2005-03-31

E aqui...

E aqui estou à espera
- com este destino
de dar sombra aos muros...

Mas à espera de quê?

Que o despenhar no abismo
me crie enfim asas?

(José Gomes Ferreira)

Arco-íris - XI

Preferir... a...

Antes querer...que (do que)...

Ambas as expressões apresentam o mesmo valor semântico, preferência do sujeito, mas não têm a mesma sintaxe.

A forma verbal preferir indica uma escolha - optar por uma "coisa" em detrimento doutra -, por isso, preferir antes é uma redundância.
O verbo preferir rege* a preposiçãoa - é incorrecto pospor que, ou de que.

Exs.: Prefiro ler um livro a ver televisão.

Antes quero ler um livro que (do que) ver televisão.

* Regência - relação entre duas palavras, servindo a segunda de complemento à primeira.

Reflexos - XII

Toda a tua vida passas,
Margarida,
Tão tola, tão presumida,
Agarrada a um espelho velho!
E afinal as melhores graças
Não as tens: Simplicidade,
Modéstia, Naturalidade...
- Que isso não se aprende ao espelho...

Virgílio Couto

O encarregado

O capacete laranja contrasta com o seu rosto de barba encaracolada, adornado por óculos que lhe permitem a leitura ou a escrita do bloco que traz , orgulhosamente, sempre na mão...Roupa de trabalho, mas limpa, sapatos gastos e esbranquiçados, ossos do ofício, um telemóvel preso à cintura...
Olha o mundo com curiosidade discreta e saúda-o dando os bons-dias a quem passa, tímidamente, sem sorrisos, educamente, acrescentando-lhe um "dona"...
E eu retribuo-lhe o cumprimento, mas escondo o sorriso...não sei se seguindo a prudência que a minha mãe me ensinou quando era pequena, porque não se conhece, se inibida pela dor que renasce no meu peito pela discriminação que muitos insistem em empunhar e que envergonha a raça humana...e as dolorosas palavras e estórias dos africanos ecoam na minha mente...

GRITO NEGRO

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão.
E fazes-me tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não
Patrão!

Eu sou carvão!
E tenho que arder, sim
E queimar tudo com aforça da minha combustão.

Eu sou carvão!
Tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas da maldição
Arder vivo como alcatrão, eu Irmão
Até não ser mais tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
Tenho que arder
E queimar tudo como o fogo da minha combustão.

Sim!
Eu serei o teu carvão
Patrão!
José Craveirinha

Recordo, orgulhosamente, o comportamneteo digníssimo do meu paizinho, pioneiro em "pôr a bordo" cabo-verdianos, ensinar-lhes a arte de pescar , alojá-los e sentá-los à nossa mesa nos dias de Natal - coisas de gente grande, despida de preconceitos!

2005-03-30

Palavras - XX

As palavras têm moda. Quando acaba a moda para umas começa a moda para outras. As que se vão embora voltam depois. Voltam sempre, e mudadas de cada vez. De cavez mais viajadas.
Depois dizem-nos adeus e ainda voltam depois de nos terem dito adeus. Enfim - toda essa "tournée" maravilhosa que nos põe a cabeça em água até ao dia em que já somos nós quem dá corda às palavras para elas estarem a dançar

Almada Negreiros

Pétalas de Bem-te-quer - 1.ª

Deixa que uma delicada pétala branca acaricie docemente as tuas pálpebras adormecidas com beijos de luz perfumados de alegria e que nos teus olhos despontem sorrisos tímidos de esperança.

LEITURAS 3

Ai este Mia Couto, este Mia Couto...

"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença : é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção de alma que nem chegou a falecer."

"Chaminé que eu construísse na minha casa não seria para sair o fumo, mas para entrar o céu."

"O mar tem um defeito: nunca seca. Quase prefiro o pequenino lago da minha aldeia que é muito secável e a gente sente por ele o mesmo que por criatura vivente, sempre em risco de terminar."

"A canoa se fez ao mar, um cisco entrou nos olhos de Deus."

( Do livro Mar me quer)

Agora eu...

Vou inventar uma, à Mia Couto!
Cá vai:
"Não se é senão barco à deriva em busca de nenhum porto. Sobrevive- se fingindo que se flutua."

2005-03-29

A Menina do Nenúfar

Pedaços dispersos do livro: "Os Olhos do Homem Que Chorava no Rio"
"Não há médico ou curandeiro no mundo que saiba qual a enfermidade de que padece a rapariga do nenúfar branco, ou qual o remédio que possa atalhá- la. Quem assim nasceu, filha dum raio de Sol, de uma rebentação da Primavera, há- de vir já aparelhada de todos os males e de todas as curas."
"A menina não desiste, pois."
"Mas há um vulto que a segue desde há uns dias........."
"Por ora se pode dizer que este vulto é masculino, que usa as golas da gabardina velha erguidas sobre a cara e que do seu rosto não se destacam mais, na sombra da noite, que os dois olhos grandes e oblíquos, raiados de sangue e insónia, raiados de ler e ler e ler e ler outra vez, dias e noites a fio."
"Mais do que segui- la, o homem parece guardar os seus voos pela margem, as deambulações de borboleta nocturna, proteger- lhe o sono vegetal, sentando- se na borda do lago estagnado que há no jardim sombrio e aí ficando até que a menina enfim desperte do seu sono de seda. Não faz mais nada: senta- se e espera."

2005-03-28

Palavras - XIX

Palavra é uma flor colorida e perfumada cujas pétalas vou retirando docemente para te oferecer, contínua e renovadamente...

Menina da Ribeira

Reflexos - XI

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio que é mar...
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

Fernando Pessoa

Arco-íris - X

- "Atão compadri", já "vossemecei " viu ali aquela febra?!...
- Bela fevra, sim "senhori"!

-Ó, pai! A "mãei" "´tá" a "chamari" a " genti" "pó" almoço! É fêvera, "bora"! Mas "desqueci-me" de levar o "sali"! "Calhando", o "comeri" " ´tá" ensosso!
- Insosso! "Filho da "mãei" do moço", que "nã" "aprendi"!

Na língua portuguesa existem palavras que admitem duas formas (nalguns casos, três) no registo gráfico.
Nas frases anteriores, temos dois exemplos:
1. febra, fevra, fêvera;
2. ensosso, insosso, sem o sal preciso; insípido - "ensonso" só existe na boca de alguns onde falta uma pitada de sal do bom "sabor" português.

Há muitas mais, algumas que sobejamente conhecemos, tais como: ouro/oiro; cobarde/covarde; bêbedo/bêbado e outras cujas cores brilharão no Arco-íris...

Solidariedade

Todos os dias passo na rua da Livraria.
Todos sabemos que o Livreiro não está.
Ele vigia a Menina do Nenúfar.
Mas têm AMIGOS!
Amigos, que numa comovente onda de SOLIDARIEDADE, se revezam, tomando conta daquela casa.
E todas as prosas e poemas de todos os livros, aguardam com esperança!
E na minha janela, virada para o mar, há sempre uma vela acesa...

2005-03-27

DUDU

O menino Dudu
andou a esquiar
cabeça na neve
e pés para o ar

Nas refeições
havia zaragata
não queria salsichas
mas comia a lata

Ai este menino
é levado da " breca"
bebe leite no sapato
e calça a caneca

O pai até disse:
o garoto é tontinho
e o Dudu respondeu:
eu sou um patinho

Meteu-se no lago
e pôs- se a nadar
(ficando molhado)
a mamã pendurou-o
para ele secar

E no dia dos anos
só comeu as velas
com o creme do bolo
pintou as janelas

Parabéns Dudu!( prima carolina)

Parabéns DUDU!

TUDO AO CONTRÁRIO

O menino do contra
queria tudo ao contrário:
deitava os fatos na cama
e dormia no armário.

Das cascas dos ovos
fazia uma omoleta:
para tomar banho
usava a retrete.

Andava, corria
de pernas para o ar;
se estava contente
punha-se a chorar.

Molhava- se ao sol,
sevava na chuva;
e em cada pé
usava uma luva.

Escrevia no lápis
com um papel;
achava salgado
o sabor a mel.

No dia dos anos
teve dois presentes:
um pente com velas
e um bolo com dentes.

( Luisa Ducla Soares)

2005-03-26

Manhã clara!

Do livro A CRIANÇA E A VIDA ( Recolha de uma professora: Maria Rosa Colaço)

Manhã clara
límpida e fresca
andorinhas
fazem o ar mais fresco
barcos
vão- e -vêm
como o senhor mar
que vento tão suave
neste momento
tristeza acabou-se
para dar lugar à alegria
que vem baloiçando
baloiçando
ao sabor das ondinhas claras e frescas
como esta manhã.

(antónio joaquim, 8 anos)

2005-03-25

Arco-íris - IX

IDIOMATISMOS
São expressões populares das quais nos servimos para caracterizar uma pessoa ou facto.

Todos nós as conhecemos e utilizamos. Querem ver? Reparem nestes exemplos com o verbo andar...

Andar com a cabeça à roda – estar muito apaixonado.
EX.: Desde que o conheceu, a Pinga-Amor anda com a cabeça à roda.

Andar com alguém nas palmas da mão – tratar com deferência.
Ex.: O Sr. Sabe-tudo é uma pessoa muito influente, por isso, andam com ele nas palmas da mão.

Andar com a pedra no sapato– suspeitar de algo; ter receio.
Ex.: A Calminhas viu o marido sair muito perfumado e foi atrás dele, porque anda com a pedra no sapato.

Andar com a pulga atrás da orelha – estar desconfiado e preocupado.
Ex.: É melhor contar-lhe a verdade, porque ela já anda com a pulga atrás da orelha.

Andar com ela fisgada – preparar-se para fazer algo (há muito).
Ex.: Não lhe mintas, porque ele anda com ela fisgada e ainda te prejudicas.

Andar com o credo na boca – estar com muito medo.
Ex.: Ele anda sempre a grande velocidade, por isso a mãe anda com o credo na boca.

Andar com os azeites – estar com péssima disposição.
Ex.: Não sei o que se passa, mas ele anda com os azeites.

Também podíamos andar...
- à bulha;
- à coca;
- a monte;
- a nove;
- ao corrente de...;
- ao soco; à pancada; aos pontapés; à pancada com;
- às aranhas;
- às moscas;
- à solta;
- atrás de...; com...;
- com a casa às costas;
- de beiça caída;
- de borla;
- de gatas;
- de mal a pior;
- de mão em mão;
- de orelha arrebitada;
- nas bocas do mundo;
- no ar;
- numa fona; num corropio;
- por...; arames; atalhos;
- sobre brasas...
-
E agora vou pôr-me a andar, porque se faz tarde.

Reflexos - X

HINO À VIDA

A vida é uma oportunidade, agarra-a.
A vida é beleza, admira-a .
A vida é bem-aventurança, saboreia-a.
A vida é um sonho, faz dele uma realidade.
A vida é um desafio, enfrenta-o.
A vida é um dever, cumpre-o.
A vida é um jogo, joga-o.
A vida é preciosa, cuida dela.
A vida é uma riqueza, conserva-a.
A vida é um amor, desfruta-o .
A vida é um mistério, penetra-o .
A vida é promessa, cumpre-a.
A vida é tristeza, vence-a .
A vida é um hino, canta-o.
A vida é combate, aceita-o .
A vida é uma tragédia, abre-lhe os braços.
A vida é aventura, ousa-a.
A vida é felicidade, merece-a .
A vida é a vida, defende-a .

Madre Teresa de Calcutá

Immense et rouge

Immense et rouge
Au- dessus du Grand Palais
Le soleil d' hiver apparaît
Et disparaît
Comme lui mon coeur va disparaître
Et tout mon sang va s' en aller
S' en aller à ta recherche
Mon amour
Ma beauté
Et te trouver
Là où tu es.

PAROLES
(Jacques Prévert)

2005-03-24

Palavras - XVIII

(...)
No fim de contas as palavras não serviam apenas para meter na ordem gaiatos descompostos, insultar as vizinhas linguareiras da cave ou adormecer com canções os miúdos.
Tratava-se sem dúvida dum jogo (o que há de mais sério para as crianças), mas dum jogo que também agradava às pessoas crescidas.

José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras

Citações 3

Às vezes chamam- lhe paixão.
Que pode acontecer da maneira mais simples:
Umas gotas de chuva no cabelo.

(Eugénio de Andrade)

Palavras - XVII

Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula. Ignorada.

Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.

Do fundo do tempo,
martelava.
Contra o muro.

Uma palavra
No escuro.
Que me chamava.

Eugénio de Andrade

2005-03-23

Reflexos - IX

Um último amor

Uma Borboleta Vaporosa voava, doidejante, numa sala às escuras. De repente, no extremo da sala, acendeu-se uma vela.
A Borboleta Vaporosa não sabia o que era uma vela e supôs que fosse um malmequer fechado, suspirando de solidão. Aproximou-se dele para o beijar. Logo caiu no chão com as asas queimadas e o corpito em chamas.
Prestes a morrer, a Borboleta Vaporosa murmurou extasiada:
- Morro feliz. Nunca julguei que ainda fosse capaz de despertar uma paixão tão ardente!

Orlando Neves, Boletim Cultural F. C. Gulbenkian, Dezembro, 1991

O coração (ele próprio)!

O coração é o órgão que comanda a vida, razão quanto baste para o conhecermos melhor.
Vejamos então como funciona:
  • É do tamanho de um punho cerrado
  • Num adulto, pesa em média 300 gramas
  • Bombeia o sangue para todo o organismo
  • Contrai- se, em média, 70 vezes por minuto, batendo mais de 100 mil vezes por dia e fazendo circular, por minuto, 5, 5 litros de sangue
  • Está dividido em quatro cavidades- duas aurículas e dois ventrículos, que se enchem e esvaziam de sangue através de movimentos de relaxamento e contracção do músculo cardíaco (miocárdio)
  • O sangue circula sempre no mesmo sentido, devido à existência de válvulas que se abrem para o deixar passar e fecham para impedir que volte
  • São as artérias coronárias que fornecem ao miocárdio o oxigénio e as substâncias nutritivas de que necessita para "alimentar" os batimentos cardíacos
  • A obstrução destas artérias, em maior ou menor grau, conduz às várias doenças coronárias

O que há a fazer então?

Manter o peso sobre controlo: na alimentação, reduzir as gorduras e açúcares, aumentando o consumo de hidratos de carbono, frutas e vegetais.

E olhe que CORAÇÃO, você só tem um, mesmo que pense que é dono de outros...

2005-03-22

Poema para os poetas deste mundo...

( Do livro Poeta Militante)

Deitei- me de bruços na terra
- cadáver com flores-
na esperança fria
de ouvir pulsar nas pedras
um coração talvez...

Mas em vão! Em vão!

Levanta- te, poeta,
e dá o coração ao mundo.

(José Gomes Ferreira)

Regresso

O Alberto voltou!
Lá estava com a sua cana de pesca mas, o que menos faz é pescar.
Está sempre "calcorreando" a praia em busca de coisas que mete num saco e leva para casa.
Um poeta este Alberto!
Deu-me uma laranja! Muito doce! (- De Santo André- disse ele).
Depois fui a S. Torpes. Grande maresia!
O Jacinto- das - cabras, hoje andava com as "ditas cujas"no meio da estrada, fazendo parar o trânsito e atirando para o ar os seus desconexos discursos.
Às vezes pergunto- me -" Serão mesmo desconexos os discursos ou não terá tudo aquilo um sentido que nós (os lúcidos) não captamos?"
E é ao Jacinto e ao Alberto que vou dedicar o poema que se segue.
Poema da autoria de José Gomes Ferreira, ele próprio um POETA dado a VAGABUNGAGENS...

Reflexos - VIII

A vergonha

Gosto imenso de pessoas tímidas. Bah, tenho horror àquelas pessoas que ficam logo íntimas como se não fosse preciso fazer nada para conquistar os outros ou que os outros são um território onde podem entrar sem convite. Mas são os tímidos, os tímidos convictos, que têm a minha admiração. Não se impõem aos outros à força; quando falam, geralmente é porque têm qualquer coisa de importante para dizer, ouvem as nossas histórias até ao limite da paciência e são o ombro em que mais apetece chorar. Normalmente são muito mais sábios porque perderam mais tempo a observar o que se passa à volta - e conseguiram fazê-lo sem serem notados.

Isabel Stilwell, Jornal de Notícias, 1995

Nota: A "vergonha" excessiva pode ser impeditiva de alcançar muita coisa e tomar a forma de má educação por isso, é importante saber lidar com ela com conta, peso e medida.
Tímidos, não se escondam em demasia! Mantenham esse vosso (nosso) encanto, mas não percam a oportunidade de dizer certas palavras simples e de efeitos mágicos e rápidos, como:
- Olá!;
- Bom dia!;
- Boa viagem!;
- Boas férias!;
- Até já! - despede-se sempre uma amiga quando nos separamos e ambas sabemos que é por algum tempo...

Bom dia para todos!... Para ti, também!

Arco-íris - VIII

Acerca de (a com som aberto, mas sem acento)
É uma locução prepositiva que significa sobre; a respeito de.

Ex.: Quando estamos juntos, gostamos de falar acerca de política.

Cerca de
Também é uma locução prepositiva, mas o seu significado é mais ou menos; aproximadamente.

Ex.: Na festa estavam cerca de cem pessoas.

Há cerca de
Forma composta do verbo haver + cerca de , locução prepositiva com o sentido de mais ou menos” empregando-se quando se trata de tempo

Ex.: Há cerca de meia hora estava um sol radioso.

Esta forma é facilmente detectável, bastando, para isso, conjugar o verbo haver com a frase.

Ex.: O autocarro partiu há cerca de dois ou três minutos
O autocarro tinha partido havia cerca de dois ou três minutos.

A Menina do Nenúfar

A Menina do Nenúfar, bonita, leve e etérea, é prisioneira no hospital e sobrevive graças "à máquina"...
Solitários e tristes, os livros atiram-se das prateleiras e o seu assíduo leitor, de coração ferido, não tem força para apanhá-los!...

E há homens-máquinas que destroem outros homens, a vida, o mundo!...

2005-03-21

Que dia é hoje?

Hoje é o dia de abrir o céu às andorinhas e abraçar a Primavera, que nos brindou com chuva para justificar os campos de esperança e as manhãs floridas!

Hoje é o Dia da Árvore que dança no ar, que acolhe os pássaros, que protege, perfuma e alimenta o homem!

Para a Primavera, para a árvore, para ti...

A ÁRVORE DO SILÊNCIO

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corda do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)
5-8-1962
Vitorino Nemésio


Hoje é o Dia Mundial da Poesia, aquela que..." (...) para tocá-la é preciso ter as mãos purificadas" - afirmou Miguel Torga.

Vamos dar-lhe a mão e descobrir o mundo com olhos rejuvenescidos? Vem, amigo!

QUANTAS SABEDES AMAR AMIGO

Quantas sabedes amar amigo
treides* comig'a lo mar de Vigo
e banhar-nos-emos nas ondas!

Quantas sabedes amar amado
treides comig'a lo mar levado*
e banhar-nos-emos nas ondas!

Treides comig'a lo mar de Vigo
e veeremo'lo meu amigo
e banhar-nos-emos nas ondas!

Treides comig'o lo mar levado
e veeremo'lo meu amado
e banhar-nos-emos nas ondas!

Martim Codex

*treides - vinde
*levado - encapelado


SARDENTA

Tu, nesse corpo completo,
Ó láctea virgem doirada!
Tens o linfático aspecto
Duma camélia melada.

Cesário Verde

I
todos os pássaros sossegaram.
as crianças desceram das árvores, guardaram os
jogos, recolheram a casa.

a noite está próxima.
(...)

Al Berto

Boa noite!

21 de Março

Mas afinal, hoje começa a Primavera ou o Inverno?
Está tudo baralhado, até a Natureza!
Mas, olha... ainda bem que chove!

Afinal é Primavera...

PROMESSA

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.

(Claro, Sophia)

2005-03-20

Adivinhei que gostavas do mar e da...

Há o mar há a mulher
quer um quer outro me chegam em acessíveis baías
abertas talvez no adro amplo das tardes dos domingos
oiço chamar mas não de uma forma qualquer
chamar mas de uma certa maneira
(...)
Não sei se gosto mais do mar
se gosto mais da mulher
Sei que gosto do mar sei que gosto da mulher
e quando digo o mar a mulher
não digo mar ou mulher só por dizer
(...)
Enfim o mar a mulher
pode num dos casos ser a/mar a mulher
mera forma talvez de uniformizar o artigo
Há ondas no mar
o mar rebenta em ondas espraiadas nos compridos
cabelos da mulher
(...)
O melhor da mulher talvez o olhar
é para mim o mar de mulher
e à mulher que um só dia encontro na vida
de passagem um simples momento num sítio qualquer
(...)
a essa mulher qualquer
eu chamo mulher do mar
(...)
mulher mar
(...)
o mar a mulher
(...)

Ruy Belo

Claro, José Régio!

(Eu sei que é um pouco longo este poema,mas, faça um esforço e leia até ao fim.
Proponho-lhe mesmo que leia em voz alta e com entoação.
Verá a força e a verdade que ele encerra.
E repare como não perdeu a actualidade.
Quantas pessoas não "se perdem " apenas porque em vez de seguir o seu próprio caminho, foram atrás de vozes "doces" que lhe disseram :- "Vem por aqui...)

CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui!"-dizem-me alguns com olhos doces.
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "Vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos alegrias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali...

A minha glória é essa:
Criar desumanidade,
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem- vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não! Não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se às coisas que eu pergunto (em vão)ninguém responde
Porque me dizeis vós: - "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se eu vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada.
O mais que eu faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados,ferramentas e coragem
Para eu derrotar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil...
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes Pátrias , tendes tectos,
E tendes livros, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha loucura:
Levanto- a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma e sangue e cânticos nos lábios!

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Tosdos tiveram pai, todos tiveram mãe:
Mas eu, que nunca principio nem acabo
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo!

Ah! Que ninguém me dê piedosas intenções.
Ninguém me peça definições.
Ninguém me diga "Vem por aqui!"
A minha vida é um vendaval que se soltou.
é uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou.
Não sei para onde vou.
- Sei que não vou por aí.

(José Régio)

Sabores à Portuguesa - III

Esta receita, que ainda não experimentei, tem a marca garantida de uma amiga, por isso, aqui a têm como sugestão para acompanhar o chá ou adoçar o serão de domingo - ao que tudo indica, a preparação é fácil!


BOLO DE IOGURTE

- um iogurte de qualquer sabor (eu cá prefiro os naturais...)
- a mesma medida do copinho de iogurte de:
2 x açúcar
3 x farinha
1 x óleo
- 4/5 ovos inteiros
- duas colheres de chá de fermento

Mistura-se tudo junto e bate-se muito bem. Vai ao forno em forma untada (...adoro estes pormenores das receitas, como se um bolo não fosse sempre em forma untada....). Tão simples que até dá para desconfiar, mas recordo que é óptimo.

Bom apetite!

Arco-íris - VII

Pronome relativo - Onde

1. Onde – pronome relativo invariável; pode ser empregado sem antecedente. Neste caso, indica "quietação".

Ex.s: Onde moras?
Onde fica a biblioteca?
Onde está o livro?

Nota: A morada, a biblioteca e o livro não têm movimento, estão “quietos”.


2. Antecedido de: a e de, produz as formas: Aonde e Donde.

2.1 Aonde - destino sem demora.

Ex.: - Aonde vais?
- Vou às compras ( à sala; à praia; ao cinema; a Lisboa - regressa nesse dia -, etc.)


2.2 Donde - proveniência.

Ex.: - Donde vens?
- Da festa!... (do concerto, do Porto, etc.)


3. Para onde - destino com demora.

Ex.: Para onde vais passar férias? (de lua-de-mel, de fim-de-semana, etc.)


4. Por onde - passagem através de.

Ex.: Por onde passaste? (vieste?)

Nota: Sítio (s) que foram passagem até um destino (rua, cidade, caminho, país, etc.)

E agora...querem saber?!...

- Onde estou?
- Em casa.
- Aonde vou?
- À janela.
- Donde vim quando me sentei a escrever?
- Da cozinha.
- Para onde vou de férias?
- É segredo!
- Por onde vim para aqui?
- Pelo vestíbulo.

Bom domingo para todos e vejam bem: aonde, ou para onde e por onde vão!

2005-03-19

Parabéns!

Querem saber para quem é este bolinho?...
Clique:


























Pai

Pai do Céu, obrigada por tudo! Ajudai o mundo interior, particularmente os mais necessitados!
Pai Nosso Pequenino (...) - foi a D. Maria, grande e inesquecível amiga, quem o ensinou aos meus meninos, mas era tão pequenino, que acho que nunca o aprendi...
Pai Natal, criação do mundo, substituto do Menino Jesus, de quem se festeja o nascimento em data e contexto especiais...
Pai adoptivo, o que ama, porque ama.
Pai biológico, o que deu o ser.
Pai presente, aquele com quem se conta.
Pai ausente, ama, mas esquece-se ou não sabe ou não pode estar com...
Pai em "parte-time" - representação do pai da sociedade contemporânea.
Pai de família, o que tem mulher e filhos.
Pai de todos, Deus.
Pai velho, "burro".
Pai dos cristãos, sacerdote, conversor.
Pai João, pai Francisco, pai legítimo, dos filhos do casamento legítimo.
Pai de daia, homem que enjoa muito.
Pai putativo, o que passa por pai dos filhos de outro.
Pai da pátria, deputado da nação.
Pai dos meninos, o que olhava pelos enjeitados.
Pai paulino, o "esperto".
Pai gonçalo, marido dominado pela mulher; fraco.
Pai da história, Heródoto.
Pai nobre, actor encarregado do papel de pai (tragédia e alta comédia)

PAI-DA-VIDA, homem bondoso, indulgente, O MEU PAI, único, carinhoso, amigo, presente, exemplar , que homenageio no Dia do Pai com um terno, reconhecido e saudoso MUITO OBRIGADA!

Àqueles que não o têm, de facto, aos que não o conheceram ou que sabendo da sua existência se sentem orfãos, coragem! Façam tudo para ser gente grande! Mãos à obra!


POEMA DE UM PAI

Não é a tua mão
filha

que eu levo
na minha mão

é uma raiz
que eu planto em mim mesmo
António Reis

Bom dia de S. José!

Encontro...

Foi um encontro de duas pessoas, duas amigas, duas gerações, onde ambas sentimos a presença forte, alegre, saudosa da terceira pessoa - grande mulher, mãe, amiga! - , que permanece viva dentro de nós e cuja presença física reclamamos em vão...
-Faz-nos tanta falta, a ti ainda mais do que a mim...
- O pior é à noite, segredou-me...
- O trabalho é grande amigo! - respondi-lhe.
Sorrimos e permanecemos de mãos presas, fortemente, falando a linguagem silênciosa dos sentimentos...
E eu contei-lhe que fora surpreendida de lagriminha no olho por uma colega, esta semana, que não reparando no processo com a foto que tinha sobre a secretária - tratava de assunto do filho menor - , concluiu, errada e tristemente, que era por causa do serviço...
Decidimos interromper a prosa, porque havia umas luzinhas a querer brilhar nos nossos olhos e o momento era de festa...
Demos um, dois três ou mais abraços e não percebi se só dávamos uma à outra ou se alguém também nos dava a nós...e fizemos promessas de reencontros desejados!...

E vim pensando que, no trabalho, já ninguém me diz: "Então Aurorita?!... Nem me pergunta se fui à praia, nem me sorri como ela, nem me mostra roupa comprada em populares "botiques" e /ou de confecção adaptada, nem refere, entre gargalhadas joviais e graciosas, que estamos "chiquérimas!"
E ainda não encontrei mãos tão pequenas e de gestos tão largos!...

O Trio

O trio admira, encanta, descontrai e alegra quem o vê e quem o ouve! Foi assim, há pouco na Biblioteca de Santiago de Cacém.
Dois aldeões invadem um café onde famílias e amigos se reunem à volta de algumas mesas iluminadas pela dança de velas escondidas, ornamentadas com miniaturas doces e tentadores salgadinhos; jovens simpáticas e educadas, da casa, ofereciam Porto, Moscatel, sumos, águas e guardanapos...
Os compadres de chapéu domingueiro comunicam entre si por gestos e hamoniosas desgarradas musicais, brindando-nos com frases mudas de expressão facial e corporal, simples, claras e divertidas, de sonoridade criativa, ilustrada por objectos cénicos, reproduzindo momentos do quotidiano onde não falta a preparação e deliciosa prova dum repasto brindado, produzindo imagens, sacudindo os sentidos , provocando emoções...
Eis que surge, perdida, desinibida e radiosa, uma espanholita, num cai e levanta-se, de pinguim escondido dentro de si, chamando pelos seus "hermanos" que vivem instalados dentro de cada um dos presentes, derretendo gelos, motivando corações e mentes adormecidas com palavras, projectando-as como maestro na sua cálida voz, em línguas da Torre de Babel, motivando, impressionando, proporcionando momentos únicos de expectativa e de paragem... - há pessoas grandes que precisam de abraçar o mundo que estremece!...
E surge o momento crucial do enérgico improviso dinêmico e partilhado quando o pai da estrela lhe oferece uma ramo de flores, a que o trio devorador se atira e prova e...duas pétalas amarelas maquilham, rápida, original e harmoniosamente as faces da musa em contínuo canto e movimento....
E agradecem os aplausos do público saciado.
Parabéns a todos - havia duas figuras invisíveis, aparentemente, por detrás do trio - e muito obrigada à Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca!

2005-03-18

E já agora...

Você tem uma FAJARDA?
Eu não, mas gostava de ter.
Se calhar, você tem...
Está curioso?
Então, tente lá saber se tem ou não!
A minha amiga e visitadora do blog, Teresa Romana, tem.
Mas a fajarda dela é tão grande que se calhar já nem se chama fajarda...
Descobriu???...

STROPHION

Em resposta à minha colega "Bloggista".
ESTRÓFIO : substantivo masculino (do grego strophion).
Significa : porta-seios; mas também, tira ornamental que as mulheres gregas usavam, para segurar os cabelos.

Palavras - XVI

" As palavras andam sempre em circulação. Mas há umas que são menos usadas e, por isso, são mais preguiçosas; essas estão em grandes camas que são os dicionários...Só temos que virar os "lençóis" (as páginas) para acordá-las!"

Teresa Guedes, Composição- Oh, Não!

Gostarias de acordar alguma palavra?!...Mais do que uma? Uma palavra alegre? Uma palavra de esperança? Uma palavra doce? Uma palavra corajosa? Uma palavra difícil, porque já a esqueceste?
E uma palavra que te faça sorrir? Estrófio.Sabes qual é o seu sinónimo?

Reflexos - VII

"Amigo é o erro corrigido (...)
(...) é a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!"

Alexandre O´Neill

2005-03-17

O Alberto (1)

Há alguns dias que não vejo o Alberto.
Mais do que eu devem estar admiradas as gaivotas.
OAlberto faz parte da praia de Sines.
Ele caminha pela areia e as gaivotas seguem-no num "patear" lento e sem receio.
Lança-lhes pão, peixe, quiejo e...acreditem, um dia vi que era dum paio, que ele cortava pedacinhos para lhes dar.
O Alberto tem por alcunha "o macaco".
Não sei porquê!
A não ser...
A não ser, por ele ser,tal como os macacos, mais humano do que certos homens.
(Entenda-se por "homens", o conjunto de seres chamados racionais:homem/mulher)

Tarde

Na renda branca
Que a onda tece

E no areal deserto

Estás sempre tu
Tão perto

(carolina)

Teste

Apenas estou a testar se me é possível entrar na página do Blog, pois há 3 dias que não tenho acesso.

Arco-Íris - VI

Gentílico ou pátrio

Esta á a designação do nome que indica a nacionalidade, origem ou lugar de nascimento ou residência de alguém, ou proveniência de alguma coisa.
Nasceu, reside ou faz referência a algo que seja originário de Sines? Então é siniense e não sineense como lemos em documentos impensáveis e, ou nalgumas publicidades...

A regra de utilização do sufixo -ense ou -ano é clara:
- quando a sílaba da palavra é átona, a vogal dessa sílaba pode evoluir para -í-;
- quando é tónica, mantém-se.
Cito outro exemplo: o natural (ou residente) dos Açores é açoriano e não açoreano.
Saliento que a pronúncia correcta de siniense é "seniense", visto que, quando o "i" se repete em sílabas consecutivas, só o último (tónico ou átono) se mantém; os outros, por dissimilação, convertem-se em "e" mudo.

À porta do 28...

Todas as manhãs eles alegram a avenida, tendo por cenário, atrás de si, a porta castanha aberta...
Estão a uns passos um do outro, mas ele encontra-se um pouco mais à frente, lembrando o protocolo real, sempre "bem posto", de boné de feltro preto e vestido de escuro; ela distingue-se pela cabeleira alva esticada para a nuca, mas um pouco elevada, muito penteada, sem que o vento agite um só fio prateado, de pés firmes, escondidos numas pequenas pantufas cor de mel; protege a sua melhor roupa com uma espécie de bibe às riscas azuis e brancas; às vezes cobre as costas com um pequeno xaile...
Olham para quem passa e correspondem ao meu cumprimento matinal com um melodioso e sereno: "Bom dia, vizinha!". Ela esboça um sorriso discreto, que alinda as maças rosadas do seu rosto e eleva um pouco os seus óculos e ele exterioriza a subtileza de homem...
Não sei pelo ou por quem esperam, mas caminham em silêncio e vivem!...
Faltam aqui a sonoridade, o movimento e a cor das palavras do Cesário para reproduzir este quadro da galeria da vida, do qual vos ofereço um modesto esboço...

2005-03-16

Palavras - XV

Lá por que és um homem de palavra e achas que não tens o dom da palavra, talvez gostes de molhar a palavra, ou será que preferes comunicar por meias palavras?
Receias falar, porque palavras leva-as o vento? Mas as palavras são como as cerejas e, se as engoles, ainda te nasce uma cerejeira na garganta e depois, cada vez que abrires a boca...imagina o que acontecerá...
Escusas de pensar palavras loucas, orelhas moucas, porque isso são desculpas para não dirigires a palavra a quem só te quer dar uma palavrinha, mas que em caso de comprovada necessidade é capaz de estar uns minutos sem dizer palavra, palavra de honra!

Menina da Ribeira

Reflexos - VI

OS PROFESSORES

O professor disserta
sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz
com medo de acordá-lo.

Carlos Drummond de Andrade

2005-03-15

Do sempre teu...

Minha "Amora"!

Como vai a minha adorada?
Sabes, gostei muito da cartinha da fofinha!
O nosso caso traz-me empolgado! Tenho alucinações e até fico suado! O amor é a mais forte das paixões, porque ataca ao mesmo tempo a cabeça, o coração e o corpo.
Tenho muita pena de não estar ao pé da "quiducha"!
Um "quimboio" cheio de jinhos e mais jinhos deste sempre teu...
Quim

P.S.: Achas estas cartas ridículas? Eu nem dou por isso, porque " Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas."

Para o Quim, da São (Acção)

Meu Amor,

Como está o meu adorado?
Gostei muito da tua piscadela de olho! Só penso no nosso caso! Amor antigo não enferruja!
Quando te vejo, pareço uma gelatina e o meu coração um tomate esborrachado!
Olha, lindinho, a fofa só pensa no fofo. Estás sempre no meu coração! Amor com amor se paga!
Bué de Jinhos!

P.S.: Esta carta parece ridícula, porque " As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas."

Citações 2

"As grandes coisas são muitas vezes mais fáceis do que aquilo que se pensa."
(Voltaire)

Palavras - XIV

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
investe
perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se
A palavra precisa de ternura

José Afonso, Textos e Canções

Chávenas de chá

É um(a) consumidor(a) de chá? E também de cacau?
E as chávenas (ou canecas) apresentam manchas?
Não sabe como eliminá--las?
Misture sal refinado e bicabornato de sódio em partes iguais, humedeça um pano e limpe-as.
Pode optar por utilizar apenas sal grosso, ligeiramente humedecido, desde que as chávenas não sejam de plástico.

Parabéns!

Parabéns, Mãezinha!

Olhos fechados, Mâe:
Nova semente?
Nenúfar aguardando a Madrugada?
Ou forma natural de sol poente?

Sorriso fixo, Mãe:
De Eva que dorme?
Ou de um Deus-Criador feliz, ao ver-se
Reflectido no Homem?

As mãos pousadas, Mãe:
Dever cumprido?
Ou jeito próprio de pegares no terço
A meio dum trabalho interrompido?

A roupa nova, Mãe:
Já só tens esta?
Ou, farta de ficar para outros irem,
Vais finalmente à Festa?

Lopes Morgado

A mesa posta, uma rosa numa jarrinha, um bolo de maçã pincelado com geleia da tia Fernanda e decorado com duas velas, um postal - marcador - com poucas palavras, mas verdadeiras, a que acrescento esta amostra de amor, envolta numa gratidão imensa e ainda um ...desculpe qualquer coisinha!
Um terno abraço!

P.S.: Parabéns às outras mães que também fazem anos hoje, à tua, minha amiga, aos que o não são, aos que nascem para a vida, a todos!

2005-03-14

Salada Russa de Coentrada

Ou...
Um "toque" alentejano numa salada de Leste.

«Abre-se uma lata de atum e outra de feijão frade.
Deita- se o conteúdo das latas num recipiente.
Cozem-se ovos! (Isto é que dá uma trabalheira, porque depois de cozidos convém descascá-los.)
Juntam- se os ovos já cozidos, (e sem casca), ao atum e ao feijão.
Mistura- se tudo, tempera- se com azeite e vinagre a gosto e....(AGORA É QUE É!), salpica- se com COENTROS, em abundância!
Pega- se no recipiente e leva-se para o Parque de Campismo de S.Torpes.
Partilha- se a salada com os amigos e acompanha- se com um bom vinho branco, de preferência alentejano, para que o "toque" seja mais refinado.
No fim do repasto serve-se café e queijadinhas do Porto- Côvo! »

NOTAS FINAIS: -As latas põem- se no lixo porque não são comestíveis ( por enquanto).
Os ovos, tanto podem ser "galados"como não.
O uso de cebola (aceita- se) porque enriquece o paladar.
E... se por acaso, ficar "empachado"(dificuldade na digestão), telefone à D. Aurora,especialista em CHÁS desempachantes!

Provérbio

"No poupar é que está o ganho."

Palavras - XIII

" O brilho das palavras igual ao brilho do silêncio"
António Ramos Rosa

Qual é a palavra brilhante do teu silêncio?
O brilho da minha palavra é estrela, mas podia ser farol ou aurora, simplesmente.

Sardinheiras

As sardinheiras já têm um mês e, apesar da seca, sobrevivem; até já estão maiores e mais viçosas!

Sabores à Portuguesa - II

Costeletas de Porco de Coentrada

4 costeletas de porco
2 dentes de alho
1 molhinho de coentros
1 dl de azeite ou de manteiga derretida
0,5 dl de vinagre ou sumo de limão
pimenta

Tempere as costeletas com sal.
Descasque os alhos e pique-os e também os coentros. Misture com o azeite, ou manteiga, o vinagre ou limão e a pimenta.
Grelhe as costeletas e sirva-as regadas com este molho.

Acompanhamento: batatas fritas ou cozidas e salada.

Bom Apetite!

Se...

Se eu gostasse muito de chá, se tivesse uma cafeteira de bico e uma horta onde pudesse colher hortelã, salsa e laranjas...querem saber o que faria?
Chá de folhas de hortelã, perfumado e saboroso, excelente tónico, regulador das funções intestinais e precioso auxílio de digestões difíceis - quando algumas pessoas comem e bebem o que não devem e ficam "empachadas".
Chá de folhas de salsa, bom remédio contra a anemia.
Chá de casca de laranja amarga, ajuda as digestões lentas e difíceis (cá temos o mesmo caso) e trata os estômagos doentes.

Se eu fosse desportista e tivesse um jardim com malvas, faria um chá com as suas folhas, porque descongestiona, combate as inflamações, desde uma dor de dentes até à cura de feridas - qualquer atleta, até os melhores e mais treinados, podem sofrer uma amostra de lesão...

Se eu estivesse com tosse, apanharia bálsamo no quintal da minha mãe e poderia fazer um delicioso xarope com açúcar amarelo - juntaria cenoura.

Se eu tivesse uma farmácia e um "Emporium", não acharia graça nenhuma a esta conversa...

2005-03-13

A deusa

Os homens chamam-lhe "deusa", provavelmente pela sua beleza exótica, elegância, longos cabelos negros, olhos de mel, imensamente expressivos, sorriso pronto e discreto, sensualidade transparente, agilidade, encanto...Mas ela é muito mais do que isto!
Ela pergunta se não é linda, sempre que atinge algum objectivo, mas, se está insegura, diz que elas, as amigas, acham-na linda, e refuta-o!
Quando tropeça nalguma pedra do caminho, chora pela sua ingratidão a quem gosta e confia nela e vê-se a pior pessoa do mundo; depois esconde-se, envergonhada!
Reaparece vestida de esperança, quando avista ou desenha uma luz ao fundo da estrada que vai recomeçar a trilhar...
Há dias abraçamo-nos com saudade! Estava emocionada e falava sobre os postais que lhe enviei enquanto esteve no norte, nas cartas que me escrevera e que ainda conservava consigo, na sua mudança para outra localidade, na alegria que quer dar à família ...
Exibiu um caracol que pendia do seu fio, sobre uma medalha de S. Judas Tadeu, repetindo que "devagarinho se chega ao longe" e dizia orgulhosamente que ainda se lembrava do: " Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí!"...
E eu recordei-lhe o que ela escrevera, no painel da sala de espera, na primeira vez que fomos à consulta, assinado: "EU!"...
Ela partiu, e seguiu-a o eco do meu: "Recomeça!"

Arco-Íris - V

QUERER e PÔR

Nas formas do verbo PÔR
E também nas do QUERER
Nunca se deve escrever
Z, seja em que caso for.

Eu quis, tu quiseste, ele quis;
Eu pus, tu puseste, ele pôs;
tu propuseste, ele propos
Irmos todos a Paris...

Mas fazer, dizer, luzir,
Produzir e desfazer
E outros, têm de se escrever
Sempre com Z (de vizir).

E é pena que em documentos
Oficiais venha: QUIZ.
(Só com um murro no nariz!...)
QUIS - com S - seus...portentos!

Pedro Pires, Ortografia

Palavras - XII

POEMA DA VOLTA PELO BAIRRO

As palavras saíam-lhe da boca
altas e frondosas como as árvores,
e o vento que soprava levava as palavras consigo
e deixava-as cair nas terras férteis
onde se multiplivavam e cresciam.
Eram essas palavras sonorosas,
pesadas e sumarentas como as laranjas escolhidas,
e nelas se comparavam as virtudes às flores,
e o vício à lepra,
e a vida inteira ao caudaloso rio
que flui, estreito e efémero,
tropeçando nas pedras e nos limos.

Recolhi-me no quarto com as palavras fervendo nos ouvidos,
e aí me entretive a pesá-las,
uma a uma,
numa balançazinha que lá tenho.
Pesei-as, e arrumei-as nas prateleiras.
Aqui, a boca; além, as árvores frondosas.
Deste lado, a virtude; do outro, as flores.
Aqui, o vício; mais além, a lepra.
Aqui, o rio efémero; além, a vida.
E como a noite estivesse realmente agradável
Saí, e fui dar uma volta pelo bairro.

António Gedeão

Reflexos - V

" Andamos no mundo quase todos como se fôssemos desconhecidos uns dos outros: quero Amor, quero a mesa aberta, quero a sinceridade e o abraço. Quero estar à mesa do pobre, sem ser por atitude calculada, antes porque o coração mo pede; quero estar à mesa do rico à minha vontade. Quando o pobre não percebeu isto, eu saí; saí, quando o rico não percebeu isto."

Sebastião da Gama

Dos rios...

Dos rios
Da Paz
Do melro
Do verde
Dos montes
Do luar

Levou- te o vento
Ou foi o mar?...

(carolina)

Provérbio

"A doçura do proveito tira a dor no peito."

2005-03-12

A Cafeteira de Bico.

Foi hoje, agora, a estreia da minha Cafeteira de Bico!
Autêntica, chocolateira, de cujo e afilado bico dá gosto ver escorrer o, neste caso, CHÁ!
Mas cá me parece que, um cafezinho com leite, também ficará um luxo em tal recipiente.
Duas boas amigas providenciaram a aquisição de tão fina baixela!
11 euros me custou a peça!
E foi com um solitário chá (mistura de príncipe com lúcia- lima e um pingo de leite) que inaugurei a Cafeteira.
Duas torradas com requeijão acompanharam a cerimónia!
Um luxo!!!
Será que mereço?...

O homem do jipe.(esclarecimento)

Afinal, o cão castanho do homem do jipe branco, não é um cão, é uma cadela e chama-se Braca.
Esclarecimento obtido à porta da livraria, nesta cinzentíssima tarde de Março.

Para a minha afilhada Carol e irmãos!

Canção da Girafa Constipada

D.Girafa
Ó que pescoço tão alto
D. Girafa
Deve ser uma aflição
D. Girafa
Usa sempre cachecol
Porque tem medo
De apanhar constipação
Atchim! Atchim!

D.Girafa
É magrinha e elegante
D. Girafa
É mais alta que o pinheiro
D. Girafa
Quando estica o seu pescoço
Consegue ver lá de cima
O mundo inteiro
Atchim! Atchim!

(carolina)
(Se quiser pode cantar usando a música de : Sebastião, come tudo...tudo....tudo...)

Provérbio

"Põe, a tempo, todas as coisas nos seus lugares."

O jardim

10 de Março de 2005, quinta-feira, 18h 22m

Atravesso a minúscula ponte vermelha e um aceno de gotas preguiçosas detém os meus passos e prende o meu olhar na serenidade do lago verde pálido, painel onde desenham incessantes círculos mágicos com um compasso simétrico que os vai multiplicando e aumentando, continuamente ...
As árvores vêem-se ao espelho, reflectindo as suas formas, cores, beleza única, intacta, até à outra ponte...
Viajo na minha imaginação até ao jardim de sonho da minha amiga, com palmeiras, fetos, entre outros, com duas flores desiguais, que estendem as pétalas pedindo abraços, que as abrem e fecham com gestos e sorrisos de criança, que deixam escorrer uma lágrima de tristeza e medo...
E lá está o alegre e ágil arbustozinho a sacudir as folhas de beijos e traquinices próprias da sua idade...
A terra está seca, o feto desabado, a palmeira sisuda, de pernadas caídas, estremece e esconde-se em máscaras feias...
A tartaruga chamou o jardineiro, as borboletas e todos os amigos do reino da paz e começaram a regar a terra endurecida na esperança que o jardim volte a florir...
O canto dos pássaros chama-me e pergunto-lhes por que não prestam atenção ao deslizar da chuva no lago, por que não se abrigam, mas eles festejam o encontro da água com a terra, limpam as penas, porque sabem que a chuva faz falta à vida, quando não está enfurecida e causa desgastes irreparáveis...

2005-03-11

Provérbio

" Bom conselho desprezado há-de ser muito lembrado."

Para a minha afilhada Carol!

O CARACOL

De manhã no meu quintal
Há um bichinho
Engraçado
Um caracol já velhote
Rastejando sobre as couves
E suspirando
Cansado...

Eu dou-lhe um toque na concha
Dizendo: -Bom dia, Amigo!
Ele recolhe os "pauzinhos"
Pensando que sou um perigo

É um bichinho
Simpático
Nunca lhe faria mal
Faz parte da bicharada
Que enfeita
O meu quintal!

(fiz eu...)

Reflexos - IV

Lisboa, sexta-feira, dia 20 de Junho de 1997

Mãezaça:

Vou com o Tiago ao “King”, logo à noite. Não sei os filmes que passam, mas são
sempre óptimos.
Se quiser vir...

Beijos.

Rita Ferro, Desculpa lá, Mãe

Palavras - XI

"- Ah, não, não. Queria uma palavra mais cara, sabe... mas não queria gastar muito dinheiro...
- Pois é, mas o que é caro custa dinheiro, não é verdade?
- Ah! E aquela ali?
- Bem... aquela não é cara. Até lhe posso fazer um preço jeitoso, mas como vê é uma palavra composta.. a bem dizer são duas palavras. Se levar só uma nem faz sentido...
- Compreendo. Mas estou um pouco indeciso... olhe, vou atirar uma moeda ao ar e logo se vê qual escolho.
... Saiu coroas!...
- Então o que é que decide?
- Agora com coroas, já tenho dinheiro para levar a palavra inteira!
- Sim senhor... ora aqui tem. E muitos parabéns porque vai muito bem servido. Olhe que “ NOVO- RICO” não é uma palavra para toda a gente!.."
Carlos Cruz e Outros, Pão com Manteiga

2005-03-10

Provérbio

"Se podes olhar, vê; se podes ver, aprecia."

Estátua

Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rasto branco dos navios

(Sophia de M. B. Andresen)

A gaivota

Todos os dias a gaivota saltita alegre e determinada no calçadão e poisa repousadamente no muro, observando o mundo, de olho vivo e brilhante, cogitando...
Debaixo da sua asa traz merenda para as outras gaivotas. Chama-as quando estão distraídas e distribui-lhes o pão que amorosamente amealhou...
Os seus olhos navegam por mares e mares e aportam em terras distantes ou logo ali...
Do seu bico soltam-se sorrisos para quem passa, palavras alegres, simpáticas, graciosas...
E sabe guardar silêncios carinhosos e sussurrar ais medrosos de algum cão gigante que passa...
O seu coração é um guarda-jóias que abre e fecha e com ele e com a sua imaginação voa, voa...E ecoam ritmos discretos e cantos de amor arrebatadores e persistentes de vencedora!
Lá está ela, sacudindo as asas feridas, molhadas de dor, batendo-as, desafiando o vento que só a leva para onde ela quer, dançando, desenhando palavras no céu, espalhando estrelas azuis por onde passa...

São assim,as...

AS GAIVOTAS

As gaivotas. Vão e vêm. Entram
pela pupila.
Devagar, também os barcos entram.
Por fim, o mar.
Não tardará a fadiga da alma.
De tanto olhar, tanto
olhar.
Eugénio de Andrade

Palavras - X

Silêncio

A vida que não se troca por palavras
tão íntima, tão discreta, tão secreta
(tão em contradição com o dia a dia)
faço o mal que não quero e não faço o bem que desejo:
ensejo de verificar o barro de que somos feitos.
Mas afinal nesta animal aflito
interdito por às vezes trocar as voltas do caminho
Do efémero, do frágil e do passageiro pendente,
neste animal aflito, o grito
de apelo, anseio de infinito, com palavras
se exprime. Ou será no silêncio, inteiro,
que há-de guardar-se, verdadeira, a vida que se não
troca por palavras?

Maria de Lourdes Belchior, Gramática do Mundo

Reflexos - III

Lisboa, 4 de Maio de 1993

Querida Marta,

Resolvi escrever uma “mensagem” ao meu pai, já que não consigo falar com ele. É assim:

Se fosses da minha idade
Podia falar contigo
Se tu fosses meu colega
Podia estudar contigo
Se tu fosses uma bola
Podia jogar contigo
Se tu fosses meu irmão
Podia embirrar contigo
Se tu fosses meu amigo
Podia contar contigo.

És meu pai (em part-time)
Que posso fazer contigo?!

Por baixo, escrevi o meu nome e agora o cartão está escondido na minha mesa- -de-cabeceira, à espera que eu tenha a coragem de entregá-lo ao destinatário.
Vou voltar a deitar-me, que estou a sentir-me tonta.
Um beijo da
Joana

Maria Teresa Maia Gonzales, A Lua de Joana

2005-03-09

Arco-Íris - IV

A gente

Esta expressão utiliza-se na linguagem coloquial, em vez de do pronome pessoal da 1.ª pessoa do plural, nós.
O sujeito a gente, apesar de conter uma ideia colectiva, é singular e concorda com o verbo em pessoa e número - 3.ª pessoa do singular.
Ex.: A gente está à espera da Rita!

Preste atenção a esta graciosa explicação de Virgílio Couto

QUEM se preza não diz destas:
“A gente vamos” - que feio!
“ A gente vamos” - não presta,
É erro de palmo e meio!

A gente vai” - isso sim:
- Singular com singular;
Isto, parece-me a mim,
É bem fácil de acertar!

Plural, também pode ser;
Mas é “nós”, e não “ A gente”;
Nós vamos” - Está bem de ver;
“ A gente vai” - igualmente!
Virgílio Couto


Agente - que age, actua.

Ex.: A D. Maria é agente do Estado.
O pai do Bruno éagente de polícia.
A minha amiga contratou um agente secreto.
O Sr. Varandas é agente de câmbio.
Oagente provocador da revolta não é português.
O meu vizinho é agente de negócios.
A Ana é agente de informação.
O meu agente literário tratou de tudo com o editor.
Quando for grande, quero ser agente publicitário.
Em que voz encontramos o agente da passiva?

LEITURAS 2

"Ninguém nasce desta ou daquela raça.
Só depois nos tornamos pretos,brancos ou de outra qualquer raça."

(Extracto do diário de Irene, parafraseando Simone de Beauvoir)
«Livro de Mia Couto: VINTE E ZINCO»

E mais diz ele: "Vinte e cinco é para vocês que vivem nos bairros de cimento. Para nós, negros pobres que vivemos na madeira e zinco, o nosso dia ainda está por vir."

(Fala da adivinhadora Jessumina)

Provérbio

"Só há uma forma de chegar aos 100 anos: ter o máximo cuidado aos 99."

2005-03-08

Resposta ao DNS...

Frutos

Pêssegos,pêras,laranjas,
morangos,cerejas,figos,
maçãs,melão,melancia,
ó música dos meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor,pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina,tangerina.

(Eugénio de Andrade)

Dia.

Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.

(Sofia de Mello B. Andresen)

Canto

Hoje, amanhã e sempre eu canto e sorrio para os homens da minha vida, para a saudade e as recordações que alguns mantêm vivas no meu peito e que ainda toldam os meus olhos, para aqueles que saúdo e não me dizem: Bom dia!...
E faço-o também à mãezaça, à amigona, à professora, à parente, à vizinha, à colega...
E beijo as crianças, porque são crianças e aqueles (-as) que ainda o são, sem distinção...
E respeito os idosos que desejo acariciar...
E abraço o mundo, porque abraço e por que, como me dizia o poeta Al Berto, "O amor não tem sexo."
E digo OBRIGADA a todos, até àqueles que nunca vi, nem imagino quem e como são, mas que, de algum modo, contribuem para a minha vida, a quem fico a dever o esforço de trabalhar a terra, de vencer o mar, recolher o lixo, de fazer estradas, de confeccionar roupa, de preparar alimentos, de construir, de criar, de escrever estórias de encantar...
E deixo às Mulheres sem rosto de todos os tempos um poema do Lopes Morgado:

8 DE MARÇO

Hoje,
Só canto para as Mulheres:

As que passaram na rua,
Aquelas que não saírem
Para a rua, as que se encontram
Na cozinha, no escritório,
Ao balcão, na enfermaria,
Na cadeia, no convento,
Na escola, no gabinete,
Na empresa, no sindicato,
No campo, no parlamento,
No lupanar ou na igreja,

Orientando o tráfego dos homens,
Chorando o filho morto pelos homens
Ou o filho feito à força pelos homens,
Lavando a roupa suja dos seus homens
Ou consertando os nervos rebentados
Pelo silêncio-garra dos seus homens,

Essas Mães inconsoláveis
Das praças todas de Maio,
As mães de inocentes mortos
Às ordens de homnes-herodes,
As mâes fiéis junto às cruzes
Que homens-pilatos ergueram,
Mulhers, Mâes, virgens-loucas
De todos os noivos-machos,
Primas, amigas, vizinhas
De casa, de luta e sonho,
De raiva, de crença e vida,
Companheiras, inimigas,
Minhas Irmãs, minha Mâe.

São Mulheres? Hoje basta.
É dia oito de Março:
À Mulher-Mãe desta casa
Para onde há muitos anos
Mudei ao deixar a sua.
Por isso é que eu hoje canto
Só para as Mulheres: na rua
Ou noutro lado qualquer.

Salve, Mulher e Mãe! Ámen!
E seja o que Deus quiser.

2005-03-07

Arco-Íris - III

Olá!
Estão prontos para descobrir a utilização desta palavra, da forma do singular - pronto - e de Pronto!, frequentemente ultrajado com a aposição incorrecta de um -s?!...
Então vamos lá!

Pronto
Exs.: O Francisco está sempre pronto a ajudar os amigos. (disposto a...)
A Maria comprou um casaco no pronto a vestir do bairro.
Naquela loja só se vende a pronto pagamento.
Ele já está pronto para outra.
Podem vir par a mesa, porque o jantar está pronto!
Querubim da Silva! - chamou o professor. Pronto! (presente) - respondeu o rapaz.
O acidentado seguiu para o hospital no pronto-socorro.
O mecânico arranjou o carro num pronto ou de pronto. (num instante)

Prontos
Exs.: Já estamos prontos para ir à festa. (preparados)
Os sapatos ainda não estão prontos. (acabados; consertados)
O mendigo perguntou-lhe se tinha lumes-prontos. (fósforos)

Pronto! (interjeição - palavra invariável )
Ex.: E Pronto! (tudo acabado; acabou-se) Cheguei ao fim!
Pronto! Pronto! Pronto!! Nada de "Prontos!", nem "Prantos!" - pranto só se o motivo for grande e doloroso.

Palavras - IX

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E as consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade

O homem do jipe.

O homem do jipe branco tem um cão castanho.
A primeira vez que nos cruzámos,o cão rosnou-me e eu zanguei-me com o homem.
-Pois é!-disse eu-vocês batem nos cães com varas e depois os animais ao verem uma bengala, sentem-se ameaçados e tentam atacar .
O homem, sorridente, respondeu:
-Mas olhe que eu nunca bato no meu cão!
Não me convenceu nesse dia,mas, agora sei que é verdade.
Vejo-os com frequência na praia.
O homem pesca a manhã inteira e o cão nada a manhã inteira.
Mas o mais interessante é que,quando não vai à pesca,o homem leva o cão à praia de propósito para lhe dar o prazer de nadar.
E enquanto um caminha pela areia, o outro "refresca-se refasteladamente" na
água.
Um homem destes não bate em cães de certeza!
Cumprimentamo-nos agora com um aceno de mãos, e o cão, esperto,já não rosna ao cruzar-se comigo.
Pois é.
Há cães espertos como os homens!
Há homens de coração amigável como os cães!

PROVÉRBIOS...

Hoje são três os provérbios que publico.
Porque são oportunos!
Porque os "acontecimentos" o exigem!
E porque penso que,as pessoas a quem os dedico,terão inteligência suficiente para os entender e seguir!
Assim sendo:

"Mais consegue a brandura do que a violência."

"Quando há muito a punir, há muito a perdoar."

"Zangas de namorados são amores renovados."

2005-03-06

Canção

Destino

Águas paradas
Claro luar
Um quase nada
Muito melhor

Nesta viagem que comecei
Grave miragem a mim chamei

Se foi meu destino
Contar uma história tão breve
É longo o caminho
Mas a alma quer

Se foi meu destino
Cantar com uma voz que me chora
É longo o caminho
Mas a alma adora

(Madredeus-o espírito da paz)

Provérbio

"É mais fácil encontrar um amigo do que conservá-lo."

Sabores à Portuguesa - I

Nota de Abertura
Estes sabores serão simples e práticos, destinados a pessoas apressadas, mas com apetite...


Batatas-Doces Fritas

Ingredientes (4 -6 pessoas)
6 batatas-doces
Óleo q.b.
papel absorvente
canela e açúcar q.b. ou sal q.b.

Descasque as batatas e corte-as às rodelas finas. Lave-as e enxugue-as num pano.Frite-as em óleo fervente, coloque-as sobre o papel absorvente durante alguns minutos, retire-as, disponha-as numa travessa e polvilhe-as a gosto...

Os madeirenses, para quem a batata-doce é simplesmente batata - a batata é "semilha" - preferem o sal, enquanto os continentais optam pelo açúcar, canela, ou nada.

Bom apetite!

Reflexos - II

" Era uma vez uma menina . Doce. Inteligente. Solitária. (...)
Certo dia, a menina encontrou...uma amiga! Uma amiga bonita e divertida, com um sorriso que era como o nascer do Sol.(...)
A menina estava encantada.
"O que faria sem ti?", exclamou.
"Vais ser minha amiga para sempre?"
A outra menina sorriu o seu sorriso que era como o nascer do Sol.
"Claro", respondeu, " "claro que sim! Amiga, és o máximo!"
A menina envelheceu.(...) e, finalmente encontraram-se no lar(...).
Partilhavam camisolas e de vez em quando uma delas gritava ao ouvido da outra: "Amiga, és o máximo!"
Depois de ter sido velha durante algum tempo, a menina morreu e, assim que saiu do túnel escuro para a luz, disse: "Oh, agora vou poder ver um anjo!"
Uma voz sonora fez estremecer os céus."Tu já viste um anjo, Querida! Tiveste uma amiga!"
Mil anjos rodearm a menina como estrelas dançantes (...). Olha para as minhasamigas!, disse ela!
"O que faria eu sem elas? Anjos, amigas - qual é a diferença? Abençoada aquela que tem pelo menos uma! Não são o máximo?"
Carol Lynn Pearson, Amiga, és o máximo!

E tu já encontraste o (s) teu(s )anjo(s) amigo(s), ou melhor, reconheceste que é (são), de facto, que está aqui contigo, que te estende a mão, que te oferece um sorriso ou um silencioso gesto de carinho, ajuda, solidariedade, partilha?!... E não te esqueceste de dizer-lhe alguma coisa?!...
Queres um exemplo de amigo? Um lanchinho de pãozinho com manteiga e queijo e uma maçã lavada, que uma amiga me preparou, há dias, como "uma verdadeira irmã", porque eu não tinha tempo para jantar!...
Amiga, és o máximo!

Arco-Íris - II

O Sr. Benvindo, o jardineiro, leva a vida a olhar para as sardinheiras e quando chega alguém para visitá-las diz sempre:
- Bem-vindo!

Palavras - VIII

"Era uma vez uma palavra que se chamava “pá”. Mas não gostava do seu nome, porque andava cheia de terra.
Foi ao hospital marcar consulta. O psiquiatra, depois de uma longa conversa, concordou com a mudança de nome. Isso seria até anunciado na televisão (porque o psiquiatra às vezes falava na televisão), avisando que a palavra “pá” tinha passado de moda.
Os familiares da palavra, contentes, depois de assistirem a essa mudança na televisão, saudaram-na com o seu novo nome:
- Olá, amigo. "
Joana Sofia
12 anos

2005-03-05

Neve

As sardinheiras não terão a visita assídua da amiga de terras de França nos próximos dias, porque ela e o seu amor foram para a neve...
Será que levaram tudo o que é necessário?!... Tão cuidadosa, imagino que não faltou nada!
Boas Férias! Divirtam-se!
"Bêjos" - que bela despedida à alentejana!

Inauguração!

Finalmente, a já badalada cafeteira de alumínio foi inaugurada com a preparação de um chá misto - Princípe, Bela Luísa e limão -, contribuindo para um agradável lanche de amigas.
Faltava a Bina, que devia andar pela Gulbenkian, tomando uns golos de cultura...

Sardinheiras cozinheiras

Ontem à noite, as sardinheiras receberam nos respectivos canteiros, atletas, cada uma o seu, e prepararam-lhes costeletas para o jantar...
Será que têm o mesmo livro de receitas e que o abriram na mesma página?!...

Ramo de Cheiros

Abro a porta de casa e inalo uma mistura de aromas que irradia da cozinha onde uma jarra improvisada, baixa, redonda, laranja, da Domplex, meia de água, mantém viçosos um molho de coentros e um ramo de hortelã que colhi na horta dos Manos, há algumas horas, debruçada sobre as suas leiras, pé a pé, delicadamente, com receio de magoar os seus caules, o que não impediu um hortigão de dar-me uma picadela...


Sabia que...
O coentro é originário da Europa Meridional e Ásia temperada?
A cozinha regional portuguesa, sobretudo no Alentejo, tempera sopas e saladas com as folhas de coentro?
São raros os povos que utilizam as folhas de coentro, exceptuando os Gregos e os Egípcios?
Os frutos do coentro - bagas esféricas com nervuras - são usados em diversas regiões para aromatizar vinagres, marinadas e preparar licores?
Durante os meses de Junho e Julho o coentro cobre-se de flores brancas ou rosadas?

Dia Azul

É o que se chama "um dia azul"!
Deve ser a falta de humidade que põe esta limpidez no ar.
Parece um dia tunisino! (Nunca fui à Tunísia, mas, imaginação é o que não me falta).
Estive no "calçadão" e fiz os meus "trinta candeeiros".
Gaivotas? Nem uma.Só maçaricos depenicando na maré.
Mulheres? Em casa fazendo a limpeza! (É sábado).
Homens? Lendo o jornal (a Bola?),comodamente instalados no carro.
Casais? Alguns, de carro, com cara de "enjoo".
E eu? "Bengalando" de candeeiro em candeeiro, matutando no provérbio do dia:"a cada dia basta o seu cuidado".

Diabo!!!....É que está difícil, hoje, ter só um cuidado...

Provérbio

"A cada dia basta o seu cuidado."

2005-03-04

Chá/Dançante

As gaivotas volteiam no ar ao ritmo do "cha-cha-cha"numa dança de salão.
Abro a janela e grito:
_ Ei! Tá tudo maluco ou quê??
Olham-me com penas de espanto e respondem-me com um "passodoble".
(Contagiada),recolho-me em passos de "valsa-lenta"!

Vento

Vento,

Porque queres despir o meu casaco?
Porque esfregas tanto o meu cabelo como uma mãe zangada ao lavá-lo?
Porque levantas a minha saia como um menino malcriado?
Porque puxas as minhas meias como os picos das roseiras da avozinha?
Porque tiras o meu cachecol como fazes com os balões?
Porque pões arrepias no meu corpo como o carrocel?
Porque atiras pó para os meus olhos como pedras?
Porque empurras o velhinho como uma bola de papel?
Porque assustas os pescadores como um papão?
Porque mexes na barriga grande da Senhora que esconde um bebé?
Porque não apagas o cigarro que ela fuma?
Porque destapas os pobres?
Porque não cobres com folhas os que não têm roupa?
Porque obrigas as árvores a dançar?
Porque acordas as crianças com os teus assobios?
Porque derrubas as flores e não as fecundas?
Porque estás tão zangado contigo, comigo e com o mundo?!...
Porque não mergulhas nas águas do mar e repousas um pouco nas suas profundezas?
Porque não vens buscar-me para voar e brincar contigo, vento meu amigo?!...

Menina da Ribeira

Provérbio

"A pedra e a palavra, depois de lançada não volta atrás."

Arco-Íris - I

" O primeiro dever de qualquer homem é falar com correcção a sua língua."
Afonso Lopes Vieira


AGRADECIMENTO

Eis um conselho, com humor:
Se és tu a agradecer
E a confessar-te obrigado,
Claro - não podes dizer:
Obrigados. Cuidado!
O que recebe um favor
(Ou favores) é forçado
A agradecer: - Meu senhor
( - Meus senhores...), obrigado!
E se for senhora, também
Claro - esteja preparada
Pois só poderá dizer bem
Se disser: obrigada!
Virgílio Couto

Palavras - VII

" No barco das palavras é sempre a hora de navegar, ora prolongando a viagem por misteriosas enseadas e altas ondas de aventura, ora chegando prestes a porto de salvamento.
As palavras nos levam onde nós nem sabemos que podemos chegar, mas podemos. Elas gostam de nos levar pela mão, a descobrir não apenas o mundo conhecido, mas também o mundo que está continuamente à espera que o descubram: muitas vezes ao nosso lado, muitas vezes dentro de nós próprios."
Maria Alberta Menéres

2005-03-03

Palavras/Paroles

Déjeuner du Matin

Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Ila mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petit cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler
Il a allumé
Une cigarette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur sa tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
E moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
Et ´j'ai pleuré.
(Do livro "Paroles" de Jacques Prévert)