2007-10-25

Porque ela também se chamava Carolina...


A MINHA AVÓ PALMINHA
Fez este mês dois anos que morreu o 3º e último filho da minha avó Maria Palminha.
Claro que a minha avó já morreu há muitos anos.
Tinha três filhos homens: o José Francisco (meu pai), o Zeferino e o Francisco José .
Este seu filho, o mais novo, foi no "tempo da mãe", uma espécie de "dona de casa".
É que a minha avó deixou de fazer a lida da casa quando tinha cinquenta e tal anos.
Não tinha "trambelho" para nada, diziam os "entendidos"...
Hoje, diríamos que sofria de um esgotamento, de uma depressão ou, se calhar, de stress...
Mas, naquele tempo, não havia contemplações para estes "males"!
Na verdade, uma grande inquietação dominava a minha avó.
Perdera a faculdade de dormir, e deambulava noites inteiras pela vila( Santiago), de rua em rua, visitando familiares, amigos e conhecidos.
Muitas vezes nos entrou pela porta dentro às 3 ou 4 horas da manhã. Deitava- se um pouco nas nossas camas mas, logo se levantava dizendo: - Não consigo dormir! ( E lá ia ela bater a outra porta).
Toda a gente a conhecia, a estimava e lhe dava agasalho nocturno!
O seu "grande inimigo" era o médico!...
Sempre a ouvi descompor o médico.
Se lhe receitava calmantes ela dizia-lhe: -"Bardamerda", senhor doutor, você quer é matar- me!
Se não receitava nada: - Raios o partam, senhor doutor, não me receita nada. Quer que eu morra?
O médico sorria, cheio de paciência e nunca "lhe levava a mal" !
Era uma mulher muito generosa, que andava sempre com moedas no bolso, para distribuir pelos netos. Cumprimentava-nos com aperto de mão e na nossa (mão) deixava sempre uma moeda.
Era um segredo nosso! (Às escondidas do meu avô que fingia não saber...)
Pois agora, minha avó Maria Palminha, já te podes reunir com os teus três filhos.
Estou certa que lá nos céus, haverá como na tua casa, uma grande lareira onde fumegava sempre uma cafeteira de barro com chá de "bela- luísa".
Sentam- se por lá em banquinhos de nuvem, bebendo uma "chazada" e pondo a conversa em dia.
Claro que o meu avô estará, a ouvir "à socapa" a Rádio Moscovo. ( Não deve ter perdido o hábito).
E o meu tio Chico, no fim do serão, irá lavar as canecas, como sempre fazia. (É que eu duvido muito que a minha avó tenha voltado a interessar-se pelas lides caseiras...nem mesmo que elas sejam celestiais!
.......
( Dedico-te esta música onde ouvirás a voz da tua bisneta. Tenho a certeza de que vocês gostariam de se ter conhecido).
....
(Publicado nas Sardinheiras em Outubro de 2006)




19 comentários:

Anónimo disse...

Linda homenagem !
Um abraço
TL

Carolina disse...

É.Já não há pessoas assim, nem solidariedades como naquela época!
Obrigada TL

kanuthya disse...

É maravilhoso quando podemos falar ou escrever sobre os nossos amores partidos assim :)

Carolina disse...

Há sempre a saudade mas, também histórias muito giras sobre os "meus amores partidos"! :)..

Anónimo disse...

ja descobristes quem é o anonimo?

Carolina disse...

Ó amiga Silvana, o anónimo está no texto anterior que fala do sol.
bjs

a das artes disse...

Se morrer é assim tao bom...

Anónimo disse...

E depois , ... todos os fins de mês pela noitinha lá ia eu com a minha mãe á casa da minha avó (eu sou o neto )Maria Palminha.
Sentados á volta da "chaminé" sempre fumegante , "uma mão de conversa" , uma chazada da panela de barro , uma olhadela discreta para a porta do quarto do meu avô (que já dormia)e eis que me passava umas nota de 20 e de 50.
Sim ... porque a "Floresta" não podia por si só arranjar dinheiro para tantos estudos, se é que queriam alguém mais "letrado" na familia ?.... E vai daí , "valha-nos a generosidade da Maria Palminha .
Pois é , não era fácil a vida dos pais dos "agora de cinquenta".
E "dos agora de cinquenta" ápesar do jardim em que viviamos (jardim ... sim), nem tudo era um mar de rosas.
Nas invernias lá iamos para o externato com a nossa calça de saragoça, com a bota cardada para não gastar as solas e a samarra (quem a tinha !...). Ah... e a samarra tinha também um papel caseiro muito importante ; nas longas noites de estudo de Dezembro e Janeiro punha-nos um pouco mais confortáveis. Claro ... porque não era nada prático , nem levar a brazeira (já apagada) para o 1º andar , nem tão pouco tirar uma das 3 ou 4 mantas da cama e andar com ela ás costas até ao nascer do dia.
É verdade , ... abençoado Externato de S. José que a não existir na altura , tinhamos neste momento em Santiago e em Sines uma geração de "cotas" de cinquenta só com a 4ª classe.
Beijinhos á minha avó Maria Palminha e familia ... Até um dia!...
JP

Carolina disse...

Olha o meu mano no blog!!!!!
Quem diria!.....
Bem- vindo!
Tudo o que diz é bem verdade.
Os tempos não eram fáceis!!!

RAugusto disse...

Foi a primeira vez que visitei o blog,e confesso que me fez chorar de ternura. Uma boa noite para todos.

Carolina disse...

Obrigada pela visita!
:)

Anónimo disse...

Eu queria escrever com esta ternura da minha avó que criou ,me ensinou as primeiras letras, me deu todos os valores com que vivi !obrigada Carolina Você fez aquilo que eu não sei ... escreveu no blog! Um beijo

Madelina

Teresinha disse...

As tuas mãos, enquanto escrevem conseguem encantar e emocionar toda a gente!
Um beijinho para ti Carolina, e, um abraço apertado com amizade.
:)

Anónimo disse...

Claro lá vem uma legriminha...
como tenho saudades da minha "avó
mãe ou mãe avó"...da minha avó!
Que bonito a neta ecreveu .a bisneta cantou ,o mano respondeu....
obrigada carolina.

ivone.

Bia dos Santos disse...

Olá Carolina:
Que terna homenagem fez à sua vóvó, gostei mto e a imagem é de sonho, será que soprando a florzinha chegam lá os tufinhos com tudo aquilo que ficou por dizer, por fazer....
beijinhos

bia dos santos

Ana disse...

Minha querida amiga Carolina, é muito bom recordar os nossos queridos !
Eu tenho boas recordações dos meus avós, tu quando escreves prendes qualquer pessoa a ler com muito gosto o que escreves !!!
Gostei bjs.

Carolina disse...

A todas(os) agradeço os amáveis comentários!A minha avó era realmente uma pessoa muito engraçada e estimada na vila de Santiago (naqueles tempos, vila).

O céu da Céu disse...

AFINAL HÁ COINCIDÊNCIAS!Hoje vou ler o teu "blog"e
falas da tua avó...lindo e ternurento...( e eu também recordo a minha),acabei de o fazer...beij

Carolina disse...

Afinal, Há!
;))