2007-12-31

2007-12-27

Outros Natais!...


Olha o nosso Zé!
A guerra colonial passou por nós (a família), de uma forma de certo modo ligeira. Talvez o diga agora, porque a "peneira" do tempo já coou mágoas e inquietações.
O meu irmão foi cedo para a tropa. Com 18 anos, acabado o então chamado 7º ano, resolveu ir voluntário para se "despachar cedo daquele assunto".
Navegador aéreo foi o cargo que ocupou.
Nunca fomos a dramáticas despedidas nem a chegadas. Nunca houve lenços a acenar. Ele dizia-nos sempre que nunca sabia horas de partida nem de chegada.
"Penso que o fazia para nos poupar!..."
Percorreu quase todo do Ultramar, aparecendo em casa e desaparecendo daquela forma inesperada e ligeira do avião que passa.
Sabíamos notícias através dos tais aerogramas. Ele a contar coisa de lá. Eu a contar coisas de cá.
Lembro-me de um "Dia de Natal"!
Estávamos, eu e os meus pais em S. Torpes, no nosso restaurante a começar a almoçar.
De repente lá estava ele a entrar-nos pela porta dentro.
Felizes mas, incrédulos olhávamos espantados. O meu pai foi o primeiro a reagir:
- Olha o nosso Zé!!!
E de um melancólico almoço de Natal a três, passámos para um alegre festim a cinco, pois ele trazia consigo um grande amigo!
E digam lá se não foi um belo e inesperado presente?






2007-12-25

Irra!

Irra!
Desta vez até a roupa me levaram!
Não sobrou nada a não ser o barrete, as botas e uma bolinha colorida!...
Para o ano não me apanham nestas andanças.
Era o que faltava!...






2007-12-22

Ó diacho!...

Quem me acode?
Ó da guarda!
Não consigo travar o raio da Rena!
Estou a ver que só consigo pará-la na Páscoa!
Tou farto!






2007-12-20

Quadrinhas ao Menino Jesus!


Menino Jesus
Diz- me onde estás
Lembra- te que o mundo
Precisa de PAZ!

Menino Jesus
Olhos bonitinhos
Dá sol e amor
Para os mais velhinhos
Menino Jesus
Chegou o Natal
Sabes onde eu moro?
Diz ao Pai Natal

Diz ao Pai Natal
A minha morada
Esperarei por ele
De noite acordada

Quero ver as prendinhas
Que ele me vai dar
Eu portei- me bem!
Podes perguntar...

(Para os Meninos e Meninas , mesmo os que ñ se portaram lá muito bem...)
(Carolina, in Sardinheiras/Natal de 2005)

2007-12-17

2007-12-12

O "basbaque"


ELA estava sentada no muro do calçadão.
Era brasileira e perfumada!
Bonita e simpática!
Cumprimentou-me quando passei: - Então "sinhora"passeando na beira do mar? Respondi-lhe com uma frase e um sorriso.
Senti o seu perfume muito forte, tão forte que se podia cheirar de longe!
De repente um carro estacou. Um "basbaque" saiu do carro e sentou-se no muro. Olhava pelo canto do olho a senhora brasileira. Como não lhe fosse dada grande atenção, começou a passear para cá e para lá, completamente hipnotizado (deduzo eu) pelo "pêrfume".
E durante cerca de meia hora, ele em "aflições", tentava captar dela um olhar, nem que fosse só uma "leve miradinha".
Então, outro carro parou. A senhora levantou-se e entrou no carro.
E lá se foram: ela e o senhor que vinha conduzindo esse carro.
E o "basbaque", desiludido, ficou aspirando os últimos resquícios daquele perfume, que ele chegou a pensar seria para as suas narinas.
E eu, se não me apetecesse dar uma gargalhada, quase teria tido pena dele.
Diverte-me esta "espécie de passarões" que se convencem, que ao primeiro piu...piu... lhes cai TUDO no bico!
Bahhh... basbaques
!
.........
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2007-12-09

Uffffffff!.....



Vou "raspar-me" antes que o Pai Natal me "engate" no trenó!
Há por aí muita corsa mais jovem do que eu!...Contrate-as!
Este ano vou para os Jogos de Inverno na Suíça!
Desenrasque-se!







2007-12-01

Desabafos da LUA!













Com a aproximação do Natal não há LUA que aguente! Fico tonta com tanto movimento!
Este desassossego dos Pais Natais até me baralha as FASES. Em menos de nada emagreço, perco o brilho e ficarei:
minguante...
minguante...
minguante...
min...
gu...
an...
te...

2007-11-27

Leituras!


Sinopse
Sevilha, 1915 - Vale do Paraíba, 1945: trinta anos da história do século XX correm ao longo das páginas deste romance, com cenário no Alentejo, Espanha e Brasil. Através da saga dos Ribera Flores, proprietários rurais alentejanos, somos transportados para os anos tumultuosos da primeira metade de um século marcado por ditaduras e confrontos sangrentos, onde o caminho que conduz à liberdade parece demasiado estreito e o preço a pagar demasiado alto. Entre o amor comum à terra que os viu nascer e o apelo pelo novo e desconhecido, entre os amores e desamores de uma vida e o confronto de ideias que os separam, dois irmãos seguem percursos diferentes, cada um deles buscando à sua maneira o lugar da coerência e da felicidade.
Rio das Flores resulta de um minucioso e exaustivo trabalho de pesquisa histórica, que serve de pano de fundo a um enredo de amores, paixões, apego à terra e às suas tradições e, simultaneamente, à vontade de mudar a ordem estabelecida das coisas. Três gerações sucedem-se na mesma casa de família, tentando manter imutável o que a terra uniu, no meio da turbulência causada por décadas de paixões e ódios como o mundo nunca havia visto. No final sobrevivem os que não se desviaram do seu caminho.


(Estou a ler e a gostar bastante! Não simpatizo muito com o Homem mas gosto da Escrita dele!)

2007-11-21

Presentes!


Adorei os presentes que Zília me ofereceu ontem!
Produtos aromáticos , saborosos e fresquinhos da sua horta!
A saber:
Chá de alecrim
Chá príncipe
Chá de bela luísa (lúcia lima)
Folhinhas de louro
Dois chuchus (planta cucubitácea (?), boa para pôr na sopa)
Alguns medronhos
E uma batatinha doce assada
Ao abrir o saco em casa quase me pareceu Natal!
Obrigada, minha Amiga!

2007-11-18

Carta a uma Professora!

(César, o 3º na fila de baixo a contar da esquerda, calça amarela, blusa aos quadradinhos e casaco azul.
Cabelo encaracoladinho e os olhinhos lindos, alegres e bondosos...mas, isso não podem vocês ver!).....
...
E, HOJE, com grande alegria recebi, este mail, que trancrevo. Espero que ele não me leve a mal...
....
Bom dia Professora (sim, os anos passaram, mas continuo a considerá-la"a Professora".
É com enorme prazer que escrevo este mail, e descubro que continua apensar nos antigos alunos do mesmo modo que eles ainda pensam em si.
Realmente, por mais que fique sempre no ar a ideia que na primeira oportunidade teremos que revisitar os sítios onde começámos a"crescer", o nosso dia a dia actual parece não partilhar a nossa vontade, e levanta sempre uma "barreira" para evitar que isso aconteça, seja no espaço ou no tempo.
Para partilhar consigo um pouco do meu percurso desde que terminei a minha vida académica, posso dizer que os meus primeiros anos de actividade profissional foram passados no Litoral Alentejano, primeiro numa PME de prestação de serviços, depois durante mais dois anos numa Multinacional Petroquímica, também em Sines. Posteriormente, surgiu um novo desafio que me fez voltar para Lisboa, desta vez numa Multinacional de Artigos Desportivos. Também este último desafio já faz parte do passado, uma vez que desde meados deste ano, que aceitei o convite para liderar um departamento de Recursos Humanos, desta vez numa Multinacional na área da Consultadoria.
Tem sido sem dúvida um percurso cheio de experiências (na sua maioria positivas), que me fez chegar neste momento a uma fase da vida onde divido o meu tempo entre Lisboa, e várias outras cidades europeias (e o ocasional fim de semana no Litoral Alentejano).
No entanto espero que, apesar da minha tenra idade, nos próximos anos consiga voltar a fazer com que esta terra que tanto gosto, volte a ter uma parte mais significativa no meu dia a dia.
Espero também que na resposta a este mail possa obter algumas informações sobre o que tem sido a sua vida desde então.
Em relação às fotos prometidas, tal não está esquecido, e serão enviadas na primeira oportunidade.
Um grande beijo
César Veríssimo
...
César, meu querido aluno, vou responder-te por e-mail, e certamente voltarei a falar de ti e dos teus colegas neste blog.
Para ti saudades e um beijinho.
Obrigada pela "tua carta"!

2007-11-14

O barrote!


.............
..............
Chamava-se Marco e tinha 7 anos.
Era meu aluno.
Um dia, atravessávamos calmamente o pátio da escola a caminho da sala de aula, quando o Marco estacou de repente e disse:
- Tás a ver professora?
Vi que ele apontava para o telhado da cantina, na altura em obras.
- Vês aquele barrote? - insistiu ele.
Vi que do telhado meio desmanchado, sobressaia um grosso barrote.
- Sim vejo, o que é que tem?- respondi.
- Pois! Que belo barrote para dar com ele nos "cornos" do meu pai! - disse o Marco, para meu grande espanto.
E nem me deu tempo de reagir acrescentando:
- Quando vejo o meu pai a bater na minha mãe, se eu tivesse um barrote daqueles, arreava-lhe!!!

(Chama-se Marco e hoje já deve ter 20 anos. Passeia de mão dada com uma bonita mocinha.
- Marco, não te esqueças de tirar da tua infância uma boa lição!
Que sejas bom companheiro e bom pai!
E que nunca um filho teu repare nos barrotes que possam sobressair de telhados em arranjo!...)



......

Marco, o 3º na fila de baixo a contar da esquerda)

(in sardinheiras em 24/6/2005)

2007-11-11

Jasmim!

(Porque no fim de semana passado dormi em Portel no Hotel "Refúgio da Vila", em cujos jardins, esta planta perfumava a noite.)


Cultivado em larga escala na Europa, o Jasmim é uma planta de origem árabe muito apreciada pela beleza e, principalmente, pelo aroma de suas flores, em geral brancas, mas também encontradas na cor amarela.
Seu poderoso aroma é capaz de produzir diversas sensações olfativas, definidas pelos especialistas como floral, calor, animal, frutífero e outros. Devido essa variedade de sensações olfativas que produz, o Jasmim é intimamente relacionado ao mundo da perfumaria, sendo, para isso, mais utilizadas as flores brancas.
Floresce desde o verão até o outono e, mesmo que tenha sido reduzido o cultivo do jasmim, comparando com o passado recente, suas flores são indispensáveis na indústria de perfumes. O valor decorativo das flores de Jasmim, decorrente de sua apreciada beleza, também é bastante importante, sendo ele utilizado freqüentemente em jardins, praças, parques e muros, emprestando seu aspecto feliz e belo às cidades.
O Jasmim é também muito utilizado na culinária e em diversos tipos de cosméticos.Seus mais de 200 tipos, entre arbustos e trepadeiras, requerem alguns cuidados, necessitando de sol, podas freqüentes e solo húmido. Além disso, é necessário supervisionar o seu crescimento, porque que este se dá muito rapidamente, excedendo as expectativas de quem o cultiva, podando-o regularmente. É mais seguro, que por serem flores tóxicas, sejam mantidos fora do alcance das crianças e dos bichinhos de estimação.
As flores do Jasmim são consideradas a rainha das flores na aromaterapia, trazendo sorte e alegria, com seu perfume exótico, envolvente, intenso, marcante e afrodisíaco, que se acentua mais durante a noite, aguçando de maneira sublime a sensualidade.
Flores de Jasmim para presente, podem transmitir diversos sentimentos, mas seu maior recado é a elegantíssima declaração de amor àquela pessoa especial.
Flores Jasmim :
Curiosidades » A primeira muda de Jasmim a chegar na Europa e, conseqüentemente, no Ocidente, veio da Pérsia no século XVI.
Na Sicília, em tempos remotos, acreditava-se o Jasmim tinha poderes divinatórios, assim as bruxas o utilizavam para tirar o amor dos corações dos homens. Costuma-se dizer que toda a Tunísia, país que tem essas flores como símbolo, cheira a perfume de jasmim. Na China é tradição beber o chá feito de Jasmim.

2007-11-06

Conversas de calçadão



- O que está s a fazer, Alberto?
- Vou arranjar estas sardinhas para dar à Mariana Rabina!
- Quais sardinhas? Não vejo nenhumas.
- Aqui neste saco azul, não vês?
- Ah! (Vi um saco de plástico azul quase cheio de sardinhas).
- E para que queres esse garrafão com água do mar?
- Escamo as sardinhas, corto-lhes a cabeça e meto-as no garrafão. Com a água fresquinha e salgada ficam como vivas!
....
Estranhei, escamadas e sem cabeça, como poderiam estar como vivas!...
Mas o Alberto é assim. Sempre original! Sempre praia abaixo, praia acima. Sempre activo.
Desta vez preparava as sardinhas para a sua amiga Mariana Rabina, fazer um petisco: SARDINHA DE ESCABECHE!(Esclareceu ele.)
E lá ficou sentado, numa rochinha, a arranjar os peixinhos que lhe tinham dado na lota. Dado ou comprado.
Ele diz sempre que compra, mas eu duvido um pouco.
É que para negociar não há como ele.
Temos um negócio ajustado há meses:
O Alberto dá-me 3 bóias de vidro, em troca de um garrafão de vinho tinto!
(Se me demoro a levar-lhe o garrafão ainda perco o negócio...)
....

E se gosta de "Dourada de Escabeche" clique em:

www.cantodasletras-asas.blogspot.com


2007-10-31

Halloween!!! Balhemos, BRUXAS, balhemos!


Sou bruxa
e o que é que tem?
Sina que o demo me deu!
Há quem, parecendo santinha,
seja bruxa como eu.

Corro daqui para ali
tenho a vassoura
"empanada"
e numa grande canseira
faço bruxedo e bruxedo
deixo a "malta" enfeitiçada!

Onze bigodes de rato
sete penas de falcão
quatro coaxos de sapo
treze aranhas
e um escaravelho
vai tudo pr'o caldeirão.

Por isso tomem cuidado!...
Façam figas e esconjuros
fujam de mim a sete pés
tranquem portas
saltem muros!

(Atenção: bruxas sem vassoura não faltam por aí e são as mais perigosas... Bjs e desejo a todos bons feitiços!)

2007-10-28

Ossos do ofício!


A Rainha das Almofadas de Alfinetes
tem uma vida dura.
Quando se senta no seu trono
grande dor a perfura.
.....
.....
(Desnho e texto de Tim Burton)

2007-10-25

Porque ela também se chamava Carolina...


A MINHA AVÓ PALMINHA
Fez este mês dois anos que morreu o 3º e último filho da minha avó Maria Palminha.
Claro que a minha avó já morreu há muitos anos.
Tinha três filhos homens: o José Francisco (meu pai), o Zeferino e o Francisco José .
Este seu filho, o mais novo, foi no "tempo da mãe", uma espécie de "dona de casa".
É que a minha avó deixou de fazer a lida da casa quando tinha cinquenta e tal anos.
Não tinha "trambelho" para nada, diziam os "entendidos"...
Hoje, diríamos que sofria de um esgotamento, de uma depressão ou, se calhar, de stress...
Mas, naquele tempo, não havia contemplações para estes "males"!
Na verdade, uma grande inquietação dominava a minha avó.
Perdera a faculdade de dormir, e deambulava noites inteiras pela vila( Santiago), de rua em rua, visitando familiares, amigos e conhecidos.
Muitas vezes nos entrou pela porta dentro às 3 ou 4 horas da manhã. Deitava- se um pouco nas nossas camas mas, logo se levantava dizendo: - Não consigo dormir! ( E lá ia ela bater a outra porta).
Toda a gente a conhecia, a estimava e lhe dava agasalho nocturno!
O seu "grande inimigo" era o médico!...
Sempre a ouvi descompor o médico.
Se lhe receitava calmantes ela dizia-lhe: -"Bardamerda", senhor doutor, você quer é matar- me!
Se não receitava nada: - Raios o partam, senhor doutor, não me receita nada. Quer que eu morra?
O médico sorria, cheio de paciência e nunca "lhe levava a mal" !
Era uma mulher muito generosa, que andava sempre com moedas no bolso, para distribuir pelos netos. Cumprimentava-nos com aperto de mão e na nossa (mão) deixava sempre uma moeda.
Era um segredo nosso! (Às escondidas do meu avô que fingia não saber...)
Pois agora, minha avó Maria Palminha, já te podes reunir com os teus três filhos.
Estou certa que lá nos céus, haverá como na tua casa, uma grande lareira onde fumegava sempre uma cafeteira de barro com chá de "bela- luísa".
Sentam- se por lá em banquinhos de nuvem, bebendo uma "chazada" e pondo a conversa em dia.
Claro que o meu avô estará, a ouvir "à socapa" a Rádio Moscovo. ( Não deve ter perdido o hábito).
E o meu tio Chico, no fim do serão, irá lavar as canecas, como sempre fazia. (É que eu duvido muito que a minha avó tenha voltado a interessar-se pelas lides caseiras...nem mesmo que elas sejam celestiais!
.......
( Dedico-te esta música onde ouvirás a voz da tua bisneta. Tenho a certeza de que vocês gostariam de se ter conhecido).
....
(Publicado nas Sardinheiras em Outubro de 2006)




2007-10-23

Calma!...

Calma!!!... Não me ausentei!
Mas, tenho andado tão atarefada a estudar italiano
que nem tenho tido tempo para vir ao computador!
Uf!...






2007-10-18

O Cabeça de Melancia

Era uma vez um cabeça de melancia
que todo o dia se sentava absorto
desejando estar morto.

...Mas com as coisas que desejamos
precisamos ter cautela.
O último som que ele ouviu
foi o de uma esborrachadela.

(Do livro " A MORTE MELANCÓLICA DO RAPAZ OSTRA" de Tim Burton)

2007-10-12

Sono Outonal

(Pintura da Klimt)
Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.
(Mário de Sá-Carneiro)


2007-10-05

O Gualdino

(O Gualdino é o 3º na fila de trás com blusa branca, para quem não me veja direi que sou a 4ª na fila do meio com blusa também branca)
Tínhamos terminado o 3º ano (antiga 3ª classe) e, nas reuniões finais do Conselho Escolar, ao fazermos a distribuição dos alunos repetentes, que iriam frequentar o 4º ano "coube-me" o Gualdino.
Entrei em "pânico"! É que o Gualdino tinha muito "má reputação". A professora dele levara o ano a queixar-se : que pulava por cima das mesas, que não obedecia a ninguém e que era impossível trabalhar na turma com tal elemento destabilizador.
Ainda pedi: - Ó colegas haverá mais turmas de 4º ano, por favor não me dêem esse aluno. Que farei eu com ele?
Que não! Fora-me distribuido, e por isso que me aguentasse!
Passei as férias de Verão preocupada, pensando que iria ter um próximo ano lectivo cheio de problemas.
Deduzi: Ou o "conquisto" à primeira ou estou tramada!
E chegou o primeiro dia de aulas! O Gualdino entrou, mais velho que todos os outros e mais alto que todos nós.
Pedi-lhe que se sentasse numa mesa que já lhe tinha destinado mesmo na minha frente encostada à secretária.
E disse: - Gualdino, estás aqui na minha sala porque eu te escolhi. Sempre ouvi dizer mal de ti e pensava: "Porque se portará ele mal, se tem ar de menino bondoso? Alguma coisa me diz que vamos ser amigos. Além disso conto contigo para me ajudares com a turma. Como vês são todos pequenos e um pouco endiabrados. Nos recreios farás com que se entendam e não haja problemas..."
Ele respondeu com um sorriso: - Está bem professora!
Começou nesse dia a NOSSA AMIZADE.
Hoje, o Gualdino é casado e tem dois filhos. Cumprimenta-me sempre com o mesmo sorriso bondoso que lhe vi naquele dia!
Há pouco tempo encontrei-o numa loja e disse-lhe que ia escrever no meu blog sobre ele e contei-lhe este "meu estratagema" para o conquistar.
Fartámo-nos de rir com a minha mentira!
.....
(Quem me está a ler pensará " mas que mentirosa"!
Eu chamar-lhe-ia antes "psicologia aplicada".
Além disso, assim que ele entrou, eu percebi logo que queria ter na minha sala de aula aquele Menino-de-Cabelo-Encarapinhado-e-Olhar-Bondoso!)

2007-10-04

E pronto!...


Sorrateira, pé-ante-pé, dengosa
e a fazer ron-ron lá se vai
a QUINTA-FEIRA!

2007-10-01

Dia Mundial da Música!

Uma das melhores Cantoras da actualidade e uma das minhas preferidas: CECÍLIA BARTOLI!
Clique:

2007-09-28

O Gato!

Era uma vez um gato preto
com olhos tão verdes que quando passeava pelo bosque
dir-se-ia que era uma sombra
em que se tinham aberto dois buracos
para se poder ver a verdura do
VERDE.
( Do livro "463 Tisanas" de Ana Hatherly. Obrigada Teresinha)

2007-09-26

Aniversários!...

Entrei com "ele" na cozinha. Era redondo, pequenino, bojudo, azulado e decorado com motivos marinhos: tubarões, peixinhos, estrelas do mar e algas!Vinha pousado numa chávena e num pires. Parecia uma galinha no ninho chocando os ovos. Até tinha um bico e uma asa.
ERA UM BULE!
Olhou desconfiado para um púcaro (com pouca graça e meio encardido) que fervia ao lume.
- Quem és? - perguntou o bule.
- Ora, não vês? Sou um púcaro e todos os dias apanho um escaldão com o chá!...
- Cháááá!?... E isso o que é? - continuou, intrigado, o bule.
- Ignoraaaante!... E escondendo-se entre fumarolas e odores o púcaro ficou borbulhando indecifráveis sons.
Alguém apagou o lume e ao fim de alguns minutos a Carolina despejou o chá no pequeno bule. Este, primeiro ainda abriu o bico para gritar de aflição, mas depois achou que aquilo era uma delícia e calou-se.
A chávena (pespenega) gritava:
-Quero cháááá! Quero Chááá!...
Eram 22h e 30 m.
A Carolina, o Zé, a Madalena e a Telma sentaram-se na sala a beber chá acompanhado de bolinhos.Nas jarras e vasos muitas flores abanavam as folhas e as corolas, sorrindo.
Sobre a mesa um pequeno livro chamado "463 Tisanas", começou a folhear-se (sem que ninguém lhe mexesse) como se batesse palmas.Todos ficámos admirados com tal fenómeno e até o Bule abriu o bico de espanto!
.......
A TODOS, TODOS OS AMIGOS EU AGRADEÇO, AS FLORES, OS BOLINHOS, O BULE, O LIVRO, OS TELEFONEMAS, OS ABRAÇOS, AS CANÇÕES, AS MENSAGENS, E PRINCIPALMENTE A AMIZADE!
...

E... SE TEMOS ASAS, VOEMOS!!!...
.......
(Inspiração soprada do bico do bule que a Lena Tereno me ofereceu)

2007-09-21

A menina dança???



Bora lá minhas Meninas
Venham comigo dançar
Sou magrinho mas jeitoso
Não precisam se assustar!
...
Tenho os olhinhos vermelhos
A sobrancelha amarela
Se vier dançar comigo
Ofereço-lhe uma costela
....
Prefere uma falangeta
Ou talvez a clavícula
Não tenha medo de mim
Vá lá, não seja ridícula
.....
Eu tenho mais energia
Que muito moço gordinho
Dou-lhe um polegar e o nariz
Três vértebras e um joelhinho!
......
(Carolina, com a chegada do Outono... pirou de vez...)






2007-09-20

O melro


O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre-cura não gostava daquelas cortesias.
(...)
(Guerra Junqueiro)

2007-09-14

Idília!

Chama-se Idília e deve ter mais de 70 anos.
Vive no Lar da Misericórdia em Sines. Aqui, toma as refeições e dorme.
O resto do dia passeia-se por aí.
Hoje lá estava ela na praia, como é seu costume no Verão.
Põe os seus "pertences" numa rocha e em fato de banho, vai recolhendo conchinhas que mete num saco e lixos que leva para o contentor.
Hoje, tinha espalhado na tal rocha, uma quantidade razoável de pinhões, que tinha recolhido no pinhal. Disse-me que os trouxera para os lavar na água do mar e estavam agora a secar ao sol. Assim levá-los-ia já limpos.
Depois descascou um pero, comeu metade e com a outra metade na palma da mão,dirigiu-se a um senhor que também vive no Lar e que estava sentado noutra rocha. Ofereceu-lhe a metado do pero. Ele aceitou e ela voltou "à sua rocha". Arrumou os seus pertences, vestiu-se e lá foi...Eram quase horas do almoço.
Pés na água, espalhando gaivotas pelo ar, à sua passagem.
...
No seu barquito vermelho vinha chegando o Ti Artur com o seu "baldinho" cheio de peixe.

2007-09-13

Estreia hoje!


Teatro MARIA MATOS (Estreia hoje)

Sala Principal
13 de Setembro a 21 de Outubro
4ª a sáb. às 21H30 dom. às 17H00M/12.

Espectáculo comemorativo dos 50 anos de Carreira de João Mota e dos 35 anos da Comuna.
Tradução Sophia de Mello Breyner Andresen.
Adaptação e dramaturgia João Maria André.
Encenação João Mota.
Cenografia José Manuel Castanheira.
Figurinos Carlos Paulo.
Música José Pedro Caiado.
Interpretação: Albano Jerónimo, Alexandre Lopes, Ana Lúcia Palminha, Carlos Paulo, Diogo Infante, Frédéric Pires, Gonçalo Ruivo, Hugo Franco, João Ricardo, João Tempera, José Pedro Caiado, Jorge Andrade, Miguel Sermão, Natália Luíza e Raúl Oliveira.
Execução musical: Hugo Franco e José Pedro Caiado. Desenho de luz João Mota e Zé Rui.
Co-produção Comuna Teatro de Pesquisa e Teatro Maria Matos.

Texto desta postagem, gentilmente autorizado por: http://www.formiguinhadaterra.blogspot.com/




2007-09-09

A quem de direito!...



Ex.mos Senhores, eu sei que Vossas Ex.as receberão muitas reclamações e certamente também muitas aclamações.
É assim em Democracia. Não terão como se diz "mãos a medir".

Eu vou dar "uma no cravo, outra na ferradura":


  • Foram feitos, para pessoas com deficiência, bons acessos à praia de Sines. Um aspecto muito positivo!
  • Mas, por favor reparem como na Estrada da Afeiteira e na Zona Zil o lixo se acumula nas ruas e se espalha nas bermas. Um aspecto muito negativo!

Sempre que há mensalmente o mercado, o vento espalha milhares de sacos de plástico por todos os lugares circundantes.

Não seria possível exigir aos feirantes, que eles próprios, ao vender a mercadoria guardassem em sacos ou caixotes as embalagens vazias em vez de as deixar "ao sabor do vento"?

Penso que ISSO até facilitaria o trabalho dos funcionários da Câmara, encarregados da limpeza e daria à nossa bela cidade um ar menos sujo.

Com os meus cumprimentos

Carolina Palminha

2007-09-04

A Ritinha escreveu-me (?)

Não! Eu penso que aquela "carta" que este mês (surpreendentemente) recebi, era mais uma carta para ela própria. Mas foi com muita emoção que a recebi.Um texto lindo que me encantou e (inquietou) um pouco. Falaremos disso, eu e ela, se ela quiser.
Deixo-vos apenas um pequenino excerto dessa carta.
"Era uma vez uma menina chamada Rita, que gostava muito de... e depois encontrou uma porta...De que é que a Rita gostava?
Quando era menina, como todas as crianças, quis ser muitas coisas diferentes.
Cantora de ópera, cientista, bailarina. Estas são as que me lembro. Mas também me lembro de gostar muito de ler histórias de encantar, com duendes, castelos, animais, princesas... e de desenhar! Era maravilhoso.
A minha professora chamou-me num poema "pássaro-menina". Dizia que eu tinha muita imaginação e que estava sempre "na lua". Eu acho que a lua era a minha sala de chá..."
....
(A postagem que se segue já estava no meu blogue desde Fevereiro, reponho-a na data de hoje porque me parece vir muito a propósito. OBRIGADA POR ME PERMITIRES DE ALGUM MODO ENTRAR NA TUA SALA DE CHÁ!)

Esta foi uma nova "ninhada". Dela faziam parte todos estes alunos e de alguns deles tenciono falar-vos em detalhe.
Começo por falar da Rita, a mais pequenina da turma. Tão novinha que no 1º ano por vezes dormia a sua soneca. E era ver o cuidado dos colegas avisando: - Professora temos que falar baixinho, a Ritinha adormeceu. E ali ficávamos nós aveludando a voz até que a Rita acordasse. Sonhava certamente que era a Mary Poppins voando pelos céus pendurada no chapéu-de-chuva. (Era isso que ela nos contava).
Para a Rita fiz na despedida este poeminha.


RITA E A LUA

Alguém viu a Rita
ou sabe onde está?

- Espere aí professora
estou aqui, vou já!

E desce da Lua,
voo de cotovia.
Os olhos são sóis
que aquecem o dia.

Os braços são asas
de pássaro-menina.
Na voz a frescura
de água cristalina!

Que bom que foi tê-la
ali mesmo ao lado,
pondo nos meus dias
um tom perfumado.
(Rita, sempre na lua como ela própria dizia. (AFINAL HOJE SEI QUE A LUA ERA A SUA SALA DE CHÁ)
Rita, na foto, na fila do meio, a 2ª do lado direito, vestida de cor-de-rosa)

2007-08-31

O "calafão" dos Açores!

Quer saber o que é um "calafão"?
CLique no blogue:http://nampulasandre.blogspot.com/ e procure a postagem com esse título.(Foi de lá que descaradamente a roubei)
Vale a pena!
Se acaso tiver dificuldade também pode recorrer ao seguinte endereço:

2007-08-29

A rapariga que tinha muitos olhos



Um dia no jardim
fiquei muito espantado:
encontrei uma miúda
com olhos por todo o lado.
.....
Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
e, porque tinha boca para falar,
pusemo-nos a conversar.
....
Falámos sobre flores
e das suas aulas de poesia,
e dos problemas que teria
se tivesse miopia.
....
É óptimo namorar alguém
que tanto nos olha,
mas se desata a chorar
apanhamos uma molha.
......
(Tim Burton)



2007-08-20

Palitinho e Fosforina Apaixonados

Palitinho amava Fosforina
Gostava muito dela.
Com a sua figura franzina,
que quente era ela.
.....
Mas seria amor ardente
O de um fósforo e de um palito?
Pois muito literalmente
Incendiou-se o pauzito.
...
(Tim Burton)

2007-08-17

Leituras...




A minha prima Eduarda veio visitar-me e trouxe-me este interessante livro.
"Tim Burton (n. 1958) dispensa grandes apresentações. Autor de uma cinematografia assombrosa, dentro de um conceito que sem mácula podemos classificar de fantástico, ele irmana nos seus filmes a moral dos contos góticos e de horror com a estranha beleza das personagens mais insólitas mas, ao mesmo tempo, inusitadamente sentimentais.
Vejam-se, a título de exemplo, filmes como Eduardo Mãos-de-Tesoura.
..........
Este livro que foi publicado recentemente entre nós pela Antígona, com tradução de Margarida Vale de Gato, este objecto singularíssimo foi originalmente editado em Novembro de 1997 pela Rob Weisbach Books. Trata-se de um conjunto de estórias em verso, acompanhadas por ilustrações que nos remetem constantemente para o universo cinematográfico do autor. "
(Amanhã dar-vos-ei a conhecer algumas das inspiradas estórias.)

2007-08-11

Umas contas



Aprender a tabuada
agora é muito fácil:
Temos muitas maçãs
comemo-las todas
e ficamos sem nada.
.....
Se nos derem, é fácil.
Porém se não nos derem
maçãs duas nem três,
então o caso é grave
pela primeira vez...
( Maria Alberta Menéres)

2007-08-09

Elas voltaram...


As "matrioschkas" voltaram de Moscovo.
Vamos ver as histórias que trazem para nos contar!

2007-08-06

Vento...


Lá vem o vento
que anda e ciranda
e hoje sopra forte
......
desgrenhando
cabelos
penteando
gaivotas
alisando
as dunas
na Costa do Norte!



2007-08-01

Ele voltou...O Vagabundo!


(Em Agosto do ano passado fiz esta postagem. O Vagabundo voltou este ano. Vejo-o "inspeccionando" os contentores do lixo. Este ano em vez de uma garrafa, leva na mão um garrafão de plástico com vinho tinto. Não sei onde dorme. Talvez na praia.)


Canção
"Olhai o Vagabundo
que nada tem
e leva o sol na algibeira.



Quando a noite vem
pendura o sol
na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira!"(Escreveu: Manuel da Fonseca. Canta: Paco Bandeira)

Tirem-lhe o chapéu e em vez da garrafa verde ponham-lhe na mão uma garrafa de cocacola. E é ele!!!
Dorme todas as noites "ao desabrigo" num parque de estacionamento em frente da minha janela. Ali no chão de terra batida, dentro dum saco cama esverdeado, uma pedra por travesseiro e a garrafa (sua única bagagem) ao lado, ao alcance da mão.
Durante o dia, senta-se num canto da praia "à torreira do sol", talvez para acumular energia para a noite dormida ao relento.
E há quase uma semana que o ritual se repete.
Onde ele dorme não há valado. Apenas um muro e uma árvore que lhe faz sombra pela manhã e lhe permite dormir "refastelado" até ao meio- dia.

Pois é, Manuel da Fonseca, hoje vou "tirar isso a limpo". Vou levantar-me de madrugada para espreitar à janela.
Quem sabe? Talvez que, à falta de valado, o Sol esteja pendurado na árvore e ele durma toda a noite à soalheira.
A não ser que... a cocacola seja um truque e afinal,na garrafa, ele guarde o Sol!...

2007-07-31

Os sapatos


Chamava-se Mariana, tinha 8 anos e estava doente com febre.
Uma colega avisou: "Mariana, vê se amanhã podes ir à escola. Vão distribuir sapatos às alunas."
Mariana não tinha sapatos.
No dia seguinte, com grande dificuldade lá se levantou e foi à escola. Talvez assim conseguisse ter uns sapatos. Com o magro salário do pai nunca os teria.
Mal a avistou, a professora, apontando para ela disse que quem não vinha à escola nos outros dias, também nesse dia não faria falta. Não haveria sapatos para quem só aparecia quando havia presentes.
Mariana voltou muito triste para casa.
O pai, sentido com a injustiça, foi protestar junto da professora.
Como não chegaram a um entendimento, o pai (soberano) "decretou": "Pois fique sabendo que a minha filha nunca mais vem à escola!"
Chama-se Mariana e foi esta a história que ela me contou quando lhe perguntei porque sabiam os seus irmãos ler e ela não.
Mariana cresceu.
Hoje tem três filhos e quatro netos!
Viajou por muitos lugares.
Tem muitos pares de sapatos!
Mas... nunca esquece que foi por causa de um par de sapatos que nunca aprendeu a ler!



2007-07-18

Primeira Vida


Três Vidas em Três Canções (título provisório)

Na sua bata de colegial ela seguia com os livros debaixo do braço, contornando as árvores do passeio.
Meia distraída nem reparava na beleza que coroava aquelas árvores frondosas, sentia um aroma adocicado e, à sua volta, zumbiam insectos felizes e irrequietos.
O machimbombo passava três quarteirões mais à frente e ela tinha de se apressar para não ficar em terra.
A rua de passeios largos estava desimpedida e tirando as acácias só precisava de contornar uma ou outra capulana estendida onde as maçarocas, os montinhos de mangas, o caju torrado convidavam a parar e a comprar...
Era um dia quente como são os dias das acácias floridas, ela ia apressada na leveza ondulante e fresca das suas jovens pernas nuas.
Não passava despercebida e um ou outro magala, ao cruzar-se com ela, olhava-a insistentemente e lançava piropos.
Numa corridinha chegou à paragem.
Esta avenida larga de quatro faixas tinha o movimento incessante do trânsito da manhã.
Esperou uns segundos e quando o machimbombo se aproximou estendeu o seu braço moreno e delgado.
Quando subiu ficou junto à janela, à altura dos primeiros ramos das acácias e aí perdeu os olhos naquele mar de flores rubras e intensas. Recordou a canção…

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia que ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar…

(Laura (02/01/2007)

Segunda Vida


Três Vidas em Três Canções (título provisório)

E a vida é como uma canção.
Pode ser alegre ou triste.
Cantiga de Amor ou de Amigo.
Cantiga de Escárnio ou Maldizer.
Sinfonia em Allegro, por vezes vicace, outras moderato.
Som de melancólico Adagio.
No espaço/tempo de um minuto, mil vidas para serem vividas, mil canções para serem cantadas.
Noutros mares, noutros continentes, noutras ruas, estas enfeitadas de laranjeiras a rebentar de laranjas como bagos de mil sóis pendentes, ouve-se o Ti António Sabino cantando:

“Olha a laranjinha
Que caiu caiu
No regato de água
Nunca mais se viu…”

Acompanhava-se a ele próprio com o bater do martelo na bigorna. Era ferrador e enquanto a clientela não chegava, ele ia preparando “os sapatos” com que depois “calçava” éguas e cavalos que puxavam as carroças, carregadas de couves e camponeses que vinham à vila nos dias de feira ou mercado.
Rua da Estrada do Poço. Num dos lados da rua, a Oficina do Ferrador, no outro lado, uma Moagem (sempre tão enfarinhada a cara do moleiro…) e uma Casa de Pasto (chamavam assim aos restaurantes, naquela época). Aqui, sentada na soleira da porta, uma jovem aproveitava os raios de um morno sol de Outono. Dois olhos grandes, onde se vislumbrava uma certa melancolia, bem agasalhada porque era Novembro, ouvia com um sorriso o seu amigo e vizinho Ti António e, quando ele se calava, ela dizia baixinho:“Sei outra”…e cantarolava em surdina:

“Quero bem ao vento norte
Que me faz andar à vela
Quero bem ao vento sul
Que me leva à minha terra…”

(Carolina, 03/01/2007)

Terceira Vida


Três Vidas em Três Canções (título provisório)

O Outono corria calmo, manso como as folhas que a leve brisa amontoava aos cantos. O rio também deslizava por baixo da ponte San Telmo sem sobressaltos, como que meio adormecido. Dizia-se que o Guadalquivir marulhava nas noites calmas velhos segredos de mouras encantadas, trazidas para Espanha de reinos longínquos, do outro lado do estreito. Havia mesmo quem jurasse ter chegado à fala com alguma delas, figuras que lhes tinham aparecido saídas do nada, contado histórias mirabolantes e, como que por magia, se tinham esfumado no ar. Provavelmente eram produto do saboroso manzanilla, vinho fino e seco, de que se usava e abusava muitas vezes. Como sempre em Sevilha e naquela estação, a temperatura devia rondar os 32 graus centígrados. A vida decorria ao ritmo da cidade, com movimentos lentos, sem pressa, onde tudo e todos se esforçavam para não gastar energias, religiosamente reservadas para as “fiestas”, onde inexplicavelmente se soltavam com um vigor de espantar.
Combinara encontrar-me com Guadalupe na Plaza de la Maestranza. A tarde era de touros, ouviam-se os “olés” do público, quase abafando um vibrante pasodoble tocado por uma orquestra de metais. Ocorreu-me a letra cantada por Rocio Jurado e que tão bem descrevia a festa brava:

Oro, plata, sombra y sol,
el gentío y el clamor,
tres monteras, tres capotes
en el redondel
y un clarín que corta el viento
anunciando un toro negro
que da miedo ver.

Chicuelinas de verdad,
tres verónicas sin par
y a caballo con nobleza
lucha el picador,
y la música que suena
cuando el toro y la muleta
van al mismo son.

Viva el pasodoble
que hace alegre la tragedia,
viva lo español,
la bravura si medida,
el valor y el temple
de esta vieja fiesta.

Viva el pasodoble,
melodía de colores,
garbo de esta fiesta,
queda en el recuerdo
cuando ya en el ruedo
la corrida terminó.

Cavalos engalanados com grinaldas multicolores e atrelados a velhos coches aguardavam o fim da faena, sacudindo as caudas entrançadas na vã tentativa de afastar as moscas. Encostados indolentemente aos varais ou sentados nos garridos bancos, os condutores esperavam que o final da tarde lhes trouxesse algum estrangeiro endinheirado, que quisesse percorrer Sevilha.
Admirei os milhares de laranjeiras que ornavam as ruas, segundo ouvira dizer um legado dos árabes que ali se estabeleceram desde o século VIII. E a Guadalupe sem chegar! Conhecera-a no Parque Maria Luísa, com mais de 400 mil metros de superfície, onde a luz nos chega filtrada pelo verde de centenas de espécies de flores, plantas e árvores, algumas seculares. Tinha sido o meu amigo José Cãno que me tinha aconselhado a que não perdesse aquela jóia, um verdadeiro pulmão da cidade. Levantara-me cedo naquela manhã de Outono. Passeava calmamente pelas áleas do jardim, admirando a flora belíssima e sumptuosa, cheirando os mil perfumes que serpenteavam pelo ar, quando senti a atenção desperta por uma linda jovem que estava sentada num dos bancos de ferro, com um livro nas mãos. Olhei-a de soslaio, como que envergonhado por desfrutar daquela forma a sua imensa beleza. A pele era da cor do chocolate, os cabelos lisos despenhavam-se como uma cascata sobre os ombros, uma grande flor vermelha de hibisco ornamentava-lhe a fronte esquerda. Das orelhas pendiam largas argolas de ouro, ao pescoço um colar de pedras vermelhas reflectia os raios de sol. Em ambos os pulsos tinha quatro ou cinco argolas de ouro iguais aos brincos. Trazia um largo vestido branco pintalgado com pequenos círculos cheios a vermelho, composto por vários folhos, como os das dançarinas de flamengo; a gola larga deixava ver o início dos seios, bem torneados, de um creme aveludado. Fiquei ali especado, a olhar, como um espantalho. Claro que ela acabou por notar a minha presença e sorriu-me. Respirei fundo e aproximei-me, apresentando-me. Disse-me que era tradutora de castelhano, que trabalhava para uma conceituada editora e que vinha ali muitas vezes descarregar o stress do dia a dia. Conversámos durante horas, era como se já nos conhecêssemos à muito tempo. Por sugestão sua atravessámos o rio e fomos a Triana. Percorremos a Calle Bétis e sentámo-nos numa esplanada à beira-rio, saboreando belas tapas de variados petiscos, acompanhadas por tequilla muito fresca. Apreciámos a vista da cidade, que se desenhava linda na outra margem. Ela contou-me que este bairro de marinheiros era forja de toureiros, cantoras e bailarinas de flamengo. Contou-me que ela própria nascera ali. Mais tarde, já a noite caíra à muito, regressamos pela ponte Isabel II e depois acompanhei-a a casa. Deixei-a no número 47 da Praça de Espanha, muito perto do jardim onde de manhã a encontrara. E combináramos aquele encontro para hoje, junto à Praça de Touros.Preocupado, decidi ir ter com ela a casa. Fiz parar um táxi e pedi ao motorista que se apressasse. Dei-lhe uma confortável gorjeta e apeie-me junto a um quiosque de venda de jornais. Do outro lado da rua ficava o número 47. Atravessei-a a passos largos e toquei à campainha. Ninguém atendeu. Voltei a tocar, desta vez com insistência. A porta abriu-se finalmente e surgiu uma senhora de roupão, com cerca de 50 anos, que com maus modos me perguntou o que queria. Disse-lhe que a Gaudalupe tinha ficado de se encontrar comigo junto à Maestranza e que não tinha aparecido. Perguntei-lhe se era a mãe. Respondeu-me que não tinha filhos e que ali não vivia nenhuma Guadalupe. Como? Impossível. Contei-lhe que a acompanhara na véspera e que até lhe tinha aberto a porta com a chave que me dera, pois estava com as mãos ocupadas com um ramo de flores que eu lhe comprara. Que não, que ali só morava ela com o marido, que era polícia e que estava a dormir, pois regressara do turno. Insisti e ela ameaçou ir acordá-lo.
Dirigi-me ao quiosque e perguntei ao vendedor se conhecia a Guadalupe, fazendo-lhe uma breve descrição. Guadalupe? A dançarina de flamengo que morrera atropelada ia para uns dez anos mesmo ali, do outro lado da rua, frente ao número 47? O coração começou a bater-me descompassadamente. Vi tudo a girar e não me lembro de mais nada. Acordei numa cama do hospital psiquiátrico Virgen Macarena, nos arredores de Sevilha. Tem sido a minha casa desde então. A recordação de Guadalupe mantém-se tão viva como no momento em que a vi, naquela manhã de Outono, no Parque Maria Luísa.
(Gil, 04/01/07)

A médica psiquiatra, moçambicana há anos a residir em Espanha, olha com ternura para (diz ela) o seu doente preferido. Um homem calmo de olhar triste que se passeia pelos corredores e jardins do hospital, levando sempre nas mãos um grande ramo de flores de hibisco. Quando se cruza com alguém, ele sempre diz: “São para Guadalupe!...
”Está na hora do remédio e ela, ajudando-o a deitar-se, pega no ramo de flores e cuidadosamente coloca-o numa jarra que está sobre a mesa de cabeceira.
Dirigindo-se à enfermeira (uma portuguesa que recentemente chegou ao hospital) diz:
-Dê o calmante ao doente, por favor.
O homem toma o calmante, sabe que isso o ajudará a ter uma noite sem sonhos nem pesadelos.
- Boa-noite! Durma descansado, talvez ELA venha amanhã!...
-Talvez… -diz ele, prestes a adormecer.
(Carolina, 03/01/07)

Quero bem ao vento norte
Que me faz andar à vela
Quero bem ao vento sul
Que me leva à minha terra…

Cantarolava desde manhã aquela quadra que não lhe saía da cabeça. Deviam ser saudades da terra.Há muito que que não ia até lá.
Desde que o avô morrera (saudoso tio Sabino) não regressara, não sabia que era feito da sua oficina de ferrador.
O tempo é implacável. E já lá iam uns anos desde que viera para Sevilha.
Pensava muitas vezes em voltar mas não era fácil sobreviver na sua terra, quase todos a abandonaram e como ela, muitos foram para o sul de Espanha apanhar morangos, uvas, enfim, o trabalho sazonal que houvesse, duro mas bem pago.
Mas esses tempos já lá iam, agora vivia na cidade, trabalhava como auxiliar no Hospital Psiquiátrico e já fizera muitos amigos.
Ganhou afeição aos doentes, em especial ao Sr Paco Gonzalez. Era engraçado como ele desde o princípio lhe começara a chamar Guadalupe... e não é que tinha acertado no seu nome?
Só mais tarde é que percebeu, ao falar com a Dra Marta, que ele tinha uma obsessão e visões com uma tal Guadalupe, bailarina de flamengo.
Na altura até ficou um pouco apreensiva:
- Oh doutora, será que ele tem poderes sobrenaturais?
- Não te preocupes, Guadalupe, é usual estes doentes terem destas fixações, o nome foi uma coincidência. De qualquer modo és para ele alguém especial.

Quero bem ao vento norte
Que me faz andar à vela
Quero bem ao vento sul
Que me leva à minha terra…

Continuou pelo corredor cantarolando baixinho, a pensar quando poderia ir até ao Alentejo, saudades de Serpa, da festa da Senhora de Gadalupe, da largueza dos montados e dos olivais da sua terra.
Marta por seu lado roía-se de saudades bem mais longínquas e persistentes. Não é que não gostasse de Sevilha, mas suspirava por outro calor, mais húmido, agarrado ao corpo, pelo cheiro da terra e do ar impregnado de mil perfumes. África…
A especialização que estava a fazer no Hospital Virgen Macarena ainda ia a meio e tinha mais um ano pela frente antes de regressar à sua terra; enfim , valia-se dos livros, das fotos e da música para manter vivo o seu sentimento de pertença.
(Laura, 05/01/2007)