2005-11-04

Conseeeguiiiii !


Nem me atrevo a pôr já outra imagem.
Tenho medo que não resulte.
Mais logo, talvez!...

Atrevi-me e resultou!
Vou tomar um calmante!!!!
São emoções demais para uma sexta- feira!

2005-11-03

1,2,3,experiência!!!....

Será que vou conseguir "plantar" uma ávore???

Aconteceu!!!

Num dia de vendaval
Deu- se um fenómeno engraçado,
(Acreditem!) choveu peixe- agulha
Em cima do meu telhado.

Canas, minhocas, anzóis,
Aquilo é que foi uma festa;
Num terraço cheio de peixe
Fomos todos para a pesca!!!

Para quê ir ao mercado?
Quero lá saber da lota!
Cai- me o peixe na panela
Do bico duma gaivota.

Ó amigas voadoras,
Minha vida é um regalo,
Só vos peço que na próxima
Deixem cair um robalo!...

Digam lá se não é bom
Viver tão perto do mar?!
Mesmo sem sair da cama
Nós conseguimos pescar.

(Quadras "pesqueiras" inspiradas no relato dos meus vizinhos do 5º andar, no dia em que uma gaivota, deixou cair um peixe no seu terraço).



2005-11-02

O amor...

O amor é como duas borboletas que estivessem
sobre uma rosa, a mais linda de todas do jardim.
O amor tem que haver.
Se não houvesse amor não havia nada bonito.
O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar.
A rosa e o sol são o amor.
O amor é a poesia.
O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha.
O amor é não haver polícias.

(inácio da silva cruz
10 anos)

2005-11-01

Definição...

( Do livro "a criança e a vida" de Maria Rosa Colaço)

A morte

A morte é sossego e flores
Eu acho que ela é um homem amarelo.
Eu, se visse a morte ao pé de mim, atirava- me
duma janela abaixo: antes queria morrer sozinho.

(victor pinho moreira
8 anos)

2005-10-31

Psssst!...

Durmam bem!!!!...
(Hoje não tive vagar para "bloguices").

2005-10-30

e...

...devagarinho, pé ante pé, lá se vai o Domingo!

2005-10-29

Memórias...

Lá fora há sementes tuas
sob o vento das ruas

Caminha a noite tão leve
tão leve
que tu és a sua transparência

Impossíveis fosforescências
acordam os teus sentidos
em mim

Fogos fátuos tristonhos
únicos, tão nítidos
nem choram

Derramam a sua voz de luzes
imperceptíveis
silenciosos

Com medo
que desapareças

(Do amigo E. L. , a quem não posso pedir autorização e a quem peço desculpa pela ousadia de publicar este poema).

2005-10-28

ternas alquimias

nas rotas do teu corpo
cumprem- se traços de gazela
escultura irreal
como irreal
é a cidade que te habita
talhada a golpes de maço
com a delicadeza de quem esculpe libélulas transparências
arranha- céus frágeis que baloiçam firmes ao vento
soltos à nortada de um suspiro
um respirar nocturno
e nas montras iluminadas viajam formas fugidias
fadas e monstros
duendes em transe
poção de druida
velho mago inspirado
que lança palavras secretas
ao poço de um último poema
em gestos voláteis
de ternas alquimias

(Do CD "ternas alquimias" de Jorge Casimiro)

2005-10-27

Afinal...

Afinal este vento traz água no bico!

"Passou- se um dia sem que a chuva descesse. Nos juntámos na varanda interrogando os céus. Sob o alpendre fazia muito silêncio. Meu avô, no assento de balanço, chefiava a vigília.
Ao lado, a cadeira sagrada de sua falecida esposa, nossa avó Ntoweni. Desde que ela morrera, o assento nunca mais fora ocupado por ninguém.

E agora ali estávamos nós, calados, incapazes de raciocínio e com medo de entender. Por fim, meu avô ousou falar.

- Essa chuva traz água no bico.

Foi de repente, meu pai se ergueu e anunciou o pensamento: havia que bater naquela água, forçá- la a tombar. Deu uns passos por diante e, e num gesto largo, comandou:

- Tudo a remexer!

Saímos todos com pás, vassouras e panos. Todos menos o avô que mal se erguia sozinho. E varremos o ar, socando as gotas como se agredíssemos fantasmas. "

(Do livro A CHUVA PASMADA de Mia Couto)

E eu digo: - Se calhar foi por isso que choveu...

2005-10-26

Dança matinal!

O céu hoje está "coalhado" delas!
Milhares!
Bailam em círculos de voos acrobáticos, ao som duma música que só elas ouvem.
Nem precisam bater asas!
O ventinho que sopra de sudoeste, dá- lhes o ritmo e a leveza.
Chegam em Setembro e vão ficar até à Primavera.
São as gaivotas!!!

2005-10-24

Barquinhos...

Lá voltam apressados.
Doze pequenos barquinhos apressam- se, regressando da faina.
Um deles, o mais pequeno, pintado de vermelho pertence ao Ti Artur.
Todos os dias, por volta das dez e meia, chega ao canto direito da praia.
Descarrega o seu "baldinho" de peixe que pousa na areia.
Depois, com uma corda (tipo roldana), vai puxando e o pequeno barco sozinho entra de novo na água onde o fica esperando até à madrugada seguinte.
Pega no balde, sobe a rua da Restinguinha e vem vender o seu peixe a clientes que certamento já o esperam algures.
É assim todos os dias!
Não sei a que horas da madrugada parte para o mar mas, se soubesse punha-me à janela e cantava- lhe:

Parte parte ó pescador
vai à pesca da sardinha
louvado seja o Senhor
que leva a tua barquinha

Quero bem ao vento norte
que me faz andar à vela
quero bem ao vento sul
que me leva à minha terra

la la la la ra la la la...............

2005-10-23

Mário...

Lá ia ele, o senhor Mário...
Vale a pena conhecê- lo e cumprimentá- lo!

(Se vos interessar saber quem é, vejam o meu texto de 14 de Abril de 2005).

Para vocês um Domingo soalheiro!

2005-10-22

Janelas...

... são Mundos!
O que a vista não abarca
abarca a imaginação!...

(Resposta ao 1º comentário de ontem)

2005-10-21

Nampula


Nampula é nome de terra.
Nampula é um nome bonito, como bonitos são quase todos os nomes de Moçambique.
Nampula, Nacala, Malema, Inhambane, Quelimane, Quissanga, Mandimba...
São nomes que têm musicalidade e ritmos de "marrabenta"; têm a cor dos poentes de "África Minha"; têm o cheiro do tabaco e o sabor do cajú!
Nampula é nome de terra.
Nampula é nome de gente.
Nampula é nome D'AMIGO!!!

2005-10-20

A todos...

...os Amigos.
Aos mais antigos e aos mais recentes desejo :
Uma aconchegante e pacífica noite!

2005-10-18

O Sol!

Num turbilhão de amarelos
entre montanhas de nuvens
esgueirando- se entre dois petroleiros
lá se deitou(preguiçosamente)
num mar de chumbo!

2005-10-16

Mistérios da noite

Duas horas da madrugada.
Acordei sobressaltada com o ruído de um veículo que passava na rua.
Depois, gritos. Gritos aflitivos.
Acidente? Choque entre carros? Alguém teria sido atropelado e abandonado na estrada?
Enquanto vestia o robe para ir à janela, os gritos continuavam e pensei que talvez fosse caso para telefonar para os bombeiros. (Não o fiz sem primeiro ir ver o que se passava.)
Abri a janela; dois guardas passavam na rua e um deles atendia um telemóvel.
Os gritos tinham parado.
Inesperadamente uma voz límpida começou a cantar.
Não sei de que lado vinha.
Não sei se era homem ou mulher.
Mas, era um belo e impressionante canto cigano ou, talvez árabe!...
Ouviu- se durante dois ou três minutos.
Depois o silêncio.
(Foi tudo tão estranho, que eu só tenho a certeza de que não sonhei, porque o robe ficou aqui na sala fora do seu lugar habitual.)
Mistérios da noite...
A lua, se falasse, ter-me- ia esclarecido.
Mas, não; desenleando- se das nuvens, indiferente a gritos ou cantes, espanejava- se prazeirosamente na baía.

2005-10-14

Lusco- fusco!

Era Setembro.
A maré estava assim. Vazia.
Um homem caminhava deixando atrás de si, os passos desenhados no areal deserto.
Conhecemo- nos.
Era alemão.
Durante oito dias ele ficou por ali.
Conversámos numa mistura de inglês, francês, espanhol e sei lá mais o quê.
Rimos.
Embebedámo- nos.
Tivemos insónias.
Lembro o seu último gesto. Um copo de vinho, erguido em jeito de saudação ou despedida.
Os anos passaram. Muitos!
Nem lembro o nome do homem.
Mas os seus passos estão muitas vezes lá!
Hoje estavam.
Desenhados, vivos, nítidos, apesar do lusco- fusco.
Não há maré cheia que os apague de vez.
Ao longe, as luzes de Sines acendem- se.
Em jeito de saudação ergo um imaginário copo de vinho...

vou...

Vou ali beber um cafezito e já volto!

2005-10-13

Sonho alheio...

Acuso- te, realidade
desta noite longa
a estender- se de estrelas
até o frio do espanto.

Acuso- te de seres um sonho alheio
que não cabe no meu canto.

( J. Gomes Ferreira)

DESPEDIDA

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

Eugénio de Andrade

Linhas e Entrelinhas - XXII

AO EDUARDO LOURENÇO,
NA FLOR DA IDADE

Era bonita mas tão provinciana
a cidade. Dos seus muros pasmados
a luz fina caía preguiçosa
nas areias do rio. Mas o resto
era vulgaridade e sonolência.
Só as árvores não eram vulgares:
de tão formosas, tornavam o céu
de cristal, como se o verão fora
imortal entre plátanos e choupos.
Ali nos encontrámos certo dia,
éramos jovens e mais jovens que nós
era a poesia que nos acompanhava.
Holderlin, Keats, Pessanha, Pessoa
eram então - e não o serão ainda? -
os nosso amigos. O mais, gente ideias
costumes, tudo tinha o mesmo cheiro
de caserna aliada a sacristia.
Dessa cidade em nós nada ficou.
De nós, que ficará nessa cidade?

21.10.83

Eugénio de Andrade

Verbo do Dia - Chuva

CASA DA CHUVA

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se a minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.

Eugénio de Andrade

Faúlhas de Cupido

ADEUS

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Eugénio de Andrade

Palavras - XLI

ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as paredes das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais dava mais tinha para dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo:meu amor,
já não se passa absolutamnete nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que toda as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

2005-10-12

"ESPERA"

Canções ecoam mansas pelos vales
e sobem as montanhas docemente
e delas adormece o solo quente
e eu sobre ele sonho a cor dos males…

Tudo está em mim à espera que tu fales…
Por essa terra for a, terra quente
só aos ecos respondem docemente
os sons cruéis que eu quero que tu cales!…

A tua voz não vem com a dos ecos…
Ao pé de mim só estalam ramos secos…
E de ti nada chega aos meus ouvidos

E em mim vou sempre esperando a tua voz…
Será somente o meu pensar em nós?
Ou tocar-me-á em todos os sentidos?…

11/9/38
19/11/39

Jorge de Sena

Que inveja...

Que "inveja" tenho da Kanuthya que sabe partilhar connosco as suas músicas preferidas!
É que eu estou numa de PAVAROTTI! (Parece que faz, hoje, 70 anos; informação Antena 2).
Logo cedo
enchi a casa com a "Chitarra romana"
iluminei-a com " O sole mio"
e certamente que à noite
vai correr por aqui em mansas águas
o "Moon river"!
E... graças a "Santa Lucia luntana"
cai uma chuva miudinha
que refresca a terra
alimenta as plantas
e enche de brandas ternuras o coração da gente!!!!!
Por isso:
PARA VOCÊS, UM DIA BOM!!!!

2005-10-11

Canção...

Canção de Hans, o marinheiro

Se tu suobesses
que em todos os portos do mundo
há uma mão desconhecida
a acenar- adeus, adeus- quando se parte pró mar;
se tu soubesses
que o mar não tem fronteiras nem distâncias
é sempre o mar;
se tu soubesses
a noite nas águas
onde os barcos são berços
e os marinheiros meninos a sonhar;
se tu soubesses
o desamor à vida quando o vento grita temporais
e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas;
se tu soubesses
que em todos os portos do mundo
há um sorriso
para quem chega do mar;
se tu soubesses vinhas comigo pró mar.
Vinhas comigo pró mar
embora as nuvens do céu
e os ventos que vêm do este e do oeste, do sul e do norte
digam ao mundo que vai haver o temporal maior que todos!

( Manuel da Fonseca)

2005-10-10

Ai este mar

Ai este mar de gaivotas arrepiadas.
Este vento soprado de sul que despentei e refresca.
Respirem fundo, encham os pulmões de maresia.
Soprem ventanias e libertem estas ondas prisioneiras, afogadas pelos dias de calmaria!
Alguém reparou como a baía de Sines hoje estava viva???
Desgraçado mar sufocado, "entalado"entre portos, molhos, docas e lotas.
Eu, se fosse mar antes queria ser um Mar do Norte!...


Ai este mar

Reflexos - LXX

Com a minha língua
crio novos mundos a partir do nada
e vivo no nada sem me aniquilar nele
Não sujeito a vida
deixo-a vir com o seu dom de vida
e transformo-a em pássaros e janelas
que sobrevoam as cabeleiras das mulheres
abraçando as suas ancas redondas numa
fábula verde
Tenho dois rostos
quando digo sim digo não
e o meu não cruel vibra um sim radioso
Ó mulher quando banhas o teu corpo
e o lavas com as tuas mãos
não é outro corpo que tu sentes no teu?
Eu sou a tua interrogação
eu sou a tua respiração
e a cor da tua respiração
Eu saboreio-te poro a poro
tacteio-te e no teu corpo toco uma melodia
nua

Eu sou um ser errante não sei fixar-me em
nada
sou um criador volúvel
propago as minhas ondas e raízes
e amo quase sem necessidade de amar
Porque amo como o vento e com as raízes
do vento
e com as raízes da água

Tudo o que em mim entra
transforma-se numa exalação de pétalas
em flores de água
em espaços e páginas
em navios errantes

António Ramos Rosa

2005-10-09

Magotes

Havia magotes no pátio da Escola agrupados por cores - entre alguns brilhava um ou outro tom diferente; talvez de um amigo -, de ar apreensivo, ansioso de quem anseia a vitória e arrogante de convencidos que se vêem num espelho de aumentar / "formar " a sua própria imagem.

Percorriam os eleitores com olhar desconfiado, espreitando os seus cumprimentos, observando os seus interlocutores, tentando adivinhar as conversas que os intrigavam, tantas vezes de cariz pessoal, entabulando conversa com quem passava, de expressão subtilmente suplicante...

Fecham-se as urnas, cumprem-se as formalidades, contam-se os votos e... divulgar-se-ão os tão esperados resultados das escolhas dos portugueses ... Surpresa ou talvez não!...

2005-10-08

Sem palavras

As palavras
podem estar
na boca
nos olhos
no gesto
na mão

a ausência
das palavras
é uma fria roupagem
com que por vezes
sentimos vestido
o coração


Centenário das palavras

"Todos os dias faz anos que foram inventadas as palavras.
É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras."

(Almada Negreiros)

As palavras

As palavras fogem- me!
Onde andarão as palavras?
As palavras e o resto...

Reflexos - LXIX

CORAÇÃO HABITADO

Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
- eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toques: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.

Eugénio de Andrade

2005-10-07

Linhas e Entrelinhas - XXI

Carta dirigida a José Régio

" Queridíssimo camarada:

Acabo de ler, por inteiro, e num só hausto feliz, o seu livro
"Biografia", há meia hora recebido.
É um livro admirável, porém a sua leitura, para em seu effeito
ser mais admirável, faz-me saudades. Faz-me saudades do meu maior
amigo, do único grande amigo que tive - o Mário de Sá Carneiro, a quem
a leitura dos seus sonetos enthusiasmaria como uma boa nova. Sonhei
sem querer - em um d´aquelles sonhos retrospectivos e erroneos - que
estivesssemos lendo junctos os seus sonetos, e reconheço a voz d´ elle
e a minha no consenso enthusiástico da apreciação.
Explico. Há uma íntima analogia entre o seu modo se sentir e o modo de
sentir que distinguia o Sá-Carneiro. O modo de sentir e o modo de sentir é
que é differente, como convém a dois que são dois, e não commumente o
terceiro que não é ninguém.
- Estes semi-dizeres não chegam a ser palavras; são contudo a expressão
immediata, spontanea e inteira com que, orgulhando-se mysteriosamente
de V., o abraça e amigo e muito admirador

Fernando Pessoa

17.1.1930 "

Ler...

"O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo «amar»...o verbo «sonhar»...
É evidente que se pode sempre tentar. Vejamos: «Ama-me!» «Sonha!» «Lê!» «Lê, já te disse, ordeno- te que leias!»
- Vai para o teu quarto e lê!
Resultado?
Nada.
Ele adormeceu sobre o livro."

(É assim que começa o livro de Daniel Pennac, "COMO IM ROMANCE".)
O livro fala-nos da conhecida preocupação de pais e professores pela falta de interesse e gosto que os jovens manifestam pela leitura.
Daniel Pennac, professor, pai de família e romancista escreve este ensaio com muito humor.
Não querendo usar o "imperativo", dir-lhe-ei, todavia, que é um bom livro para você ler!

2005-10-06

"quadrinhas"para o meu amor...

meu amor disse que eu tinha
os olhos da cor do mar
são como asas de gaivota
voando para te avistar

meu amor vive no mar
canta o canto da sereia
minha alma é uma praia
em noites de lua cheia

meu amor lembra-me o vento
que faz andar a barquinha
e eu voo num sopro de brisa
para que não ficar sozinha

meu amor disse que eu era
uma gaivota no mar
perdi as asas no vento
e não o pude encontrar














2005-10-04

Linhas e Entrelinhas - XX

"Lisboa, sábado, 21 de Junho de 1997

Olha lá, menina:

Aquele teu amigo de ontem, de ar freak, que levou o
intervalo inteiro a falar de direitos humanos, completamente
a despropósito, não me agradeceu o bilhete de cinema.
Achas normal?"


"(Na mesma noite, escrito no verso do bilhete)

Mãe:

Lembrei-me da sua amiga que esteve cá a semana
passada a pedir ao meu amigo Barroso, com um ar
romântico, que a levasse a casa depois do jantar.
Acha mais normal?

P.S. Deixe-me dinheiro para a ginástica, please."

Rita Ferro

Informo que...

Informo os interessados que, hoje (dia 4) no Canal 1 à noite, dará um documentário sobre o poeta moçambicano Reinaldo Ferreira.

O Livro

Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa de salvar- se.

(A Invenção do Dia Claro, de Almada Negreiros- edição fac-similada).

2005-10-03

Pétalas de Bem-te-Quer - 26

(...)
"...em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes
navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos

... em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se ao sol

---em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal
dos meus olhos
as ávores inclinadas, os frutos e as dunas

... em ti pernoita a seiva cansada das palavras, o suco
das ervas e o açúcar transparente das camarinhas

...em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as
pérolas dos mares sem rumo

...em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este
demorado lamento..."

Al Berto

Reflexos - LXVIII

"Porque é que estranhas tanto que um deputado deixe o partido e vá ser deputado para outro lado? O jogador de futebol também muda de clube".

Vergílio Ferreira

Palavras - XL

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, são fortes
como o javali.
(...)
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não tem carne e sangue
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
(...)
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o subtil queixume.

Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
(...)
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve
(...)

Carlos Drummond de Andrade

Olhem lá!....

Sabem onde se pode comprar um dia de chuva???...
Até a alma, a gente já tem ressequida.
Os verdes já perderam o verde.
o sol até já se esconde (envergonhado) atrás da lua...
Chega de brincarmos aos Verões!
Amanhã vamos reivindicar. (Não estamos na época das reivindicações?)
Então pessoal, amanhã tudo de chapéu de chuva aberto gritando "em plenos pulmões":
QUEREMOS CHUVA!
QUEREMOS CHUVA!
QUEREMOS CHUVA!
(E se por acaso vier um ou outro trovãozito, também será bem recebido!)

Hoje estou romântica!...(Foi do eclipse)

Por isso, de Eug. de Andrade :

ESPERA

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

2005-10-02

Sabores à Portuguesa - XVII

Esta receita é dirigida especialmente à minha amiga Anna, grande apreciadora da gastronomia portuguesa – paladar e confecção.

A Raia de ( ou com Molho) de Pitau é um prato tradicional do litoral português.

RAIA DE PITAU À MODA DA ANTÓNIA

Ingredientes

1,5 Kg de raia
1 Kg de batatas
2 cebolas
3 dentes de alho
1 folha de louro
4 colheres de sopa de azeite
1 colher de chá de colorau doce
1 colher de sopa de vinagre branco
sal q.b.
pimenta q.b., facultativo

Preparação

Amanha-se a raia, lava-se, corta-se às postas e coze-se, com a pele, em água com sal..
Põem-se as batatas a cozer em água com sal – se forem novas, cozem-se com a casca.
Prepara-se um molho saudável com: o azeite, as cebolas cortadas às rodelas, os alhos picados, o vinagre, o colorau, o vinagre, o louro, a pimenta e um pouquinho de água, para ir cozendo em lume brando.

Quando a raia estiver cozida, escorre-se, retiram-se as peles e dispõe-se numa travessa ladeada das batatas. Cobre-se com o molho e serve-se, acompanhada com salada a gosto.

Nota: o molho pode ser apaladado com tomate (dois para esta receita) sem peles e sementes, cortadinho, e tirinhas de pimento.

Bom apetite!

Linhas e Entrelinhas - XIX

França, 1669 – 1.ª publicação de LETTRES PORTUGAISES, retrato de amor entre uma religiosa portuguesa, Mariana, e um fidalgo francês, Sr. de Chamilly.

Artifício literário ou verdadeira expansão de uma louca paixão da freira de Beja, as CARTAS PORTUGUESAS constituem uma obra-prima da literatura universal.

Saboreemos alguns excertos da obra:

“ Considera, meu amor, até que ponto foste imprevidente! Oh!, infeliz, que foste enganado e a mim enganaste também com esperanças ilusórias. Uma paixão sobre a qual tinhas feito tanto projectos de prazeres (…).

E esta ausência (…) há-de então privar-me para sempre de fitar esses olhos onde eu via tanto amor, esses olhos que me faziam saborear emoções que me cumulavam de alegria, que eram o meu tudo, a tal ponto que deles só precisava para viver? (…)

Como podem ter-se tornado tão cruéis as lembranças de momentos tão agradáveis? (…)

Mas não importa! Estou decidida a adorar-te toda a vida e a não ter olhos para mais ninguém (…)

Se me fosse possível sair deste malfadado claustro, não esperaria em Portugal que se cumprissem as tuas promessas: iria eu, sem qualquer inibição, procurar-te, seguir-te e amar-te por toda a parte.(…)

Lamento, só por amor de ti, os prazeres infinitos que perdeste (…) e terias experimentado que se é muito mais feliz e que se sente algo de bem mais tocante quando se ama com violência do que quando se é amado! (…)

Mas, finalmente, regressei deste encantamento. (…)

É preciso que o deixe e que não volte a pensar em si. Julgo mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Tenho alguma obrigação de lhe dar contas dos meus actos?”

Nota: espero poder mostrar-vos neste espaço, ou nalgum bloque “próximo”, a capa da edição supracitada.

Faúlhas de Cupido

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las…
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!…
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobe nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos…

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nosso cabelos?

Camilo Pessanha

Verbo do Dia - Outubro

OUTUBRO

Do latim octu(m), oito e imber, chuva (october); oitavo mês do calendário romano.

É o mês:
- do termo das vindimas;

- da fermentação do mosto;

- da colheita das mais variadas maçãs;

- das castanhas;

- das sementeiras de: centeio, trigo e aveia;

- das plantações de: flores e de árvores;

E ainda...

- do nascimento de algumas pessoas especiais;

- de casamentos de afilhados e primos;

- de eleições;

- de tantos eventos!


Diz a sabedoria popular que:

Em Outubro, pega tudo

Se em Outubro te sentires molhado, lembra-te do teu gado.

Em Outubro, recolhe tudo

Outubro suão, negaças de Verão

Outubro nublado, Janeiro molhado.

Em Outubro centeio ruivo.

Em Outubro ou secam as fontes, ou passam os rios por cima das pontes.

Em Outubro não vás ao mar para pescar, mas vai ao celeiro e abre o mealheiro.

"Não vale a pena pisar"

"Não vale a pena pisar"

O capim não foi plantado
nem tratado,
e cresceu. É força
tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer.
Mas não! Basta a primeira chuvada
para o capim reviver.

(Manuel Rui - Angola)

2005-10-01

Depois...

Depois de um dia atribulado, com simulacros de atentados por mar e explosões ( a sério), no prédio em frente, desejo a todos e, especialmente a mim, uma boa noite se possível sem sobressaltos!
Até amanhã!

2005-09-30

Papel Mata-Borrão - 20.º Pingo de Tinta

Quero dançar ao som de uma nova melodia, reflectir imagens simples e coloridas... - aguardo pacientemente a pausa do Chá do Mestre...

Retalhos de Tira-Teimas - 12

"A minha religião e a minha honra, faço-as consistir unicamente em te amar, já que a amar-te comecei."

Soror Mariana Alcoforado


"Pela boca de Soror Mariana falam todas as puras amantes de Portugal."

Jaime Cortesão

Faúlhas de Cupido

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
fazer amor contigo sobre a areia.

Joaquim Pessoa

Pétalas de Bem-Te-Quer - 25.ª

VIDA

- Mâe, o mundo é mau,
Torna a flor lodo
E um pássaro num verme,
E eu não sabia...

- Filha! Semeia flores no lodo,
Empresta o teu canto ao verme.
Se as tuas mãos continuarem puras
E meigo o teu coração,
Acredita que o mundo é belo

E saberás!


Matilde Rosa Araújo

Palavras - XXXIX

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

Eugénio de Andrade

Reflexos - LXVIII

O Sol já se escondeu...
Precisamente quando,
feliz,
eu desatei a cantar.
(Só por feliz eu cantei.)

Agora quero acabar,
que já me dói a garganta,
mas
vou ainda cantando,
temendo
dar por mim de novo triste
assim que esteja calado.
(... Como se a minha Alegria
nascesse de eu ter cantado.)


Sebastião da Gama

Verbo do Dia - Amor

POEMA DO AMOR

Este é o poema do amor.

Do amor tal qual se fala, do amor sem mestre.
Do amor.
Do amor.
Do amor.

Este é o poema do amor.

Do amor das fachadas dos prédios e dos recipientes do lixo.
Do amor das galinhas, dos gatos e dos cães, e de toda a espécie de bicho.
Do amor.
Do amor.
Do amor.

Este é o poema do amor.

Do amor das soleiras das portas
e das varandas que estão por cima dos números das portas
com begónias e avencas plantadas em tachos e terrinas.
Do amor das janelas sem cortinas
ou de cortinas sujas e tortas.

Este é o poema do amor.

Do amor das pedras brancas do passeio
com pedrinhas pretas a enfeitá-lo para os olhos se entreterem,
e as ervas teimosas a nascerem de permeio
e os homens de cócoras a raparem-nas e elas por outro lado a crescerem.
Do amor das cadeiras cá fora em redor das mesas
com as chávenas de café em cima e o toldo de riscas encarnadas.
Do amor das lojas abertas, com muitos fregueses e freguesas
a entrarem e a saírem, e as pessoas todas muito malcriadas.

Este é o poema doa mor.

Do amor do sol e do luar,
do frio e do calor,
das árvores e do mar,
da brisa e da tormenta,
da chuva violenta,
da luz e da cor.

Do amor do ar que circula
e varre os caminhos
e faz remoinhos
e bate no rosto e fere e estimula.
Do amor de ser distraído e pisar as pessoas graves,
do amor de amar sem lei nem compromisso,
do amor de olhar de lado como fazem as aves,
do amor de ir, e voltar, e tornar a ir, e ninguém ter nada com isso,
Do amor de tudo quanto é livre, de tudo quanto mexe e esbraceja,
que salta, que voa, que vibra e lateja.
Das fitas ao vento,
dos barcos pintados,
das frutas, dos cromos, das caixas de tintas, dos supermercados.

Este é o poema do amor.

O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor.
de amor.
de amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela, tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.

Este é o poema do amor.

António Gedeão.

2005-09-29

Linhas e Entrelinhas - XVIII

Coimbra, 29 de Setembro de 1980

Mais uma campanha eleitoral. Mais um aturdimento retórico e falacioso de ponta a ponta de Portugal. Não há praça sem alto-falante, rua sem bandeira, parede sem cartaz, poste ou troco de árvore sem símbolo partidário.

A televisão e a rádio não dão tréguas aos olhos e aos ouvidos. E os jornais vêm cheios de discursos para todas as paixões. É um derrame de palavras a que nenhum fastio se pode esquivar e em que no fundo ninguém acredita, de tal modo é flagrante a sua inautenticidade.

Mas a projecção do amordaçamento passado e traumatismos ainda recentes juntam-se no retraimento colectivo. E a euforia prosélita, sem cuidar dessas feridas, entende a passividade circundante como simpatia.

Não há facção, por insignificante que seja, que não celebre antecipadamente o triunfo. Reduzidos a um chorrilho de estribilhos, os programas mais antagónicos parecem iguais na obsessão sonora.

O sonho primaveril de um país renascido, lúcido, saudavelmente apostado em dignificar os seus padrões de liberdade, sem confundir a abertura de espírito com a ausência de critério, deu nisto: a tirania silenciosa de outrora a vingar-se na demagogia ruidosa de agora.

Miguel Torga

Como diria o João Ricardo...

O João perguntaria:
- Que livro tem à sua cabeceira???
Então, eu informo que vou começar a ler "O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati.
(Com alguma vaidade) direi que a a sua tradutora, Margarida Piriquito, é uma amiga.
E vocês???
O que estão a ler?
Eu e o João gostávamos de saber...
Vá lá, não custa nada:
Clica em "chama o jardineiro", depois em "post a comment" e escreve a sua mensagem. Se quiser, clique em "anónimo"(torna- se mais fácil) e finalmente "publish.
(Se quiser dizer quem é, assine depois do que escrever.)
Fico esperando...(quiçá em vão?...)

2005-09-28

De Miguel Torga...

Feliz canto das aves
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento

(Miguel Torga)

2005-09-27

Penas...

sentada no muro
uma leve aragem
pousa na minha mão
uma pena de gaivota

(com ironia penso)
como se de "penas"
não estivesse já servida!

(Apesar da forma, não confundam com "poema", até porque lhe faltará subtileza de conteúdo.
Trata- se apenas do relato de um facto absolutamente real.)

Cavaleiro andante

cavaleiro andante

do teu nome fiz um grito
do teu sorriso bandeira
e lutei por mundos novos
armado com rosmaninho numa haste de roseira

e foi ver maçãs cairem de maduras
uma a uma
num chão verde de relva e tinto de papoilas

(Luis FIlipe Duarte)

2005-09-26

Apontamentos do dia. (3)

A pulseirinha...

O que faria aquela pulseirinha de ouro naquele "pernão" gordo?
- Para tornar apetecível o tornozelo?
- Para dar nobreza à passada?
- Para dar encanto à perna?
Se calhar dá!...
(Também resultará em perna magra, tipo esferográfica?...)
Não custa nada tentar!
Nunca se sabe!!!...

Se amanhã passar por vocês um Clio preto com uma lânguida perna a sair da janela, SOU EU, a arejar os meus "empulseirados" encantos!...

(Mas, cuidado! Atenção nos stopes ,cruzamentos e rotundas!)

Apontamentos do dia. (2)

Lá andavam eles!
ELA, magra e elegante, longas pernas, movendo- se irrequieta e ligeira!
A nadar é uma sereia!
ELE, mais gorduchito (mas sem exageros).
Passeavam- se bem dispostos, pela manhã, à beira-mar.
Para ELE, um beijinho.
Para ELA, uma festinha atrás das orelhas!
(Adivinham quem é o par???... Amanhã desvendo o mistééério).

Apontamentos do dia. (1)

Hoje
pelo sim pelo não
estou a "canjas de galinha"!!!

2005-09-25

Na luz, no mar, no vento...

Biografia

Tive amigos que morriam, que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

(Tens sempre as exactas palavras!
Obrigada, Sophia de M. B. Andresen).

Verbo do Dia - Carolina

Foi o dia 25 de Setembro de 19.. - que felizardo! - que viu nascer uma linda menina, encantador botãozinho de rosa para os seus enternecidos pais, que alegrou Santiago de Cacém com o seu choro de poetisa e surpreeendeu todos com o seu esbracejar de Mulher.

Depois abriu o seu coração de filha, de mana, de tia, de amiga, de sardinheira, lutou e venceu!

E por que hoje é mais um desses dias especiais, Parabéns, Amiga Calozinha, extensivos a todos a quem dás flores e com quem partilhas a vida!

Dia Feliz, sucessivamente multiplicado!

2005-09-24

Esta coisa do Amor...

"do amor e de ti" e "por dez réis de mel coado" são títulos de dois livros de um Amigo meu.
Desde os tempos do liceu que se percebia que este meu Amigo era Poeta!
Pedi-lhe autorização para vos dar a conhecer alguns dos seus poemas, por isso...

o teu olhar

peguei no teu olhar
desfiz- lhe a cor a forma e o perfume

ficou esse silêncio com que olhas
essa água que bebo sem ter sede
esse fogo que queima sem ter lume

---------------//----------------

entardecer

de frente a este mar iluminado
pelo lento entardecer lembro-me de ti
e aloja- se a ternura no meu peito

a maresia faz nos meus olhos poças de água
onde brilha esta saudade

num búzio vagabundo guardo o som deste mar
e o bater do coração quando te lembro
para reviver no interior dos meus silêncios

(Luis Filipe Duarte é o nome deste meu Poeta Amigo)

2005-09-23

O espírito do outono

Terei de falar do espírito do outono
agora que setembro
chegou ao fim.(Espírito
é palavra suspeita: não há
hipócrita que não se abrigue
à sua sombra.) Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza bárbara
orgulhosa beleza,quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?

(Eug. de Andrade)

2005-09-22

Já repararam?

O pôr- do- sol, em nenhum dia, é igual a outro dia!

Hoje,
enquanto o mar
se banqueteava com o pudim
o céu ficou todo lambuzado de morango.

Psssst!...

Não vos parece um dia "saborosamente fresquinho"?

2005-09-21

Psssst!...

Passem muito bem!
Até amanhãããã!!!!!!

2005-09-20

"Bucolismos"...(da beira-mar)

Cena 1
(6 horas da tarde)
Nunca vi "pato" tão deliciado!
(Era um homem).
Espanejava - se, nadando para cá e para lá, no meio da baía!
O Mar todo só para ele!
Mesmo de longe eu podia adivinhar- lhe o sorriso que, (mesmo que não fosse encantador), era de certeza de encantamento!

Cena II
De biquinhos "ru- ru... ru-ru" dois "pombinhos" arrulhavam, no abrigo dum poleiro vermelho marca Fiat.

Cena III
As gaivotas em sinfonias guinchosas e voos acrobáticos, perseguiam-se umas às outras, por causa dum peixe-mais-que-morto, que uma levava no bico.

Cena IV
Uma "caracoleta", ora parada , ora andando, "caracoleava" por ali aproveitando estes encantos e os últimos raios de sol!

Epílogo
Anoitecia, quando a Caracoleta Carolina, recolhendo os pauzinhos se meteu na sua concha!

2005-09-19

Barato!...

S. Torpes!
Assista- se ao pôr- do- sol comendo um corneto!
Não me digam que não se pode chamar a ISTO, um fresco e saboroso fim de tarde?!!
TUDO, por um euro!
(E ainda há quem diga que a vida está cara...)

2005-09-18

e porque a lua continua...

Apetece-me dançar
ao som do luar
-esse violino
que os outros não ouvem.

Ouviu-o Mozart...
Ouviu-o Beethoven...

Mas hoje sou eu
que o ouço no céu
e danço na terra
com pés de cetim,
lá fora na rua...

Sou eu, pelo Ar...
Sou eu, o luar...
(...que arranquei de mim
e atirei para a lua.)

«José Gomes Ferreira»

Resposta a Vinícius...

Cantiguinha...

Eu subi a um telhado
Para ver a luz da Lua
Encontrei uma gata preta
Diz-me lá se não é tua.

Diz-me lá se não é tua
Se não é fico eu com ela
Eu subi a um telhado
Porque não tenho JANELA...

(Inventei-a para uns meus alunos de 1º ano de escolaridade.
Precisávamos de uma cantiguinha em que aparecesse a palavra "janela".
A melodia é popular e muito agradável.
Estou disposta a cantá-la para quem a queira ouvir!)

Para todos um bom Domingo à luz... do Sol!

2005-09-17

Lá está ela...

Ei Pessoal!!!
Abram a janela e espreitem o céu!
Lá está ela, redonda e brilhande, derramando-se na baía, enroscando-se nos barquitos, alvoroçando gaivotas em espantos de insónia!
Ó raio de bicho!...

Manhã de gaivotas!

Os dias de Verão perderam o calor e as minhas gaivotas VOLTARAM!
A baía está "coalhada" delas!
E lá vou eu com o meu saquito de pão duro cortado aos quadradinhos.
Elas já sabem que sou aquela que passa para lhes dar a "ração".
Também são elas que, lá para o mês de Dezembro, (é... curioso... mas, só no mês de Dezembro), começam a vir à minha janela, esperando, pousadas nos telhados da frente que eu apareça. (Eu??? Melhor dizendo, o pão!!!)
O Lobo Antunes escreveu um livro cujo título é :"Que farei quando tudo arde?"
O livro, que um dia (quem sabe?) eu venha a escrever, talvez se chame: " QUE FAREI QUANDO AS GAIVOTAS NÃO VOLTAREM?"...

2005-09-16

Regresso...

Regresso de parte alguma
Rico mais do que partira,
Pois trago coisa nenhuma
Sem desespero e sem ira.

Agora vivo contente
No meu exílio sereno;
Tomei tamanho de gente
E não me dói ser pequeno.

Pedra parada na calma
Tranquilidade dos charcos
Deixem dormir minha alma,
Como apodrecem os barcos...

(R.Ferreira)

E já que...

E já que o Amigo Mário me emprestou o Livro, tiremos dele proveito!

Na vida somos iguais
às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que as fez

Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas passadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.

Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.

(Reinaldo Ferreira)

2005-09-15

Receita...

RECEITA PARA FAZER UM HERÓI
(De Reinaldo Ferreira)

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

(Leia, mas imagine-se a ouvi-lo na voz do Mário Montes.
Mário Montes, quem é???- perguntará você.
Respondo eu: - Sei lá!!!
É UM que eu conheci há pouco e que tem "ares" d' amigo!)

2005-09-14

Procuro...

Procuro uma frase despojada de palavras onde pudesse dizer TUDO!

2005-09-13

O principezinho...

O JOÃO DEU-ME UMA FLOR!

"Se alguém gostar de uma flor da qual apenas existe um único exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso bastará para que se sinta feliz quando as contempla. Diz para consigo: « A minha flor está lá, em qualquer parte...» Mas se a ovelha come a flor, é como se , de súbito, todas as estrelas se apagassem."
(O Principezinho, de Antoine de Saint - Exupéry)

E foi então que eu, (tal como o principezinho), desenhei um açaimo para que a minha ovelha não coma a flor que o João me deu!!!

João
Gostei do teu texto, (na resposta que deste ao blog: o Pedro).
É uma escrita muito descritiva com uma mistura de desencanto bem humorado!
E é assim que temos de levar a vida!
Revelas-te um rapaz, às vezes um pouco triste e solitário (e quem não o é nos tempos de hoje?), mas a energia está lá para te ajudar a ultrapassar as dificuldades.
É certo que cada vez nos metemos mais na concha, (cada um vivendo a sua vidinha e o parceiro que se lixe), mas é preciso não perder a coragem, a esperança e principalmente o SORRISO.
E quantas vezes não se recebe de troca apenas um esgar pouco amável, mas aí a gente , mentalmente manda-os "dar uma volta"!
Aquela dos cães que ladram, nas tuas corridas de sapatilhas, está muito boa! Eles babam-se, tu pedes socorro e ninguém aparece na janela. E quem vai aparecer, sabendo nós,( tu e eu) que muitos humanos, não ladrando, mordem mais que muitos cães???!!!
Querido João, gostei de ti e da tua coragem e perseverança.
Agradeço a tua flor e a tua visita!
E espero muito que apareças mais vezes.
Um beijo.
E vai escrevendo as tuas coisas...vamos gostar de lê-las!

2005-09-11

Vou ali...

Uma vez que a minha colega bloguista, hoje, já "salvou a honra do convento" com os seus escritos, se me permitirem, eu : vou ali, já volto!!!

2005-09-10

Reflexos - LXVII

" (...) a criança está muito mais perto da poesia enquanto é ainda criança. (...) Ela toca o nascer das coisas e das palavras, com a maior naturalidade."

Maria Alberta Menéres

Verbo do Dia - Domínio

Ouvi, algures na televisão, que "devíamos abdicar do domínio", porque não somos deuses.

Parei durante alguns minutos, reflecti sobre a frase e concluí que o domínio tolhe a liberdade, derrruba o respeito, rouba a paz, impede a felicidade e contraria o verdadeiro amor.

Faúlhas de Cupido

CORAÇÃO POLAR

Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conhas e corais
a gruta onde me esperas
com teus beijos de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.

Não sei de que cor á essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde o sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

Manuel Alegre

Pétalas de Bem-te-Quer - 24.ª

O ruído de uma colher riscando o fundo de um prato de criança subiu pela parede, aproximando o meu olhar de um creme verde no qual uma mão enrugada desenhava círculos sulcados com sopros de apagar velas...
Recolhi pétalas quando me retirei da janela, permitindo que a roupa seca do estendal ensaiasse passos de dança ao ritmo de um ventinho, com receio que alguma poeira mergulhasse no perfumado manjar.

Palavras - XXXVIII

UM FADO: PALAVRAS MINHAS

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um venro que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen

2005-09-08

Pestanejar...

Convém pestanejar para sacudir a poeira que virá de Troia às quatro da tarde!

2005-09-06

Luto!

Minha amiga Carmindinha.
Mataram o teu filho!
Como é que tu irás sobreviver?

2005-09-04

Não estava...

O Homem triste hoje não estava no jardim!
Veste-se de cores claras, terá sessenta e tal ou setenta anos e leva sempre um saco na mão.
Senta-se e com a cara mais triste deste mundo, olha para o chão mas, (penso eu), fica a olhar para dentro da sua tristeza e nada vê em redor.
Quando se levanta o passo é lento e pouco seguro.
Sente-se que caminha para um qualquer lugar, que para ele não é lugar nenhum!
Um dia vou segui-lo, discretamente.
Intriga-me!
Ao vê-lo, caminhando no seu vazio, eu suspiro (de pena de nada poder fazer) e as árvores abanam a folhagem, como quem sacode uma preocupação.
E o passaredo, será que deu fé???...

2005-09-02

Reflexos - LXV

Evitarei ter demais
e gastarei sempre menos
qualquer navio nenhum cais.

Agostinho da Silva

2005-09-01

Verbo do Dia - Setembro

Setembro era o sétimo mês do ano no calendário primitivo romano, que começava em Março, e consagrado ao deus do fogo, Vulcano.

É um mês de grande importância para a agricultura: limpam-se as ervas daninhas; cortam-se os mamões das árvores; vindima-se; cava-se; aduba-se; enxerta-se; semeia-se.

Quem quiser os seus jardins floridas na próxima Primavera, pode começar a preparar os canteiros e plantar:
- amores-perfeitos;
- begónias;
- cravos e cravinas;
- goivos;
- malmequeres;
- margaridas;
- miosótis, etc.

Em breve chegará o Outono e o mês em que nasce já nos presenteia, pela manhã e à noite, com um saudável fresquinho.

Este mês também tem uma referência na História Portuguesa: A Revolução de Setembro em 1836, a fim de restabelecer a Constituição de 1822.

Ah! E em Setembro também nasceram algumas pessoas especiais cujos parabéns "cantarei" neste espaço.

Bom mês de Setembro para todos!

O pé de vento!

Num dia de temporal, ia eu a atravessar o pátio de escola de sombrinha aberta, quando um "pé de vento" me pegou!
Que isto aqui quando sopra a Nortada...
Fiz prodígios de equilibrio, procurei forças que não tinha e senti os pés erguerem-se do chão, mãos firmes no cabo da sombrinha que me arrastava qual pára-quedas.
Mas... e há sempre um mas...
O meu amigo João Limpinho estava chegando de carro para me visitar!
Ao ver-me levantar voo, nem bem estacionou e mais rápido que uma rajada de vento correu e apanhou-me no ar!!!
Obrigada João!
Pelo teu empenho nesta "operação de salvamento", voltei a ter OS PÉS BEM ASSENTES NA TERRA!!!
Mas não possso deixar de me questionar com certa curiosidade: Se tu não me tivesses reposto no lugar, o que andaria eu "pintando", a estas horas , por esses céus ???
Se calhar já não era Carolina e sim KATRINA o furacão das Américas!

Saltinhos

Era uma jovem senhora que atravessava o jardim com passo determinado, mas,de repente, deu gangão, ao qual se seguiu um movimento brusco e instintivo da cabeça, acompanhado de um olhar "aflito" à volta...

A senhora respirou fundo ao aperceber-se de que não havia mais ninguém naquele espaço, pois eu continuava o meu caminho, aparentemente indiferente à sua presença, embora tivesse receado alguma queda, espreitando, sob os óculos de sol, o seu pé descalço e o saltinho do seu sapato que ficara prisioneiro na calçada...

Recordei-me de incidentes desta natureza que me divertiam na minha meninice e da minha colega, a quem sucedeu algo semelhante, há poucos dias, numa marginal próxima da capital.

Quando fala no assunto, ainda dá gargalhadas, orgulhosa da sua postura, porque ao cair, manteve o pé no sapato e ergueu-se rapidamente, voltando à posição incial num ápice...