Estou a ler "O Silêncio De Um Homem Só" de Manuel Jorge Marmelo.( Campo da Letras)
Um conjunto de contos que me parecem escritos duma maneira muito original.
Estou a gostar!

Manuel Jorge Marmelo, nasceu no Porto em 1971 e é jornalista desde 1989.
Tem cerca de uma dúzia de obras já editadas e tem publicado regularmente textos e contos em diversas antologias e publicações, em Portugal, no Brasil e em França.
Talvez seja um nome a reter na memória...Manuel Jorge Marmelo.

Pétalas de Bem-te-Quer - 3.ª

O mar pintado de esperança por S. Torpes estende-se suavemente na areia e chama pela Menina do Nenúfar, desperta-a languidamente, lambe-lhe uma lágrima, retribui-lhe um sorriso, sussurra-lhe palavras de amor que o seu marinheiro guardou num búzio, entrega-lhe flores de ternura constante, oferece-lhe as suas mãos douradas de sol e...ela levanta-se, débil, mas dá os primeiros passos...
Uma gaivota canta-lhe pela voz do poeta...Recomeça...
Os livros já batem palmas e ensaiam festas...
Uma luz brilha sempre numa janela virada para o mar...
E pétalas multicores e a vida querem abraça-la!...

Madrugada

O silêncio fresco bate às janelas adormecidas. O poeta, a criança e o velhinho ouvem-no e deixam-no entrar com sorrinhos afáveis e ele espreguiça-se pela casa, perfumando-a com fragâncias de rosas silvestres que beijou no jardim.
Ao longe, o mar toca uma melodia suave, que entontece as nuvens bailarinas, leves e transparentes; estrelas risonhas e vigilantes aplaudem de mansinho para não acordarem o sol, o vento, as árvores, os pássaros, os rios, os mares, os outros homens...
A criança chama o cão, o poeta estende as mãos ao mundo, abre as asas do coração, monta a lua, visita os que estão sós e tristes e mata a sua fome com alegria, esperança e coragem...
O velhinho, de olhos abertos para a luz difusa, contempla a aurora, interroga-se sobre o que haverá para além da cada uma das outras janelas, reflecte sobre as maravilhas e a efemeridade da vida, sonha com a paz entre os homens e agradece o novo dia!

Menina da Ribeira

2005-04-03

Flor/Bela

Flor/Bela

Podias ser
Rosmaninho
Alecrim
Malmequer
Uma espiga de trigo
ou
Outra coisa qualquer

Mas disseste, segura:
- SOU A FLORBELA!

(E foi o bastante
para eu perceber
quanto gosto dela)

(Para a minha aluna Florbela, 1983)


Palavras XXIII

As Palavras e a Moda

Há palavras que ainda não passaram de moda, apesar da alteração do seu valor, nalguns casos, verificada ao longo dos tempos. Eis alguns exemplos:
- amor / ódio; paz / guerra; amigo / inimigo; fé / ateísmo; Natal; família; trabalho / desemprego; ler; escrever; escola; música; concerto; vizinho; mundo; solidão; coisa; felicidade; alegria / tristeza; saúde / doença; paixão; namoro; casamento; conflito; estações do ano; chuva, sol, vento, água; casa / sem abrigo; riqueza / pobreza; discriminação; alcunhas: "Banca"; "Malaico"; Calacas; "Amaricano"; nomes de guerra e tantos outros...

Outras, porém, estão na moda, abraçadas a acessórios que marcam a época:
- "Prontos!"; " ´tá" e demais formas da conjugação verbal; "gaijo(a)"; "pá"; "diz que"; "certo (na interrogativa ou afirmativa)"; "tipo"...isto ou aquilo; "género"; " a sério (meu)?"; "estás a brincar!"; "tu não estás bem a ver"; "achas normal?!"; "naquela" - hoje vou à rua, "naquela"; "então vá!"; a gente "vamos / estamos / falamos"; "despoletar", mas querendo significar espoletar; "scanar", em vez de digitalizar e quase todos os vocábulos relacionados com a informática; "amo"... isto ou aquilo; "adoro-te muito"; "odeio"; " vai à / para / te...(calão)"; "manda beijos / cumprimentos meus a...", em vez de: diz-lhe que lhe mando ou dá...; telemóvel; droga, "pó" e afins; "glicémia" - correcto glicemia, palavra grave como: leucemia, septicemia; "benvindo", forma de saudação, nos limites dos concelhos, livrarias,etc.; "piqueno"; antídoto contra"; "cadavéres", em vez de cadáveres; "caiem" - o "i" é que tem de cair; " é assim"...; "complô" - pode escolher: conspiração; conjura; conluio; cabala; trama; maquinação; "encarregue" - o verbo encarregar só tem um particípio, encarregado; "estadia", demora que o capitão do navio é obrigado a permanecer no porto, em vez de estada, acto de estar; "filhoses", que são filhós; "Flórida", Florida, palavra grave; "hall" e outros estrangeirismos - todos ouvimos e alguns repetem, sem saber exactamente o que estão a dizer; "inclusivé" - o último "e" pronuncia-se aberto, mas não leva acento; "quaisqueres" - forma correcta, quaisquer; "rentável", do francês rentable - rendível; "bàcharel" e não bacharel; "mèstrado", em vez de mestrado, palavra grave; "pontífecio", em vez de pontifício; "espèquetadores" e não espectadores; "òvintes"; diminutivos com, sem sufixo ou com ambos - "chauzinho", "Pipo", "Lélézinha!"; vocabulário juvenil, alguns exemplos do que aprendi com os "meus meninos electricistas": "alcaria"; "andorinha"; "baril"; "befe"; "boiola"; "bote"; "calicantes"; "cardanha"; "cota"; "fatela"; "fegete"; "fila"; "garé"; "garino(a)"; "gima"; "gino"; "ibória"; "méria"; "nentes"; "patóio"...; Costa, Monte, Sobreda da Caparica, em vez de Caparica; Santiago "do" Cacém, em vez de Santiago de Cacém; "blogue" (Ah! Ah!)...


Palavras que estão fora de moda, mas que uma minoria persistente preserva:
- respeito; dignidade; honra; educação; tolerâncai; paciência; genorosidade; autenticidade; essência; cumprimento; tirar o boné; pudor; vestíbulo; poltrona...

Palavras adequadas ao contexto social:
- ladrão, gatuno, larápio ou aquele que fez um desvio, cometeu uma fraude;
- bêbedo; apanhou um pifão, uma carraspana, contraposto ao que, simplesmente, se embriagou;
- um velho careca e o Sr. Fino, que está calvo.

E agora...
...inventem-se novas palavras, despertem-se as adormecidas, as que acariciam,as que pedem desculpa, as que alegram;
... guardem-se as dispensáveis;
... multipliquem-se novos sabores, brincadeiras, serões com palavras...

Vou tomar o pequeno almoço, porque, com tanto palavreado, "nã" tarda muito, tenho a "mexela" cansada - foi "bués" estar aqui!

Bom domingo e boa semana!

Convite: Alguém quer aumentar as listas?!...

Sabores à Portuguesa - IV

Para o meu colega de curso, o Nuno, especialista em bifes com natas e cogumelos, uma oportunidade para a igualdade de conhecimentos - a Maria João vai agradecer-me este préstimo -, para enriquecer os dotes culinários do "Chá Principe" e do "Me, Myself and I", para senhores principiantes nesta arte e para quem considerar útil.

ALGUNS TERMOS CULINÁRIOS


ALBARDAR – envolver carne ou peixe em farinha.

ALOURAR – Levar ao lume (forno ou passar pela manteiga) uma iguaria para obter cor dourada.

AMANHAR – Preparar o peixe, tirando-lhe as escamas, as guelras, as barbatanas e as tripas.

BANHO-MARIA – Colocar num recipiente com água fervente outro com o que se quer aquecer ou cozer.

BRANQUEAR - Dar uma fervura rápida em água com ou sem sal às carnes, ervas e legumes de sabor acre, numa caçarola tapada.

CHAMUSCAR – Passar à chama, de preferência do álcool, sem queimar, a carne de aves para eliminar a penugem que ficou depois de serem depenadas.

COAR – Fazer passar um líquido ( caldo, molho, puré, etc.) através de um passador fino ou de um pano.

DOURAR – Pincelar gemas sobre massas ou carne.

ENGROSSAR – Deitar farinha ou gemas num caldo ou molho para o tornar mais consistente.

ESCABECHE – Conserva para peixe feita com: azeite, vinagre, salsa, colorau e alhos.

ESCALFAR OVOS - Fazer ferver água e colocar ovos partidos sem os desmanchar.

ESTUFAR – Cozinhar carne ou legumes, lentamente, num recipiente fechado.

GRELHAR – Assar carne ou peixe nas brasas, sobre uma grelha e fogo lento.

LARDEAR – Colocar na carne tiras de toucinho ou presunto ( há agulha própria).

LIGAR – Deitar uma quantidade de manteiga num molho no fim da sua preparação, ou bater diferentes elementos.

MARINAR – Conservar durante algum tempo carne ou peixe numa preparação de: sal, vinho, vinagre, pimenta, salsa e alho.

PANAR – Passar por farinha, ovo batido e pão ralado, carne, peixe, pastéis, rissóis, etc., ou fazer uma massa com farinha e leite para passar batatas e outros legumes.

PEGAR – Deixar a comida aderir ao fundo do tacho (ou de outro recipiente).

POLVILHAR – Passar farinha, sacudindo-a para que fique agarrada à manteiga com que se untou a forma ou tabuleiro.

RECHEAR – Introduzir nas carnes, legumes, pastéis, bolos, qualquer picado ou mistura.

REFOGAR – Dourar em qualquer gordura: cebolas, tomates, salsa, sal, pimenta, na qual se cozinha carne, peixe ou legumes.

SALTEAR – Passar em manteiga, sobre lume forte, carnes ou legumes.

TRINCHAR – Cortar a carne em pedaços, antes de ir à mesa.

Retalhos de Tira-Teimas - 1

BIODEGRADÁVEL - substância que pode ser decomposta em dióxido de carbono e água, por bactérias e outros meios biológicos.

CAMADA DE OZONO (ozona e ozónio -grafia dupla) - protege todos os organismos vivos do excesso de raios ultravioletas e situa-se entre 20 e 50 Kms acima da superfície terrestre.

CHUVA ÁCIDA - contém químicos existentes na atmosfera, tais como dióxido de enxofre e óxido de azoto, provenientes de queimados combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás) para produção de energia. A chuva, as neblinas e os nevoeiros ácidos podm causar danos graves em lagos,árvores e edifícios.

CLOROFLUORCARBONETES (CFCs) - família de químicos muito úteis, que se encontram em: aerossóis, espumas sintécticas, frigoríficos e sistemas de ar condicionado, que destroem a camada de ozono.

CONVERSOR CATALÍTICO - dispositivo que purifica a maior parte dos fumos venenosos no tubo de escape, excepto o dióxido de carbono.

2005-04-02

Papel mata-borrão - 1.º pingo de tinta

Pegadas...

Desenhei as minhas primeiras letras na areia com uma pena móvel, colorida na extremidade dura e rosada, que também me ajudava a pegar na colher de alumínio que trincava quando não queria comer - tantas vezes! -, que alternei com uma cana quando já me sentia uma menina crescida e ambas foram meus instrumentos de trabalho, tão gostoso, que, apesar das mudanças - o cheiro delirante e imútavel dos lápis, o cuidado com o aparo, a descoberta das esferográficas coloridas, a descarga de tensão e a projecção no teclado - ainda não me cansou...
Colhi salgadeiras; admirei chorões salteados de flores garridas; cheirei camarinheiras e com os seus frutos agridoces que o meu paladar farto rejeitava, preparei deliciosos pratos para as minhas amigas de infância, a quem emprestava a minha voz disfarçada, o meu sorriso puro de criança e a minha imaginação; fui jardineira de jarros brancos e açúcenas perfumadas, que me cumprimentavam inclinadas; corri nos pinhais e entre pedras, fetos, rosmaninho, alecrim; vi nascentes encherem rios de lavadeiras e senti a frescura das suas águas; fiz gaitas com canas verdes; inventei anéis e colheres - "de brincar" com requintados cabos de cana seca cortada - com conchas de lapa, que aprendi a apanhar nas rochas com destreza de trapezista descalça; namorei o céu e contei as estrelas; senti a frescura da chuva, entrei nas poças e lambi gotas; reconheci o tempo que se avizinhava nas vozes do mar e do vento; vi a terra iluminada pela luz dos relâmpagos; enfrentei o ribombar dos trovões; identifiquei motores de barcos que navegavam; brinquei com o sol que beijava a aurora; andei às cavalitas dos tios que jogavam ao pião; adormeci encantada com os contos do avô; fechei os olhos, respirei maresias sem fim, venci vendavais e sobrevivi a tempestades...

Menina da Ribeira

Arco-íris - XIII

1. COINCIDIR - acontecer ao mesmo tempo; ajustar-se exactamente.

Ex.: Os horários de Matemática e de Português coincidem.
ou
Ex.: O horário de Matemática incide com o de Português.


1.1 “Coincidir com” - redundância; a preposição com já entra na forma do verbo coincidir.

Ex.: O horário de Matemática "coincide com" o de Português - incorrecto.


2. CONJUNTAMENTE / JUNTAMENTE COM

Ex.: Recebi conjuntamente as notas dos testes de Literatuta e de Latim.
ou
Ex.: Recebi as notas de Literatura juntamente com as de Latim.


2.1 “ Conjuntamente com” - pleonasmo.

Ex.: Recebi as notas de Latim "conjuntamente com" as de Literatura. - incorrecto.

Palavras - XXII

"Jamais adquirirá ideias exactas ou formará juízos distintos o que das palavras, suas combinações e ligações não tiver noção exacta, clara, e no modo de as empregar e usar não for igualmente correcto e hábil."

Almeida Garrett, Tratado de Educação, 1829

Reflexos - XIV

Eras tu? Era o dia
acabado de nascer.

Que rosa abria? Rosa
ou ardor? Não seria

só desejo de ser
um travo de alegria?

Um fulgor? Um fluir?
Eras tu? Era o dia?

Eugénio de Andrade

A Menina do Nenúfar

...."Entretanto a menina, depois de uns dias de sonos trocados, volta à leitura do rio entre as seis e as sete e um pouco mais.Palavras, tainhas e bogas voltam a deslizar por esta ordem.
......Um pouco de cor lhe voltou às faces e as veias azuis e finas pulsam agora normalmente.
Sente que não está só.
De novo um vulto, pouco mais que uma sombra, voltou para a guardar. Por enquanto não sabe quem é nem ao que vem. Mas não está só na noite fria do lago.
Há um novo casaco que a resguarda da humidade do jardim, é o que sente.
E é tranquilo outra vez o seu sono de líquenes, a sua respiração de musgo, a sua quietude de mármore.
.....Menos transparente o seu corpo, menos roxos os seus dedos, outra vez de puro azeviche os olhos.
Apaziguada, dorme e volta a sonhar as histórias todas".
(Do livro,Os Olhos do Homem que Chorava no Rio, de Ana Paula Tavares e Manuel Jorge Maarmelo, pág. 49)

Venenos...

Experimentem entornar, logo pela manhã, uma caneca de leite dentro do microondas, e digam lá se não ficavam "envenenados"????.........

2005-04-01

Karol

O Anjo polaco que seguiu Jesus Cristo pelas mãos amorosas e puras de Sua Mãe, que cumpriu a missão que lhe foi confiada na vivência do "Amai-vos uns aos outros", no "Ide e ensinai todas as gentes", no apelo ao "Orai..." e no "Alegrai-vos sempre no Senhor", certamente reconhecendo confiadamente que "Deus é o nosso refúgio e a nossa força", está prestes a abrir as suas asas e voar em direcção ao Paraíso...
A sua Mãe Santíssima, que ele honrou no Santuário de Czestochowa e nos de todo o mundo, vela-o, conforta-o e guia-o até ao infinito onde o coro celeste o aguarda com clarins e hinos, contemplando o rosto do Divino Salvador.
No mundo ficarão:
a) o exemplo do "Papa dos direitos do homem";
b) as suas palavras:
- " o futuro da humanidade passa através da família" (1997);
- "o século XX classificará a Igreja como o principal alicerce para a sustentação da pessoa humana durante toda a sua vida terrena desde a sua concepção"(1979);
- " O importante na vida de um jovem é o dia no qual nos convencemos de que este é o único amigo que não desilude, com o qual podemos sempre contar" (1984, quando proclamou o Domingo de Ramos como o Dia dos Jovens);
- "E tu, Faustina, dom de Deus ao nosso tempo, dádiva da terra da Polónia à Igreja inteira, obtém-nos a graça de perceber a profundidade da misericórdia divina, ajuda-nos a torná-la experiência viva e a testemunhá-la aos irmãos! A tua mensagem de luz e de esperança se difunda no mundo inteiro, leve á conversão dos pecadores, amenize as rivalidades e os ódios, abra os homens e as nações à pátria da fraternidade. Hoje ao fixarmos contigo o olhar no rosto de Cristo ressuscitado, fazemos nossa a tua súplica de confiante abandono e dizemos com firme esperança: Jesus Cristo, confio em Ti!" - 30 de Abril de 2000, dia da canonização da Irmã Faustina;
- É importante que acolhamos inteiramente a mensagem que nos vem da palavra de Deus neste segundo Domingo de Páscoa, que de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de Domingo da Divina Misericórdia" - idem;
c) o seu livro de bolso - Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem de S. Luís de Monfort
Alguns cristãos ficarão com a esperança na ajuda divina do Anjo e despedir-se-ão com beijos e lágrimas, esquecendo-se que o momento não é de partida, mas de nascimento para a vida eterna.

A Árvore da Primavera

Lá está ela de novo, sempre de cabeleira roxa toda atirada só para um lado (o lado da berma)!
Metade dos ramos, há anos que foram cortados, para não atrapalhar o trânsito.
E é essa copa, que se derrama só para um dos lados, até quase ao chão, que a torna tão original e lhe dá um ar quase humano.
É a Árvore mais feminina que conheço!
Façam como eu- metam- se no carro, estrada Sines /Santiago.
Já perto de Santiago, depois da zona industrial, à esquerda uma bomba de gasolina e à direita, antes de uma curva, lá está ela : A Árvore!
Vão reconhecê-la e... cuidado, homens, não se despistem!
É que se aquilo não é uma Árvore disfarçada de Mulher, então é de certeza uma Mulher, que por capricho ou vaidade, se enxertou em Árvore para melhor louvar a Primavera.
E apressem-se, porque, logo logo o vento vai desfazer- lhe o penteado!...

Pétalas de Bem-te-quer - 2.ª

Para ti, amiga de coração africano, que bate ao ritmo do mar alentejano, colorido de palavras sem fim, espreguicando-se em praias imensas que tocam a areia com sorrisos únicos e maravilhosos, que prende os teus cabelos de deusa / ciganita nos rochedos, que entrelaça os teus pés em algas macias, que inunda os teus olhos de alegria e limpa lágrimas atrevidas, que te beija com o calor do sol nascente e te envolve no azul celestial donde se desprendem estrelas que te iluminam, pétalas de cores puras do arco-íris, para uma vida preenchida de amor!

Reflexos - XIII

" Em tudo sei e assim descubro
a luz, a água, o pão, o corpo."

António Ramos Rosa

Arco-íris - XII

Ovelha ranhosa? !... Não! Ovelha ronhosa

O pior do grupo (qualquer) é vulgarmente conhecido pela ovelha ranhosa , mas quando existe esse alguém, estamos perante a ovelha ronhosa - pessoa desprezível, maliciosa, de más qualidades.

Ex.: Infelizmente, ela é a ovelha ronhosa da turma.

Ronha - espécie de sarna que ataca as ovelhas e os cavalos.
Ex.: A Anita levou a ovelha e o cavalo ao veterinário e ele diagnosticou-lhes ronha.

Ronha - malícia, manha.
Ex.: Ela está sempre a queixar-se, mas aquilo é ronha.

Ranho - muco das fossas nasais.
Ex.: Assoa o menino, porque ele tem ranho (está ranhoso)

Ranhoso - que tem ranho; pessoa desprezível, maliciosa, de más qualidades.
Ex.: O bebé está ranhoso.
- Cala-te, ranhoso!

Palavras - XXI

Uma palavra ainda
para sentir a terra
uma palavra
onde descubra a boca
acesa, o corpo do amor

Eugénio de Andrade

2005-03-31

E aqui...

E aqui estou à espera
- com este destino
de dar sombra aos muros...

Mas à espera de quê?

Que o despenhar no abismo
me crie enfim asas?

(José Gomes Ferreira)

Arco-íris - XI

Preferir... a...

Antes querer...que (do que)...

Ambas as expressões apresentam o mesmo valor semântico, preferência do sujeito, mas não têm a mesma sintaxe.

A forma verbal preferir indica uma escolha - optar por uma "coisa" em detrimento doutra -, por isso, preferir antes é uma redundância.
O verbo preferir rege* a preposiçãoa - é incorrecto pospor que, ou de que.

Exs.: Prefiro ler um livro a ver televisão.

Antes quero ler um livro que (do que) ver televisão.

* Regência - relação entre duas palavras, servindo a segunda de complemento à primeira.

Reflexos - XII

Toda a tua vida passas,
Margarida,
Tão tola, tão presumida,
Agarrada a um espelho velho!
E afinal as melhores graças
Não as tens: Simplicidade,
Modéstia, Naturalidade...
- Que isso não se aprende ao espelho...

Virgílio Couto

O encarregado

O capacete laranja contrasta com o seu rosto de barba encaracolada, adornado por óculos que lhe permitem a leitura ou a escrita do bloco que traz , orgulhosamente, sempre na mão...Roupa de trabalho, mas limpa, sapatos gastos e esbranquiçados, ossos do ofício, um telemóvel preso à cintura...
Olha o mundo com curiosidade discreta e saúda-o dando os bons-dias a quem passa, tímidamente, sem sorrisos, educamente, acrescentando-lhe um "dona"...
E eu retribuo-lhe o cumprimento, mas escondo o sorriso...não sei se seguindo a prudência que a minha mãe me ensinou quando era pequena, porque não se conhece, se inibida pela dor que renasce no meu peito pela discriminação que muitos insistem em empunhar e que envergonha a raça humana...e as dolorosas palavras e estórias dos africanos ecoam na minha mente...

GRITO NEGRO

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão.
E fazes-me tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não
Patrão!

Eu sou carvão!
E tenho que arder, sim
E queimar tudo com aforça da minha combustão.

Eu sou carvão!
Tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas da maldição
Arder vivo como alcatrão, eu Irmão
Até não ser mais tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
Tenho que arder
E queimar tudo como o fogo da minha combustão.

Sim!
Eu serei o teu carvão
Patrão!
José Craveirinha

Recordo, orgulhosamente, o comportamneteo digníssimo do meu paizinho, pioneiro em "pôr a bordo" cabo-verdianos, ensinar-lhes a arte de pescar , alojá-los e sentá-los à nossa mesa nos dias de Natal - coisas de gente grande, despida de preconceitos!

2005-03-30

Palavras - XX

As palavras têm moda. Quando acaba a moda para umas começa a moda para outras. As que se vão embora voltam depois. Voltam sempre, e mudadas de cada vez. De cavez mais viajadas.
Depois dizem-nos adeus e ainda voltam depois de nos terem dito adeus. Enfim - toda essa "tournée" maravilhosa que nos põe a cabeça em água até ao dia em que já somos nós quem dá corda às palavras para elas estarem a dançar

Almada Negreiros

Pétalas de Bem-te-quer - 1.ª

Deixa que uma delicada pétala branca acaricie docemente as tuas pálpebras adormecidas com beijos de luz perfumados de alegria e que nos teus olhos despontem sorrisos tímidos de esperança.

LEITURAS 3

Ai este Mia Couto, este Mia Couto...

"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença : é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção de alma que nem chegou a falecer."

"Chaminé que eu construísse na minha casa não seria para sair o fumo, mas para entrar o céu."

"O mar tem um defeito: nunca seca. Quase prefiro o pequenino lago da minha aldeia que é muito secável e a gente sente por ele o mesmo que por criatura vivente, sempre em risco de terminar."

"A canoa se fez ao mar, um cisco entrou nos olhos de Deus."

( Do livro Mar me quer)

Agora eu...

Vou inventar uma, à Mia Couto!
Cá vai:
"Não se é senão barco à deriva em busca de nenhum porto. Sobrevive- se fingindo que se flutua."

2005-03-29

A Menina do Nenúfar

Pedaços dispersos do livro: "Os Olhos do Homem Que Chorava no Rio"
"Não há médico ou curandeiro no mundo que saiba qual a enfermidade de que padece a rapariga do nenúfar branco, ou qual o remédio que possa atalhá- la. Quem assim nasceu, filha dum raio de Sol, de uma rebentação da Primavera, há- de vir já aparelhada de todos os males e de todas as curas."
"A menina não desiste, pois."
"Mas há um vulto que a segue desde há uns dias........."
"Por ora se pode dizer que este vulto é masculino, que usa as golas da gabardina velha erguidas sobre a cara e que do seu rosto não se destacam mais, na sombra da noite, que os dois olhos grandes e oblíquos, raiados de sangue e insónia, raiados de ler e ler e ler e ler outra vez, dias e noites a fio."
"Mais do que segui- la, o homem parece guardar os seus voos pela margem, as deambulações de borboleta nocturna, proteger- lhe o sono vegetal, sentando- se na borda do lago estagnado que há no jardim sombrio e aí ficando até que a menina enfim desperte do seu sono de seda. Não faz mais nada: senta- se e espera."

2005-03-28

Palavras - XIX

Palavra é uma flor colorida e perfumada cujas pétalas vou retirando docemente para te oferecer, contínua e renovadamente...

Menina da Ribeira

Reflexos - XI

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio que é mar...
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

Fernando Pessoa

Arco-íris - X

- "Atão compadri", já "vossemecei " viu ali aquela febra?!...
- Bela fevra, sim "senhori"!

-Ó, pai! A "mãei" "´tá" a "chamari" a " genti" "pó" almoço! É fêvera, "bora"! Mas "desqueci-me" de levar o "sali"! "Calhando", o "comeri" " ´tá" ensosso!
- Insosso! "Filho da "mãei" do moço", que "nã" "aprendi"!

Na língua portuguesa existem palavras que admitem duas formas (nalguns casos, três) no registo gráfico.
Nas frases anteriores, temos dois exemplos:
1. febra, fevra, fêvera;
2. ensosso, insosso, sem o sal preciso; insípido - "ensonso" só existe na boca de alguns onde falta uma pitada de sal do bom "sabor" português.

Há muitas mais, algumas que sobejamente conhecemos, tais como: ouro/oiro; cobarde/covarde; bêbedo/bêbado e outras cujas cores brilharão no Arco-íris...

Solidariedade

Todos os dias passo na rua da Livraria.
Todos sabemos que o Livreiro não está.
Ele vigia a Menina do Nenúfar.
Mas têm AMIGOS!
Amigos, que numa comovente onda de SOLIDARIEDADE, se revezam, tomando conta daquela casa.
E todas as prosas e poemas de todos os livros, aguardam com esperança!
E na minha janela, virada para o mar, há sempre uma vela acesa...

2005-03-27

DUDU

O menino Dudu
andou a esquiar
cabeça na neve
e pés para o ar

Nas refeições
havia zaragata
não queria salsichas
mas comia a lata

Ai este menino
é levado da " breca"
bebe leite no sapato
e calça a caneca

O pai até disse:
o garoto é tontinho
e o Dudu respondeu:
eu sou um patinho

Meteu-se no lago
e pôs- se a nadar
(ficando molhado)
a mamã pendurou-o
para ele secar

E no dia dos anos
só comeu as velas
com o creme do bolo
pintou as janelas

Parabéns Dudu!( prima carolina)

Parabéns DUDU!

TUDO AO CONTRÁRIO

O menino do contra
queria tudo ao contrário:
deitava os fatos na cama
e dormia no armário.

Das cascas dos ovos
fazia uma omoleta:
para tomar banho
usava a retrete.

Andava, corria
de pernas para o ar;
se estava contente
punha-se a chorar.

Molhava- se ao sol,
sevava na chuva;
e em cada pé
usava uma luva.

Escrevia no lápis
com um papel;
achava salgado
o sabor a mel.

No dia dos anos
teve dois presentes:
um pente com velas
e um bolo com dentes.

( Luisa Ducla Soares)

2005-03-26

Manhã clara!

Do livro A CRIANÇA E A VIDA ( Recolha de uma professora: Maria Rosa Colaço)

Manhã clara
límpida e fresca
andorinhas
fazem o ar mais fresco
barcos
vão- e -vêm
como o senhor mar
que vento tão suave
neste momento
tristeza acabou-se
para dar lugar à alegria
que vem baloiçando
baloiçando
ao sabor das ondinhas claras e frescas
como esta manhã.

(antónio joaquim, 8 anos)

2005-03-25

Arco-íris - IX

IDIOMATISMOS
São expressões populares das quais nos servimos para caracterizar uma pessoa ou facto.

Todos nós as conhecemos e utilizamos. Querem ver? Reparem nestes exemplos com o verbo andar...

Andar com a cabeça à roda – estar muito apaixonado.
EX.: Desde que o conheceu, a Pinga-Amor anda com a cabeça à roda.

Andar com alguém nas palmas da mão – tratar com deferência.
Ex.: O Sr. Sabe-tudo é uma pessoa muito influente, por isso, andam com ele nas palmas da mão.

Andar com a pedra no sapato– suspeitar de algo; ter receio.
Ex.: A Calminhas viu o marido sair muito perfumado e foi atrás dele, porque anda com a pedra no sapato.

Andar com a pulga atrás da orelha – estar desconfiado e preocupado.
Ex.: É melhor contar-lhe a verdade, porque ela já anda com a pulga atrás da orelha.

Andar com ela fisgada – preparar-se para fazer algo (há muito).
Ex.: Não lhe mintas, porque ele anda com ela fisgada e ainda te prejudicas.

Andar com o credo na boca – estar com muito medo.
Ex.: Ele anda sempre a grande velocidade, por isso a mãe anda com o credo na boca.

Andar com os azeites – estar com péssima disposição.
Ex.: Não sei o que se passa, mas ele anda com os azeites.

Também podíamos andar...
- à bulha;
- à coca;
- a monte;
- a nove;
- ao corrente de...;
- ao soco; à pancada; aos pontapés; à pancada com;
- às aranhas;
- às moscas;
- à solta;
- atrás de...; com...;
- com a casa às costas;
- de beiça caída;
- de borla;
- de gatas;
- de mal a pior;
- de mão em mão;
- de orelha arrebitada;
- nas bocas do mundo;
- no ar;
- numa fona; num corropio;
- por...; arames; atalhos;
- sobre brasas...
-
E agora vou pôr-me a andar, porque se faz tarde.

Reflexos - X

HINO À VIDA

A vida é uma oportunidade, agarra-a.
A vida é beleza, admira-a .
A vida é bem-aventurança, saboreia-a.
A vida é um sonho, faz dele uma realidade.
A vida é um desafio, enfrenta-o.
A vida é um dever, cumpre-o.
A vida é um jogo, joga-o.
A vida é preciosa, cuida dela.
A vida é uma riqueza, conserva-a.
A vida é um amor, desfruta-o .
A vida é um mistério, penetra-o .
A vida é promessa, cumpre-a.
A vida é tristeza, vence-a .
A vida é um hino, canta-o.
A vida é combate, aceita-o .
A vida é uma tragédia, abre-lhe os braços.
A vida é aventura, ousa-a.
A vida é felicidade, merece-a .
A vida é a vida, defende-a .

Madre Teresa de Calcutá

Immense et rouge

Immense et rouge
Au- dessus du Grand Palais
Le soleil d' hiver apparaît
Et disparaît
Comme lui mon coeur va disparaître
Et tout mon sang va s' en aller
S' en aller à ta recherche
Mon amour
Ma beauté
Et te trouver
Là où tu es.

PAROLES
(Jacques Prévert)

2005-03-24

Palavras - XVIII

(...)
No fim de contas as palavras não serviam apenas para meter na ordem gaiatos descompostos, insultar as vizinhas linguareiras da cave ou adormecer com canções os miúdos.
Tratava-se sem dúvida dum jogo (o que há de mais sério para as crianças), mas dum jogo que também agradava às pessoas crescidas.

José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras