2007-07-18

Segunda Vida


Três Vidas em Três Canções (título provisório)

E a vida é como uma canção.
Pode ser alegre ou triste.
Cantiga de Amor ou de Amigo.
Cantiga de Escárnio ou Maldizer.
Sinfonia em Allegro, por vezes vicace, outras moderato.
Som de melancólico Adagio.
No espaço/tempo de um minuto, mil vidas para serem vividas, mil canções para serem cantadas.
Noutros mares, noutros continentes, noutras ruas, estas enfeitadas de laranjeiras a rebentar de laranjas como bagos de mil sóis pendentes, ouve-se o Ti António Sabino cantando:

“Olha a laranjinha
Que caiu caiu
No regato de água
Nunca mais se viu…”

Acompanhava-se a ele próprio com o bater do martelo na bigorna. Era ferrador e enquanto a clientela não chegava, ele ia preparando “os sapatos” com que depois “calçava” éguas e cavalos que puxavam as carroças, carregadas de couves e camponeses que vinham à vila nos dias de feira ou mercado.
Rua da Estrada do Poço. Num dos lados da rua, a Oficina do Ferrador, no outro lado, uma Moagem (sempre tão enfarinhada a cara do moleiro…) e uma Casa de Pasto (chamavam assim aos restaurantes, naquela época). Aqui, sentada na soleira da porta, uma jovem aproveitava os raios de um morno sol de Outono. Dois olhos grandes, onde se vislumbrava uma certa melancolia, bem agasalhada porque era Novembro, ouvia com um sorriso o seu amigo e vizinho Ti António e, quando ele se calava, ela dizia baixinho:“Sei outra”…e cantarolava em surdina:

“Quero bem ao vento norte
Que me faz andar à vela
Quero bem ao vento sul
Que me leva à minha terra…”

(Carolina, 03/01/2007)

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