
Sóya
Há-de nascer de novo o micondó-
belo, imperfeito, no centro do quintal.
À meia- noite, quando as bruxas
povoarem okás milenários
e o kukuku piar pela última vez
na junção dos caminhos.
Sobre as cinzas, contra o vento
bailarão ao amanhecer
ervas e fetos e uma flor de sangue.
Rebentos de milho hão-de nutrir
as gengivas dos velhos
e não mais sonharão as crianças
com gatos pretos e águas turvas
porque a força do marapião
terá voltado para confrontar o mal.
Lianas abraçarão na curva do rio
a insónia dos mortos
quando a primeira mulher
lavar as tranças no leito ressuscitado.
Reabitaremos a casa, nossa intacta morada.
( De Conceição Lima, A Dolorosa Raíz do Micondó)
sóya--- conto, lenda
oká--- mafumeira, árvore para cuja copa as bruxas desertam à meia- noite...
kukuku--- coruja
marapião--- árvore com propriedades exorcizantes
2 comentários:
Hei-de ler :)
Penso que vai gostar!
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